
Lula amplia aposta no crédito para motoristas e taxistas, enquanto governo tenta destravar o Move Brasil
Teto de financiamento deve subir de R$ 150 mil para R$ 200 mil; iniciativa pretende aproximar o programa das exigências de aplicativos e transformar crédito subsidiado em renovação da frota
O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva prepara uma mudança nas regras do Move Brasil, programa de crédito destinado a motoristas de aplicativos e taxistas. A principal alteração prevista é a elevação do valor máximo dos veículos financiáveis, de R$ 150 mil para R$ 200 mil, além da possibilidade de inclusão de modelos híbridos movidos a gasolina.
A medida surge em um momento em que o programa enfrenta um paradoxo: há dinheiro reservado, existe demanda por renovação de veículos, mas a liberação dos recursos ocorre em ritmo considerado insuficiente pelo governo.
Dos R$ 30 bilhões disponibilizados para a iniciativa, aproximadamente R$ 4 bilhões haviam sido efetivamente emprestados até o momento, segundo as informações apresentadas na reportagem de origem. O volume permitiu a comercialização de cerca de 40 mil veículos, mas ainda representa uma parcela reduzida do orçamento previsto.
A mudança no limite de financiamento procura acompanhar, sobretudo, as novas exigências das plataformas de transporte. Categorias de maior remuneração, como Comfort e Black, passaram a exigir modelos mais novos e, em alguns casos, veículos de valor superior ao teto originalmente estabelecido pelo programa.
A lógica do governo é simples: se o crédito existe, mas não consegue financiar os carros necessários para que os trabalhadores permaneçam nas categorias mais rentáveis dos aplicativos, a própria estrutura do programa perde capacidade de alcançar seu público.
O dinheiro existe, mas não chega na velocidade esperada
O problema, entretanto, não está apenas no preço dos veículos.
O governo identificou dificuldades na contratação dos financiamentos e passou a pressionar os bancos privados para acelerar as operações. Segundo integrantes do Executivo citados na reportagem, parte das instituições estaria impondo exigências consideradas excessivas para trabalhadores autônomos.
Entre os obstáculos relatados estão critérios relacionados ao histórico de crédito, ao rating dos clientes e às exigências bancárias para aprovação das operações.
O presidente Lula demonstrou irritação com o cenário e cobrou soluções durante reuniões realizadas no Palácio da Alvorada.
A preocupação presidencial ganhou uma dimensão política e econômica ao mesmo tempo: o programa foi concebido para transformar uma linha de crédito subsidiada em uma política concreta de renovação da frota, aumento da capacidade de trabalho e melhoria das condições enfrentadas por motoristas que dependem diariamente de seus veículos.
Em um discurso realizado em São Paulo, Lula resumiu sua insatisfação ao lembrar que o governo havia anunciado financiamento para motocicletas de entregadores, carros de motoristas de aplicativos e veículos para taxistas, mas encontrou dificuldades quando o programa passou da promessa à execução.
A crítica do presidente atingiu diretamente a burocracia financeira.
A disputa em torno dos juros
Outro ponto de tensão envolve os juros.
Os bancos privados argumentam que motoristas autônomos apresentam maior risco de inadimplência e defendem condições que considerem esse perfil. O governo, por sua vez, resiste à elevação da taxa final do programa.
A taxa mencionada na reportagem é de 8,5% ao ano para as instituições repassadoras. Para reduzir os custos de participação do sistema financeiro, o Executivo também teria zerado a cobrança relacionada ao acesso das instituições ao Fundo Garantidor de Investimentos (FGI).
O mecanismo pretende reduzir o risco das operações e facilitar a chegada do dinheiro ao trabalhador.
Na prática, contudo, permanece uma questão central: quem assume o risco quando o crédito subsidiado chega a um trabalhador cuja renda depende de corridas, combustível, manutenção e da própria disponibilidade do automóvel?
É nesse ponto que a política pública encontra a realidade econômica dos aplicativos.
Quatro vozes de uma mesma política
O Move Brasil pode ser contado a partir de quatro vozes.
A primeira é a voz do governo, que apresenta o crédito como instrumento de inclusão econômica e renovação da frota.
A segunda é a voz dos motoristas, para quem um carro mais novo pode significar menor gasto de manutenção, possibilidade de acesso a categorias superiores dos aplicativos e melhores condições para permanecer trabalhando.
A terceira é a voz dos bancos, que observa o risco financeiro e a possibilidade de inadimplência antes de liberar o dinheiro.
A quarta é a voz das plataformas, que estabelecem as características dos veículos aceitos em suas diferentes categorias e, consequentemente, influenciam o tipo de automóvel que o trabalhador precisa comprar.
É no cruzamento dessas quatro vozes que o programa será testado.
Para o motorista, o financiamento não é apenas uma operação bancária. É uma aposta sobre o futuro da própria renda. O carro deixa de ser somente patrimônio e passa a ser instrumento de sobrevivência econômica.
Boulos entra na articulação
A discussão também passou a envolver diretamente a Secretaria-Geral da Presidência.
O ministro Guilherme Boulos tem participado da articulação do governo com representantes dos trabalhadores e criticado as exigências consideradas excessivas impostas pelas instituições financeiras.
O presidente também recebeu motoristas de aplicativos para ouvir relatos sobre dificuldades na contratação dos financiamentos.
A estratégia revela uma tentativa de aproximar a política pública de seu público-alvo. Em vez de tratar o programa apenas como uma operação de crédito, o governo procura apresentá-lo como uma política voltada à chamada economia real — aquela em que o trabalhador precisa transformar o financiamento em renda todos os meses.
Bancos públicos recebem elogios
Enquanto as instituições privadas são alvo de cobrança, Caixa Econômica Federal e Banco do Brasil receberam avaliação positiva dentro do governo.
Participaram de uma das reuniões no Alvorada os ministros Dario Durigan, da Fazenda; Miriam Belchior, da Casa Civil; Bruno Moretti, do Planejamento; Guilherme Boulos, da Secretaria-Geral da Presidência; e Sidônio Palmeira, da Secretaria de Comunicação Social.
Também estiveram presentes Carlos Vieira, presidente da Caixa, e Tarciana Medeiros, presidente do Banco do Brasil.
O desempenho das duas instituições públicas na concessão dos financiamentos foi destacado durante os encontros.
A presença da cúpula econômica e política demonstra que o Move Brasil deixou de ser apenas uma medida setorial para ocupar espaço na agenda estratégica do governo.
A promessa do dinheiro e a realidade do crédito
Há, entretanto, uma distância entre anunciar dinheiro e fazer esse dinheiro chegar às mãos de quem precisa.
Dos R$ 30 bilhões anunciados, cerca de R$ 4 bilhões haviam sido utilizados. Mesmo com a ampliação do teto para R$ 200 mil, interlocutores da equipe econômica admitem, segundo a reportagem, que um cenário considerado otimista poderia levar a uma liberação total de aproximadamente R$ 10 bilhões.
Isso representaria apenas um terço dos recursos originalmente reservados.
O número coloca uma pergunta no centro do programa: o problema está na falta de dinheiro ou na dificuldade de transformar o dinheiro público disponível em crédito efetivamente contratado?
A resposta depende de uma engrenagem que envolve governo, bancos, fundos garantidores, montadoras, plataformas e trabalhadores.
Crédito como promessa de liberdade
Para o discurso político, o financiamento carrega uma imagem poderosa: a promessa de que o trabalhador poderá trocar um veículo antigo por um carro novo, trabalhar mais, gastar menos com manutenção e aumentar sua renda.
Mas existe uma segunda face dessa promessa.
O financiamento também significa dívida, parcelas, juros, combustível, seguro, manutenção e dependência da demanda por corridas. O carro pode representar autonomia, mas a dívida pode representar uma nova obrigação mensal.
Essa contradição estará no centro da execução do Move Brasil.
O governo aposta que o crédito pode funcionar como uma ponte entre trabalho, mobilidade e renda. Os bancos observam o risco da operação. As plataformas determinam padrões cada vez mais específicos para os veículos. E os motoristas precisam decidir se a nova dívida será compatível com aquilo que conseguem ganhar nas ruas.
A dimensão eleitoral
O programa também adquiriu relevância no ambiente político de 2026.
Aliados do governo avaliam que uma política capaz de entregar crédito diretamente a motoristas e taxistas pode ter importância para a estratégia de comunicação da gestão Lula. A categoria reúne milhões de trabalhadores direta ou indiretamente ligados à mobilidade urbana e ocupa uma posição relevante no debate sobre emprego, renda e custo de vida.
O Move Brasil passou a aparecer, nesse contexto, ao lado de outras iniciativas defendidas pelo governo, como a proposta de redução da jornada 6×1, a isenção do Imposto de Renda para quem recebe até R$ 5 mil e políticas de ampliação do acesso ao ensino superior.
O desafio político é transformar anúncios em resultados mensuráveis.
Para o governo, a promessa é que o crédito deixe de ser apenas uma cifra apresentada em cerimônias oficiais e se converta em carros efetivamente comprados, trabalhadores atendidos e renda gerada.
Para o motorista, a expectativa é mais concreta: conseguir financiar o veículo necessário para trabalhar.
E, para o país, o teste será saber se os R$ 30 bilhões reservados conseguirão atravessar o labirinto da burocracia financeira e chegar à economia cotidiana.
No fim, a história do Move Brasil não será contada apenas pelos bilhões anunciados. Será contada pelas parcelas pagas, pelos carros que deixarem as concessionárias e, sobretudo, pela distância — ou pela proximidade — entre a promessa de crédito e a liberdade econômica que o governo afirma querer proporcionar ao trabalhador.