
Lindbergh Farias destina R$ 1,7 milhão em emendas para cooperativas ligadas ao MST no Paraná; repasses geram debate sobre destinação interestadual
Recursos foram executados por meio do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e beneficiaram cooperativas vinculadas ao MST no estado que representa a base política de Gleisi Hoffmann; deputado nega favorecimento e afirma que a escolha das entidades cabe à Conab
O deputado federal Lindbergh Farias (PT-RJ) destinou R$ 1,7 milhão em emendas parlamentares que foram executadas por meio do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e beneficiaram três cooperativas ligadas ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) no estado do Paraná. As entidades contempladas atuam em regiões que historicamente integram a base política da deputada federal Gleisi Hoffmann (PT-PR), companheira de Lindbergh e ex-ministra da Secretaria de Relações Institucionais da Presidência da República.
Os recursos foram executados no ano anterior e chamaram atenção porque o volume destinado ao Paraná foi significativamente superior ao valor encaminhado pelo parlamentar ao seu próprio estado, o Rio de Janeiro.
Paraná recebeu mais recursos do que o estado de origem do deputado
Segundo os dados divulgados, o montante de R$ 1,7 milhão enviado ao Paraná representa cerca de duas vezes e meia o valor destinado por Lindbergh ao Programa de Aquisição de Alimentos no Rio de Janeiro.
Para a agricultura familiar fluminense, o parlamentar destinou aproximadamente R$ 680 mil, enquanto as cooperativas paranaenses receberam, juntas, R$ 1,7 milhão.
Cooperativas beneficiadas
A maior parcela dos recursos foi destinada à Cooperativa de Comercialização Camponesa Vale do Ivaí (Cocavi), localizada em Jardim Alegre (PR).
A cooperativa recebeu R$ 1,06 milhão provenientes de emenda parlamentar apresentada por Lindbergh Farias em 2024. O recurso foi empenhado em novembro de 2025, etapa em que o governo reserva oficialmente o valor para pagamento.
Além da Cocavi, outras duas cooperativas ligadas ao MST foram contempladas:
- Cooperativa de Produção, Industrialização e Comercialização Agrícola Ribeirão Vermelho (Coprari), em Centenário do Sul (PR), que recebeu R$ 374 mil;
- Cooperativa Agroindustrial de Produção e Comercialização Conquista (Copacon), localizada em Londrina (PR), beneficiada com R$ 260 mil.
Visita de Gleisi Hoffmann ao assentamento
A Cocavi foi visitada por Gleisi Hoffmann em abril de 2026, durante as comemorações dos 29 anos do Assentamento Oito de Abril, em Jardim Alegre.
Na ocasião, a parlamentar destacou o trabalho desenvolvido pelas cerca de 550 famílias assentadas e elogiou a produção agrícola organizada pela cooperativa, responsável pelo fornecimento de alimentos destinados a escolas e programas públicos.
A visita ocorreu meses após a apresentação da emenda parlamentar destinada à entidade.
Lindbergh nega favorecimento
Procurado para comentar os repasses, Lindbergh Farias negou qualquer direcionamento político.
Segundo o deputado, os parlamentares indicam recursos para o Programa de Aquisição de Alimentos, mas a definição das cooperativas beneficiadas é realizada pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), empresa pública vinculada ao governo federal responsável pela operacionalização do programa.
De acordo com o parlamentar, não houve interferência de sua parte na escolha das entidades contempladas.
Debate sobre emendas interestaduais
O caso ocorre em meio ao debate nacional sobre a destinação de emendas parlamentares para estados diferentes daqueles pelos quais deputados e senadores foram eleitos.
Em 2024, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Flávio Dino, estabeleceu restrições ao envio de emendas para unidades da Federação diversas da base eleitoral dos parlamentares, afirmando que a prática poderia favorecer distorções, reduzir a transparência e dificultar o controle da aplicação dos recursos públicos.
A decisão passou a integrar um conjunto de medidas adotadas pelo Supremo para ampliar a fiscalização sobre o sistema de emendas parlamentares.
Nova determinação de Flávio Dino
Na mesma linha de fiscalização, Flávio Dino determinou recentemente que os dirigentes dos 21 partidos políticos com representação no Congresso Nacional informem ao Supremo, no prazo de 10 dias, se exercem influência na definição do destino das emendas parlamentares apresentadas por deputados e senadores.
A decisão foi motivada por declarações do presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, que afirmou, em entrevista, participar de discussões sobre a distribuição desses recursos.
Investigação sobre indicações partidárias
O tema ganhou novos desdobramentos após relatório da Polícia Federal apontar que mensagens extraídas de aparelhos de servidores do Congresso indicariam participação de Valdemar Costa Neto na indicação de 21 emendas parlamentares, totalizando aproximadamente R$ 119 milhões.
Valdemar declarou que suas sugestões ocorreram dentro da legalidade e afirmou que frequentemente é procurado por parlamentares e prefeitos interessados na destinação das verbas.
Segundo ele, dirigentes partidários muitas vezes auxiliam na identificação de municípios que necessitam de recursos, especialmente em estados onde os parlamentares possuem menor atuação.
Contexto político
O episódio envolvendo as emendas destinadas por Lindbergh Farias ocorre em um momento de intenso debate institucional sobre os critérios de distribuição de recursos públicos e sobre o grau de influência exercido por dirigentes partidários na indicação de beneficiários.
Enquanto o STF busca ampliar os mecanismos de transparência e controle das emendas parlamentares, casos como o envio de recursos para estados diferentes da base eleitoral dos parlamentares continuam sendo alvo de discussão política e jurídica, especialmente quando envolvem organizações ou regiões associadas a lideranças partidárias.