
Lula admite que houve corrupção em seus governos, reafirma inocência e volta a criticar a Operação Lava Jato
Em entrevista ao podcast Inteligência Ltda., presidente reconhece existência de corrupção nos governos do PT, diz que os responsáveis foram punidos, nega participação nos crimes investigados e afirma que a Lava Jato teve motivação política
Durante entrevista concedida ao podcast Inteligência Ltda., na noite de quinta-feira (30), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) voltou a comentar um dos capítulos mais marcantes da política brasileira nas últimas décadas: as investigações da Operação Lava Jato, os processos judiciais que enfrentou, o período de 580 dias preso em Curitiba e as acusações de corrupção envolvendo seus governos.
Ao responder às perguntas do apresentador Rogério Vilela, Lula fez uma distinção entre a existência de casos de corrupção investigados durante as administrações petistas e sua responsabilidade pessoal. O presidente afirmou que houve corrupção, reconhecendo que crimes foram cometidos e que pessoas envolvidas responderam perante a Justiça.
“Houve corrupção, e a corrupção foi provada. Os caras pagaram o preço”, declarou.
Ao mesmo tempo, Lula voltou a afirmar que jamais participou dos esquemas investigados e sustentou que foi condenado injustamente.
Presidente rejeita fazer mea-culpa
Questionado sobre a possibilidade de reconhecer erros políticos ou fazer um mea-culpa pelos escândalos que marcaram os governos do PT, Lula respondeu que não considera apropriado pedir desculpas por fatos dos quais afirma não ter participado.
Segundo ele, um mea-culpa somente deve ocorrer quando a própria pessoa reconhece ter cometido um erro.
Para defender esse argumento, Lula citou os ex-presidentes Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek, afirmando que ambos também enfrentaram acusações políticas que, em sua avaliação, jamais foram comprovadas.
Caso do triplex volta ao centro da entrevista
O presidente também voltou a comentar o processo relacionado ao apartamento tríplex no Guarujá (SP), um dos casos que resultaram em sua condenação na primeira instância.
Lula afirmou que nunca foi proprietário do imóvel e disse que seus acusadores não conseguiram apresentar documentos que comprovassem a posse ou a compra do apartamento.
As condenações da Lava Jato contra Lula foram posteriormente anuladas pelo Supremo Tribunal Federal (STF) por questões processuais e de competência da vara que conduziu os casos, permitindo que ele recuperasse seus direitos políticos.
Críticas à Lava Jato
Ao longo da entrevista, Lula voltou a fazer críticas à condução da Operação Lava Jato.
Segundo o presidente, as investigações causaram prejuízos econômicos ao país ao atingirem grandes empresas brasileiras de engenharia, que perderam contratos nacionais e internacionais.
Na avaliação de Lula, empresários eventualmente envolvidos em crimes deveriam responder individualmente, enquanto as empresas continuariam funcionando para preservar empregos e investimentos.
Ele afirmou que milhões de postos de trabalho foram perdidos em consequência da paralisação dessas companhias.
Prisão e recusa de acordo
Lula também relembrou o período em que permaneceu preso na Superintendência da Polícia Federal, em Curitiba, entre abril de 2018 e novembro de 2019.
Segundo o presidente, durante esse período recebeu sugestões para deixar o país ou buscar proteção em embaixadas estrangeiras, além de uma proposta para cumprir prisão domiciliar utilizando tornozeleira eletrônica.
Ele afirmou que recusou todas as alternativas por considerar que aceitá-las significaria admitir uma culpa que sempre negou.
Segundo Lula, sua prioridade era provar sua inocência perante a Justiça.
Defesa conduzida por Cristiano Zanin
Outro ponto abordado foi a escolha do advogado Cristiano Zanin, que anos depois seria indicado por Lula para o Supremo Tribunal Federal.
O presidente explicou que optou por um advogado que não era especializado em Direito Penal porque acreditava que precisava de alguém disposto a defender sua tese de inocência desde o início do processo.
Críticas a Sergio Moro e Deltan Dallagnol
Ao encerrar o tema, Lula voltou a criticar o ex-juiz Sergio Moro e o ex-procurador Deltan Dallagnol, principais nomes da Operação Lava Jato.
Segundo o presidente, parte da sociedade transformou ambos em símbolos do combate à corrupção e, após as decisões judiciais que anularam suas condenações, essas mesmas pessoas não reconheceram possíveis excessos cometidos durante a operação.
A entrevista marcou mais um momento em que Lula procurou diferenciar sua defesa pessoal do reconhecimento de que houve casos de corrupção durante seus governos. Enquanto reafirmou que irregularidades existiram e foram objeto de investigação e punição, o presidente sustentou que nunca participou dos esquemas criminosos e reiterou que considera sua prisão resultado de uma atuação politicamente motivada da Operação Lava Jato.