Justiça autoriza desinternação de policial acusado de matar quatro colegas em delegacia no Ceará

Justiça autoriza desinternação de policial acusado de matar quatro colegas em delegacia no Ceará

Antônio Alves Dourado foi considerado inimputável após perícia apontar transtorno mental grave; decisão determina continuidade do tratamento psiquiátrico em Belém, com acompanhamento médico e supervisão de medicamentos

A Justiça do Ceará autorizou a desinternação psiquiátrica do inspetor Antônio Alves Dourado, acusado de matar quatro policiais civis dentro e nas proximidades da Delegacia de Camocim, no litoral norte do estado. A decisão foi tomada pelo Juízo da 1ª Vara da Comarca de Camocim na quarta-feira (29).

Dourado, que estava internado em uma unidade psiquiátrica de Fortaleza desde julho de 2025, poderá deixar o hospital e continuar o tratamento em regime ambulatorial, na cidade de Belém, no Pará. A mudança ocorre porque, segundo avaliações médicas e equipes multiprofissionais citadas na decisão, o quadro clínico do inspetor apresentou evolução considerada significativa.

A autorização, entretanto, não significa interrupção do tratamento nem ausência de acompanhamento. A decisão estabelece que Dourado deverá permanecer sob cuidados médicos, utilizar os medicamentos de forma supervisionada e ser acompanhado pela Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) no município paraense.

O caso remonta à madrugada de 14 de maio de 2023, quando quatro integrantes da Polícia Civil foram mortos a tiros dentro e nas proximidades da delegacia de Camocim.

O ataque dentro da delegacia

Segundo a investigação apresentada no processo, Antônio Dourado estava de folga quando foi até a Delegacia de Camocim armado.

Dentro da unidade, ele efetuou disparos contra colegas de trabalho. Três vítimas foram mortas no interior do prédio e uma quarta foi atingida do lado de fora.

As vítimas eram:

  • Antônio José Rodrigues Miranda;
  • Antônio Cláudio dos Santos;
  • Francisco dos Santos Pereira;
  • Gabriel de Souza Ferreira.

Após os disparos, Dourado deixou o local utilizando um veículo pertencente à corporação.

O inspetor posteriormente abandonou o carro e se entregou em um quartel da Polícia Militar.

O episódio provocou forte comoção entre os integrantes das forças de segurança do Ceará e levou a Polícia Civil a isolar a delegacia para a realização dos trabalhos periciais.

Na época, o governador do Ceará, Elmano de Freitas (PT), lamentou publicamente o episódio e manifestou solidariedade aos familiares, amigos e colegas dos policiais mortos.

Prisão e mudança para tratamento psiquiátrico

Depois de ser detido, Antônio Dourado chegou a permanecer na Penitenciária Industrial de Sobral.

Durante o período em que esteve preso, segundo o histórico apresentado no processo, ele teria tentado matar um colega de cela.

A situação processual mudou posteriormente depois que uma perícia apontou a existência de transtorno mental grave.

Em novembro de 2024, Dourado recebeu o laudo de insanidade mental elaborado pela Perícia Forense. A conclusão levou ao reconhecimento de sua inimputabilidade, condição jurídica atribuída a pessoas que, em razão de transtorno mental, não possuem plena capacidade de compreender o caráter ilícito de seus atos ou de determinar-se de acordo com esse entendimento.

Em julho de 2025, a prisão preventiva foi convertida em internação em hospital psiquiátrico, onde Dourado permaneceu até a decisão mais recente.

Diagnóstico apontado pela defesa

Quando o laudo de insanidade foi divulgado, a defesa de Antônio Dourado informou que especialistas haviam diagnosticado o inspetor com psicose esquizoafetiva, transtorno mental que pode comprometer a percepção da realidade.

A avaliação psiquiátrica passou a ter papel central na definição do destino processual do acusado.

Em vez de ser submetido a um julgamento criminal convencional, o caso passou a considerar sua condição de inimputabilidade e a necessidade de tratamento.

Isso não significa que os fatos investigados deixem de existir ou que as mortes deixem de ser atribuídas ao acusado no âmbito da investigação. A questão jurídica é diferente: a Justiça precisa avaliar a responsabilidade penal à luz da condição mental reconhecida nos autos.

Dois laudos apontaram evolução clínica

A decisão que autorizou a saída do hospital foi fundamentada, conforme o documento judicial citado no processo, em dois laudos médicos e avaliações realizadas por equipes multiprofissionais.

Os documentos indicaram evolução clínica considerada favorável e concluíram que não existiriam, naquele momento, critérios técnicos suficientes para justificar a continuidade da internação hospitalar.

A recomendação foi pela substituição da internação por tratamento ambulatorial.

Outro fator considerado pela Justiça foi a articulação realizada com a Rede de Atenção Psicossocial de Belém.

Segundo a decisão, a rede do município paraense teria manifestado disponibilidade para acompanhar Dourado depois de sua transferência.

O tratamento, portanto, deverá continuar fora do ambiente hospitalar.

Ministério Público foi contra a desinternação

O Ministério Público do Ceará (MPCE) apresentou oposição à medida.

Para o órgão, os laudos médicos não afastariam completamente a possibilidade de risco, porque a estabilidade clínica apontada pelos especialistas estaria condicionada à continuidade do tratamento e à supervisão dos medicamentos.

O MPCE argumentou que uma eventual interrupção do tratamento poderia representar um fator de preocupação e defendeu, por isso, a manutenção da internação.

A Justiça, entretanto, não acolheu esses argumentos.

Justiça rejeitou a ideia de internação permanente

Na decisão, o juízo considerou que a possibilidade futura de abandono do tratamento, por si só, não seria suficiente para justificar a manutenção indefinida da internação.

O entendimento foi de que a internação psiquiátrica é uma medida excepcional e deve ser avaliada de acordo com a situação clínica concreta do paciente.

A decisão também rejeitou a ideia de que a gravidade dos crimes atribuídos a Dourado, isoladamente, pudesse impedir a mudança do regime de tratamento.

O raciocínio adotado foi de que a gravidade dos fatos não substitui a necessidade de uma avaliação médica atualizada sobre a necessidade de internação.

Assim, diante dos laudos que apontaram melhora clínica e da existência de uma estrutura de acompanhamento no novo local de residência, a Justiça autorizou a desinternação.

Tratamento continuará em Belém

Antônio Alves Dourado pretende se mudar para Belém, no Pará, onde deverá continuar o acompanhamento psiquiátrico.

A transferência não representa liberdade sem condições.

A decisão prevê a continuidade do tratamento médico e o acompanhamento pela rede pública de atenção psicossocial, além da supervisão da utilização dos medicamentos.

A mudança de cidade também coloca uma nova etapa no acompanhamento do caso, já que os serviços de saúde do Pará deverão assumir parte da assistência necessária ao inspetor.

O debate entre segurança e tratamento

A decisão coloca em evidência uma questão delicada do sistema de Justiça: como conciliar a gravidade de um crime com a condição psiquiátrica de uma pessoa considerada inimputável.

De um lado, estão as famílias dos quatro policiais mortos e a necessidade de respostas diante de um episódio que atingiu diretamente uma unidade da Polícia Civil.

De outro, estão as avaliações médicas que indicam que a situação clínica de Dourado evoluiu e que, neste momento, não haveria justificativa técnica para mantê-lo internado.

O Ministério Público defendeu uma postura mais cautelosa, destacando o risco relacionado à eventual interrupção do tratamento.

A Justiça optou por seguir as conclusões dos especialistas que recomendaram a continuidade do tratamento fora do hospital.

As famílias das vítimas

As mortes de Antônio José Rodrigues Miranda, Antônio Cláudio dos Santos, Francisco dos Santos Pereira e Gabriel de Souza Ferreira marcaram profundamente a Polícia Civil do Ceará.

Os quatro foram mortos por um colega de corporação dentro de uma delegacia, local que deveria representar justamente um espaço de proteção e segurança.

O episódio provocou manifestações de solidariedade das autoridades estaduais e mobilizou as forças de segurança.

A nova decisão judicial reabre, inevitavelmente, o debate sobre a situação de Dourado e sobre a forma como o Estado deve administrar casos em que um acusado de crimes extremamente graves é considerado inimputável por razões psiquiátricas.

O que muda a partir de agora

Com a desinternação, Dourado deixará o hospital psiquiátrico de Fortaleza e seguirá para Belém.

Ele deverá continuar o tratamento em regime ambulatorial, com acompanhamento médico, medicamentos supervisionados e assistência da Rede de Atenção Psicossocial.

A decisão não apaga o episódio ocorrido em Camocim nem encerra o debate sobre as quatro mortes. Ela modifica, sobretudo, a forma como o Estado deverá acompanhar o acusado diante da conclusão pericial de que ele possui transtorno mental grave e é inimputável.

O caso continua sendo acompanhado pela Justiça, enquanto a rede de saúde mental deverá assumir papel fundamental na continuidade do tratamento.

A decisão também deixa evidente o equilíbrio delicado que o Judiciário precisa estabelecer entre a proteção da sociedade, os direitos das famílias das vítimas, a gravidade dos fatos e as garantias legais destinadas às pessoas consideradas inimputáveis.

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