
Lula abre campanha à reeleição em São Bernardo com discurso de soberania, segurança e confronto com a direita
Primeiro ato oficial da campanha reuniu Janja, Geraldo Alckmin, Fernando Haddad, Simone Tebet e dirigentes do PT no Estádio 1º de Maio; presidente recuperou a memória sindical, prometeu enfrentar chefes de facções e defendeu a criação de um Ministério da Segurança Pública
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) escolheu o lugar onde nasceu politicamente para iniciar, neste domingo (16), sua campanha pela reeleição à Presidência da República. No Estádio 1º de Maio, antigo estádio da Vila Euclides, em São Bernardo do Campo, no ABC Paulista, Lula transformou o primeiro ato eleitoral em uma combinação de memória, defesa da democracia, segurança pública, soberania nacional e mobilização contra a direita.
A escolha do cenário tinha forte conteúdo simbólico. Foi naquela região, como líder dos metalúrgicos do ABC, que Lula ganhou projeção nacional durante as grandes greves do final da década de 1970. Ao voltar ao mesmo ambiente décadas depois, agora como presidente e candidato à continuidade no Palácio do Planalto, o petista procurou apresentar sua trajetória pessoal como parte inseparável da história política que pretende novamente levar às urnas.
O evento começou pela manhã e se estendeu por quase três horas antes de Lula assumir o microfone. Durante esse período, aliados construíram uma espécie de narrativa coletiva para a largada da campanha.
Aloizio Mercadante, atual presidente do BNDES, abriu uma das falas e comparou Lula a Mahatma Gandhi, dizendo que o petista seria para o Brasil aquilo que Gandhi representa para a Índia.
Na sequência, Simone Tebet (PSB), candidata ao Senado por São Paulo e ex-ministra do Planejamento e Orçamento, concentrou seu discurso na defesa da democracia, da soberania e do combate ao preconceito.
“Para aqueles que querem matar a democracia, eles não passarão”, afirmou a ex-ministra, ampliando a mensagem para aqueles que, segundo ela, pretendem retirar a soberania do país ou construir um Brasil baseado em ódio e preconceito contra minorias.
O palco foi, assim, preparado para um discurso de continuidade, mas também de enfrentamento político.
Janja ocupa o centro do palco
A primeira-dama Rosângela Lula da Silva, a Janja, foi uma das personagens mais importantes do evento.
Antes do pronunciamento de Lula, ela falou sobre a participação das mulheres na política e recuperou a história de Marisa Letícia Lula da Silva, primeira esposa do presidente e uma das figuras ligadas à trajetória sindical do casal.
Janja afirmou que as mulheres que participaram das mobilizações dos trabalhadores tiveram papel fundamental e que essa contribuição acabou sendo pouco lembrada na narrativa política.
“Juntas somos um horizonte infinito. Um mar de rosas, margaridas, de Silvas. Gostaria de lembrar de uma Silva, dona Marisa”, disse.
A homenagem não ficou restrita ao aspecto familiar. Janja apresentou Marisa como parte importante da história das mobilizações dos trabalhadores do ABC e da construção do próprio PT.
A primeira-dama também protagonizou um dos momentos mais simbólicos do ato ao cantar o novo jingle da campanha ao lado do pastor e cantor gospel Kleber Lucas.
A apresentação foi feita como surpresa para Lula. Enquanto os dois cantavam, imagens de campanhas anteriores, momentos do atual governo e encontros internacionais do presidente eram exibidas no telão.
A participação de Kleber Lucas também ampliou a dimensão religiosa da campanha, numa estratégia de aproximação com o eleitorado evangélico.
Haddad reivindica legado na educação
O candidato do PT ao governo de São Paulo, Fernando Haddad, também discursou antes de Lula.
Ex-ministro da Fazenda e ex-ministro da Educação, Haddad procurou conectar a trajetória pessoal do presidente às políticas educacionais implementadas durante os governos petistas.
Em seu discurso, destacou a história familiar e disse que Lula ajudou a ampliar o acesso às universidades e a transformar a educação em instrumento de mobilidade social.
A intervenção serviu também como uma ponte entre a campanha presidencial e a disputa pelo governo de São Paulo.
Haddad será um dos principais protagonistas da eleição estadual, justamente contra o atual governador Tarcísio de Freitas, e o ato de São Bernardo foi uma oportunidade para apresentar os dois projetos políticos como partes de uma disputa mais ampla pelo futuro de São Paulo e do país.
Alckmin transforma o estádio em metáfora eleitoral
Coube ao vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) a última fala antes de Lula.
O ex-governador de São Paulo usou a história do estádio como metáfora para a eleição.
Segundo Alckmin, foi ali que o “time” entrou em campo não para empatar, mas para enfrentar a ditadura.
“Quem escalou os times foi o sindicato. Quem marcou o gol foi o Brasil. Quem portou a camisa 10, ou melhor, a camisa 13 da esperança, foi ele, Luiz Inácio Lula da Silva”, afirmou.
O discurso condensou a memória sindical em linguagem esportiva e eleitoral.
Ao mesmo tempo em que recuperou a tradição do sindicalismo do ABC, Alckmin apresentou a candidatura como uma continuidade histórica da luta democrática.
Também destacou a defesa da soberania brasileira, tema que ganhou espaço crescente na comunicação da campanha após a escalada das tensões comerciais com os Estados Unidos.
“É tetra, e é em defesa da soberania. É em defesa do nosso Pix, é em defesa do nosso Brasil, é em defesa do nosso povo”, disse.
Lula entra em cena com a história pessoal
Quando finalmente assumiu o microfone, Lula começou pelo ponto mais íntimo de seu discurso: sua relação com a mãe, Eurídice Ferreira Mello, a Dona Lindu.
O presidente lembrou que ela morreu em 1980, quando ele estava preso em consequência da mobilização dos metalúrgicos.
Segundo Lula, um delegado permitiu que ele saísse para acompanhar o enterro.
A lembrança serviu para ligar o personagem privado ao personagem político.
“Os homens não são medidos por época, eles são medidos por caráter, pela criação que tiveram de berço”, afirmou.
Lula também agradeceu aos apoiadores e disse que sua trajetória política lhe deu uma capacidade que, em sua avaliação, adversários não possuem: conhecer a mente e o coração de sua base eleitoral.
O discurso apresentou Lula como alguém que não chegou à Presidência apenas por uma trajetória institucional, mas que construiu sua identidade política a partir da experiência pessoal, da militância sindical e da relação direta com trabalhadores.
A frase sobre mentir para presidentes estrangeiros
Um dos trechos de maior repercussão do discurso apareceu quando Lula tentou reforçar sua relação de confiança com os eleitores.
O presidente declarou:
“Eu posso mentir pra qualquer presidente do mundo, mas eu não posso mentir pra quem confia em mim.”
A frase rapidamente ganhou circulação nas redes sociais e foi utilizada por opositores para questionar a declaração.
Dentro do contexto do discurso, Lula procurava estabelecer uma diferença entre a relação diplomática com governantes estrangeiros e o compromisso que afirma ter com aqueles que confiam politicamente nele.
A declaração, entretanto, tornou-se uma das imagens mais fortes do primeiro ato oficial da campanha.
Lula mira a direita
O presidente também adotou tom frontalmente eleitoral.
Ao defender a continuidade de seu projeto político, Lula voltou a atacar a direita e afirmou que, enquanto estiver vivo, continuará lutando para impedir que ela volte a governar o país.
Em seu discurso, associou a direita a episódios que considera exemplos de abandono social e criticou a atuação durante a pandemia de Covid-19.
A fala mostra que a campanha pretende utilizar como um dos seus principais eixos a contraposição entre a atual gestão e os governos de direita que a antecederam.
A estratégia é reconstruir a eleição como uma escolha entre dois campos políticos distintos, e não apenas entre candidaturas individuais.
Segurança pública entra no centro da campanha
Uma das principais novidades do discurso foi o peso dado à segurança pública.
O tema, tradicionalmente explorado pela direita, ganhou espaço explícito na fala de Lula.
O presidente prometeu atacar a estrutura de comando das facções criminosas, deslocando o foco da ação policial nas periferias para os grupos que, segundo ele, controlam organizações criminosas a partir de áreas nobres.
A frase utilizada para sustentar o argumento foi contundente:
“É fácil matar o bandido numa favela. Agora, o cara que manda está em uma cobertura.”
Lula afirmou que o Estado precisa alcançar aqueles que comandam o crime organizado e não apenas os integrantes que ocupam as camadas mais baixas dessas organizações.
A abordagem busca responder diretamente à preocupação com segurança sem adotar exclusivamente a linguagem tradicional do endurecimento penal.
A proposta de um Ministério da Segurança Pública
Lula vinculou sua promessa de enfrentar as facções à aprovação da PEC da Segurança Pública.
Segundo o presidente, caso o Congresso aprove a proposta, ele pretende criar um Ministério da Segurança Pública com a função de ampliar a coordenação federal no combate ao crime.
A ideia seria dividir responsabilidades entre União, estados e municípios e criar maior capacidade de articulação contra organizações criminosas.
O governo considera a PEC uma das prioridades de sua agenda.
O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), havia anunciado dias antes que daria prosseguimento à tramitação da proposta, após reuniões com Lula.
O tema se tornou especialmente importante porque a segurança pública deverá ocupar espaço relevante na eleição de 2026.
Ao assumir o assunto no primeiro ato, Lula sinaliza que pretende disputar esse território político diretamente com candidatos que tradicionalmente associam sua imagem ao combate ao crime.
Educação como prevenção
O discurso de segurança não ficou restrito ao aparato policial.
Lula também associou educação à prevenção da criminalidade.
Segundo o presidente, investir na formação de jovens é mais barato do que investir posteriormente em estruturas de encarceramento.
“O futuro significa investir em educação, o futuro significa formar os nossos jovens”, afirmou.
A mensagem combina duas das bandeiras históricas do PT: políticas sociais e educação pública.
A tentativa é estabelecer uma relação causal entre oportunidade educacional e redução da vulnerabilidade de jovens diante do crime organizado.
A campanha procura, desse modo, apresentar a segurança pública como problema que começa antes da prisão.
A facção como novo inimigo político
Ao falar das comunidades onde grupos criminosos exercem influência, Lula afirmou que existem quadrilhas que “mandam na vila” e controlam territórios pobres.
A promessa eleitoral foi apresentada em linguagem de libertação da população dessas áreas.
O presidente afirmou que o objetivo é “libertar o povo” prendendo aqueles que se consideram donos de bairros e comunidades.
É uma formulação que procura inverter uma acusação historicamente dirigida aos governos de esquerda: Lula tenta mostrar que o enfrentamento ao crime também pode ser uma bandeira do campo progressista.
O movimento é politicamente relevante porque ocorre no mesmo momento em que candidatos de direita ampliam o espaço destinado à segurança em seus programas eleitorais.
Soberania se transforma em eixo
Outro eixo central do discurso foi a soberania nacional.
Lula apresentou o Brasil como país que não deve aceitar imposições externas e afirmou que nenhuma potência estrangeira terá liberdade para explorar os recursos nacionais.
“Não quero nem que os Estados Unidos, nem que a Rússia, nem que a China, ninguém vai explorar aqui”, declarou.
A afirmação ocorre em meio ao ambiente de tensão comercial e diplomática com os Estados Unidos.
A soberania tornou-se, assim, uma palavra-chave da campanha.
O discurso eleitoral passa a associar independência econômica, defesa do território, política externa e proteção de políticas nacionais como símbolos de um mesmo projeto.
O simbolismo do chapéu
Outro elemento que marcou a presença de Lula foi o chapéu usado durante o evento.
O presidente explicou que o acessório era necessário porque não poderia expor ao sol a região do couro cabeludo submetida recentemente a um procedimento para retirada de uma lesão de câncer de pele.
A imagem do chapéu acabou integrada à comunicação visual do primeiro ato.
Lula aproveitou a referência à própria condição para fazer uma brincadeira com a multidão e dizer que, embora não pudesse retirar o chapéu para o sol, o tiraria simbolicamente para a população.
O momento adicionou um elemento pessoal a um discurso predominantemente político.
Uma campanha construída sobre memória e futuro
O lançamento em São Bernardo apresentou uma característica clara: Lula pretende disputar 2026 simultaneamente pelo passado e pelo futuro.
O passado aparece nas greves do ABC, em Dona Lindu, em Marisa Letícia, no sindicalismo e na memória da luta contra a ditadura.
O presente aparece nos resultados reivindicados pelo atual governo.
E o futuro é apresentado por meio de educação, segurança pública, combate ao crime organizado e soberania.
Esse arranjo permite ao presidente apresentar sua candidatura não como uma ruptura, mas como a continuidade de uma trajetória.
A disputa já começou
O primeiro ato oficial da campanha também mostrou que a eleição de 2026 não será travada apenas no terreno econômico.
A segurança pública ganhou lugar de destaque.
A soberania tornou-se um slogan de campanha.
A democracia reapareceu no discurso de aliados.
A religião foi incorporada pela presença de Kleber Lucas.
As mulheres ganharam protagonismo com Janja.
E a memória histórica do PT ocupou o centro do palco.
Tudo isso foi construído no mesmo local onde Lula iniciou sua trajetória política.
A campanha que começou em São Bernardo é, portanto, uma tentativa de transformar biografia em plataforma eleitoral.
O estádio que um dia abrigou assembleias de metalúrgicos tornou-se, quase meio século depois, um palco presidencial.
Ali, Lula apresentou a eleição como uma nova etapa da mesma história: um candidato que reivindica a memória das lutas do passado, promete enfrentar os novos inimigos — especialmente o crime organizado — e afirma que o Brasil deve escolher seu próprio caminho sem submissão a potências estrangeiras.
Próximos passos
De acordo com a agenda de campanha divulgada, o próximo compromisso de Lula está previsto para 21 de agosto, em Minas Gerais.
A partir do início oficial da campanha, os candidatos passaram a poder pedir votos explicitamente, realizar comícios, carreatas e passeatas e utilizar propaganda eleitoral na internet. A propaganda eleitoral em rádio e televisão, porém, tem início previsto para 28 de agosto.
Lula começou sua corrida pela reeleição no ambiente que mais ajuda a contar sua própria história.
Em São Bernardo do Campo, cercado por aliados, pela primeira-dama, por artistas, por dirigentes políticos e por uma militância que conhece os símbolos do passado petista, o presidente transformou o lançamento da candidatura em um manifesto político sobre segurança, soberania, educação, democracia e continuidade.
E deixou clara a natureza da disputa que pretende travar: uma eleição em que a memória de onde veio será usada para convencer o eleitor sobre para onde o país deve ir.