
Janja canta jingle de Lula ao lado de Kleber Lucas e leva a linguagem religiosa ao centro do lançamento da campanha
Primeira-dama dividiu o palco com pastor e cantor gospel no Estádio 1º de Maio, em São Bernardo do Campo; apresentação foi precedida por homenagem a Marisa Letícia e reforçou a tentativa de diálogo da campanha com o eleitorado evangélico
A música abriu uma das cenas mais simbólicas do lançamento oficial da campanha de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) à reeleição. No domingo (16), no histórico Estádio 1º de Maio, em São Bernardo do Campo, no ABC Paulista, a primeira-dama Rosângela da Silva, a Janja, subiu ao palco ao lado do pastor e cantor gospel Kleber Lucas para apresentar o novo jingle da campanha.
A apresentação ocorreu diante de apoiadores, dirigentes partidários e integrantes do governo, em um ato cuidadosamente construído para combinar memória política, emoção, cultura popular e uma mensagem destinada a diferentes segmentos do eleitorado.
O estádio, conhecido também como Vila Euclides, foi escolhido por sua ligação direta com a trajetória sindical de Lula. Foi naquele espaço que, durante as greves dos metalúrgicos do ABC no fim dos anos 1970 e início dos anos 1980, o então líder sindical ganhou projeção nacional. O retorno ao local transformou o início da campanha em uma espécie de reencontro com as origens políticas do presidente.
Mas a música apresentada por Janja e Kleber Lucas introduziu outra dimensão ao evento: a tentativa de dialogar com o universo religioso, especialmente com o segmento evangélico, que terá importância estratégica na eleição presidencial de 2026.
A surpresa preparada para Lula
Janja havia acabado de fazer um discurso de aproximadamente dez minutos quando chamou Kleber Lucas ao palco.
A primeira-dama apresentou a participação do pastor como uma surpresa para Lula. Os dois cantaram diante do público enquanto um videoclipe produzido em estúdio era exibido no telão.
As imagens reuniam registros de campanhas anteriores, momentos do atual governo e encontros de Lula com lideranças internacionais, criando uma narrativa visual que procurava conectar passado, presente e futuro.
A cena tinha, portanto, mais de uma função.
Era um momento artístico, mas também uma peça de comunicação política.
Era uma homenagem ao presidente, mas também uma tentativa de projetar a campanha para além do tradicional eleitorado petista.
E era música, mas carregava referências religiosas capazes de conversar diretamente com um segmento eleitoral que durante anos esteve mais próximo da direita.
Reportagens sobre o evento destacaram justamente essa combinação entre emoção, música, memória e aproximação com os evangélicos.
Kleber Lucas: um pastor no centro da estratégia
A escolha de Kleber Lucas não foi casual.
Pastor, cantor, compositor e fundador da Soul Igreja Batista, no Rio de Janeiro, ele possui uma carreira de décadas na música cristã brasileira. Seu nome ganhou grande projeção com músicas como “Deus Cuida de Mim”, uma das canções mais conhecidas de seu repertório.
Kleber também tem uma trajetória marcada por posicionamentos que o diferenciam de setores mais conservadores do meio evangélico.
Ele apoiou Lula na eleição de 2022 e se posicionou publicamente contra a associação automática entre fé evangélica e bolsonarismo. Em 2022, também gravou “Deus Cuida de Mim” com Caetano Veloso, parceria que ganhou repercussão justamente por aproximar dois universos culturais diferentes.
O músico também participou do Festival do Futuro, realizado durante a posse presidencial de Lula, em janeiro de 2023.
Sua presença ao lado de Janja, portanto, acrescenta uma dimensão política importante ao lançamento do jingle.
O recado não é apenas “há música gospel na campanha”.
A mensagem é mais ampla: há evangélicos que apoiam Lula e que podem ocupar espaço público dentro da campanha.
A frase de Janja sobre Deus
Durante a apresentação, Janja afirmou:
“Deus está cuidando da gente aqui.”
A frase dialoga diretamente com a linguagem religiosa predominante no segmento evangélico, ao mesmo tempo em que se encaixa na atmosfera emocional construída para o evento.
A referência a Deus, contudo, não é uma novidade na comunicação pública de Janja.
Em 2022, quando reagiu a uma publicação da então primeira-dama Michelle Bolsonaro envolvendo religiões de matriz africana, Janja afirmou que havia aprendido que Deus seria sinônimo de amor, compaixão, paz e respeito, independentemente da religião ou do credo.
A postura pública de Janja tem sido, portanto, marcada por uma linguagem que procura transitar entre diferentes tradições religiosas.
Uma ressalva importante sobre a religião de Janja
É necessário fazer uma distinção para evitar que a cobertura eleitoral reproduza uma informação não comprovada.
Janja não declara publicamente, de maneira inequívoca, ser adepta de uma religião específica de matriz africana. Há registros de sua participação e de manifestações de respeito a tradições de matriz africana, além de fotografias e publicações relacionadas à Umbanda e ao Candomblé que já foram utilizadas em disputas políticas e também em conteúdos de caráter preconceituoso.
Checagens independentes desmentiram, por exemplo, informações falsas de que Janja teria recorrido a um ritual de Candomblé para tentar influenciar a cotação do dólar. A própria assessoria da primeira-dama classificou aquela informação como falsa.
Há registros públicos de Janja defendendo o respeito às religiões de matriz africana. Em evento promovido pelo Ministério da Cultura, ela também destacou a importância dessas religiões e, especialmente, do papel das mulheres na proteção ambiental e na adaptação às mudanças climáticas.
Assim, a descrição jornalisticamente mais segura é dizer que Janja demonstra proximidade, respeito e diálogo com diferentes tradições religiosas, incluindo religiões de matriz africana, sem atribuir a ela uma filiação religiosa específica que ela não tenha declarado publicamente.
Essa ressalva é particularmente importante em uma campanha marcada por disputas religiosas e pela circulação de informações falsas nas redes sociais.
A trajetória religiosa de Kleber Lucas
A história de Kleber Lucas acrescenta outra camada à apresentação.
O pastor cresceu em São Gonçalo, no Rio de Janeiro, em um ambiente no qual diferentes experiências religiosas faziam parte de sua vida familiar e comunitária.
Relatos sobre sua trajetória apontam que sua mãe era ligada ao universo pentecostal, enquanto seu pai tinha ligação com o Candomblé. O próprio Kleber já relatou que terreiros da comunidade funcionavam também como espaços de apoio social para famílias em situação de vulnerabilidade.
Essa experiência ajudou a moldar sua defesa do diálogo inter-religioso.
Em 2017, ele participou de uma mobilização pela reconstrução de um terreiro de Candomblé atacado e incendiado, atitude que provocou reações de setores do meio evangélico. Sua trajetória passou a ser associada à defesa da convivência entre religiões e ao combate à intolerância religiosa.
Por isso, a presença do pastor no lançamento de Lula também carrega uma mensagem particular: um cantor gospel não precisa estar necessariamente alinhado às posições políticas dominantes em parte das igrejas evangélicas.
A ponte com os evangélicos
A dimensão eleitoral da apresentação é evidente.
O eleitorado evangélico representa um segmento decisivo na política brasileira, e a campanha de Lula vem procurando ampliar seu diálogo com esse público.
A estratégia é particularmente relevante porque o campo evangélico passou a ter papel importante na construção do bolsonarismo. Durante a campanha de 2022, Jair Bolsonaro recebeu apoio de importantes lideranças religiosas e conquistou parcela expressiva desse eleitorado.
Para Lula, portanto, não basta falar com a esquerda tradicional.
É preciso construir uma linguagem que também alcance o eleitor religioso que não se identifica necessariamente com o PT, mas que pode ser convencido por temas como emprego, políticas sociais, defesa da democracia, combate à pobreza e respeito à diversidade religiosa.
A presença de Kleber Lucas funciona exatamente nessa fronteira.
Janja entre a política e a cultura
A primeira-dama também ocupa uma posição singular na campanha.
Desde a eleição de 2022, Janja ganhou protagonismo na comunicação política de Lula e passou a participar ativamente de eventos, mobilizações culturais e decisões relacionadas à imagem pública da candidatura.
Já em 2022, houve participação direta de Janja na estratégia musical da campanha, inclusive na retomada de elementos associados ao histórico jingle “Lula lá”. A música se tornou uma ferramenta de memória política e passou a ser incorporada a atos públicos do então candidato.
A cena do Estádio 1º de Maio representa uma continuidade dessa estratégia.
Janja não aparece apenas como esposa do candidato.
Ela ocupa o palco, fala, homenageia personagens históricos da trajetória petista, apresenta artistas e ajuda a construir a atmosfera emocional dos atos.
Essa atuação também provoca críticas de setores que consideram sua presença excessiva, mas demonstra a importância atribuída pela campanha à comunicação baseada em símbolos, cultura e afeto.
A homenagem a Marisa Letícia
Antes da música, Janja fez questão de inserir no evento uma personagem fundamental da história pessoal e política de Lula: Marisa Letícia, sua primeira esposa, com quem Lula foi casado de 1974 até a morte dela, em 2017.
A homenagem ultrapassou a dimensão familiar.
Janja apresentou Marisa como mulher importante na história do movimento sindical e do próprio Partido dos Trabalhadores.
Segundo a primeira-dama, Marisa participou das mobilizações dos metalúrgicos e foi responsável por confeccionar a primeira bandeira do PT.
“Foi ela quem bordou a primeira bandeira do PT, e é a ela que eu dedico toda a minha admiração”, afirmou Janja.
A lembrança produziu uma ligação simbólica entre três mulheres: Marisa, personagem histórica da formação do PT; Janja, atual primeira-dama e figura importante na campanha; e as mulheres que a candidatura de Lula pretende mobilizar durante a eleição.
A homenagem também foi destacada pela imprensa na cobertura do evento.
A emoção como instrumento de campanha
O lançamento em São Bernardo foi cuidadosamente construído para trabalhar com a memória.
O palco estava em um estádio onde Lula havia participado de assembleias como dirigente sindical.
As imagens exibidas no telão recuperavam momentos de sua trajetória.
Janja evocou Marisa.
O público acompanhou um pastor cantando uma música de campanha.
E Lula apareceu cercado por aliados históricos e políticos que representam diferentes fases de sua vida pública.
A campanha transforma, assim, a biografia do presidente em argumento eleitoral.
Não se trata somente de apresentar propostas para os próximos quatro anos. O objetivo é apresentar a eleição como continuação de uma história que começou décadas atrás.
A música serve como ponte emocional dessa narrativa.
A presença artística dentro da política
A participação de Kleber Lucas também reforça uma característica histórica das campanhas presidenciais brasileiras: a utilização da cultura popular para produzir identificação.
Música política raramente funciona apenas como trilha sonora.
Ela cria memória.
Frases cantadas podem permanecer na cabeça do eleitor muito depois que um discurso é esquecido. Uma melodia pode ser associada a determinado candidato por anos.
Foi justamente por essa capacidade de condensar sentimentos que o jingle “Lula lá” se tornou um dos símbolos mais fortes das campanhas petistas.
Agora, a nova peça tenta atualizar essa linguagem para uma eleição em que religião, redes sociais, polarização e identidade cultural têm peso crescente.
Uma campanha em busca de novos públicos
O evento de São Bernardo revela uma campanha que pretende conservar sua base histórica sem ficar presa a ela.
Lula continua falando sobre trabalhadores, desigualdade, emprego e soberania.
Mas o ato também apresenta uma linguagem religiosa, uma presença gospel e uma participação mais visível das mulheres.
Janja aparece como personagem de ligação entre esses mundos.
Kleber Lucas representa uma parcela do eleitorado evangélico que não se identifica com o bolsonarismo.
Marisa Letícia representa a memória histórica do PT.
E Lula aparece como o ponto de convergência dessas narrativas.
O significado político de uma canção
A apresentação de Janja e Kleber Lucas pode ser interpretada, portanto, como muito mais do que um intervalo musical durante o lançamento da campanha.
Ela foi uma peça cuidadosamente inserida em um ato de grande conteúdo simbólico.
O palco reuniu política, religião, música, memória familiar e identidade partidária.
A escolha de um pastor gospel para cantar ao lado da primeira-dama permite à campanha estabelecer um diálogo explícito com um segmento religioso estratégico.
A presença de referências a Deus oferece uma linguagem comum a parte significativa desse eleitorado.
Ao mesmo tempo, a ressalva sobre as relações de Janja com religiões de matriz africana impede que a cena seja interpretada de maneira simplista: a primeira-dama não apresenta publicamente uma identidade religiosa única, e sua trajetória pública registra diálogo com diferentes tradições.
A campanha parece apostar justamente nessa capacidade de circular entre públicos.
O “Brasil pronto para mais”
O evento terminou sob o lema “O Brasil pronto para mais”, slogan apresentado pela campanha de Lula.
A ideia combina continuidade e futuro.
Continuidade porque o candidato reivindica os resultados de seu atual governo e recupera símbolos de sua trajetória.
Futuro porque a candidatura pede ao eleitor mais quatro anos para ampliar aquilo que apresenta como conquistas.
No centro dessa narrativa, a música ocupa um espaço privilegiado.
Ela é capaz de transformar política em memória, discurso em emoção e campanha em experiência coletiva.
Foi isso que aconteceu no Estádio 1º de Maio.
Entre lembranças das greves, homenagens a Marisa Letícia, referências a Deus e a voz de um pastor gospel, a campanha de Lula tentou apresentar ao público uma imagem mais ampla de seu projeto eleitoral.
Uma imagem que não fala apenas com o militante histórico do PT, mas também com o eleitor religioso, com o público feminino e com aqueles que associam Lula à própria história política do Brasil contemporâneo.
E, naquele palco, Janja não foi apenas espectadora da campanha.
Foi uma das personagens encarregadas de dar voz, rosto e emoção à largada eleitoral.