
Lula chama o SUS de “obra-prima” e exalta atendimento aos pobres, mas enfermagem cobra reajuste e valorização
Presidente volta a fazer defesa contundente do Sistema Único de Saúde e compara o atendimento brasileiro ao dos Estados Unidos; discurso ganha outro significado diante da cobrança de profissionais da enfermagem por reajuste do piso e melhores condições de trabalho
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva voltou a transformar o Sistema Único de Saúde (SUS) em uma das principais vitrines de seu discurso político. Em declarações recentes, o presidente afirmou que o Brasil possui uma estrutura de atendimento que não encontra equivalente para a população pobre nos Estados Unidos e classificou o SUS como uma das “obras-primas” da saúde mundial.
A defesa do sistema público brasileiro é coerente com uma das principais bandeiras históricas de Lula: a ideia de que saúde não pode ser tratada como privilégio de quem possui dinheiro para pagar um plano particular.
Em julho, durante visita a unidades de saúde no Rio de Janeiro ao lado do diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tedros Adhanom Ghebreyesus, Lula afirmou que o Brasil havia aprendido a cuidar de sua população e citou programas como o Brasil Sorridente, o Farmácia Popular e o Agora Tem Especialistas.
Mas existe uma contradição que merece ser colocada no centro do debate.
Como um governo pode apresentar o SUS como uma “obra-prima” da saúde mundial e, ao mesmo tempo, enfrentar cobranças persistentes de uma das principais categorias responsáveis por manter esse sistema funcionando?
Essa pergunta não diminui a importância do SUS.
Ao contrário: coloca em discussão aquilo que realmente sustenta o sistema — os profissionais de saúde.
O SUS que Lula apresenta ao mundo
O discurso de Lula tem uma lógica política bastante clara.
O presidente procura apresentar o SUS não apenas como uma política pública brasileira, mas como uma experiência que poderia servir de referência internacional.
Em suas declarações, Lula costuma destacar que o sistema permite atendimento à população independentemente da capacidade financeira do paciente.
Em uma de suas falas, o presidente comparou a situação dos brasileiros pobres com a dos americanos de baixa renda e argumentou que, nos Estados Unidos, quem não possui recursos financeiros enfrenta dificuldades que não existem da mesma maneira no Brasil.
A comparação, entretanto, precisa ser feita com cuidado.
O sistema americano possui características completamente diferentes do brasileiro, enquanto o SUS é baseado na universalidade e no atendimento público. Comparar os dois países apenas pelo acesso de pessoas pobres pode produzir uma fotografia política conveniente, mas não necessariamente explica toda a complexidade dos dois modelos.
O SUS possui enormes virtudes, mas também enfrenta filas, falta de profissionais em determinadas regiões, problemas de infraestrutura, desigualdade regional e dificuldades de financiamento.
Portanto, defender o SUS não deveria significar tratá-lo como um sistema perfeito.
Reconhecer suas conquistas e cobrar suas deficiências podem — e devem — coexistir.
A enfermagem entra no centro da contradição
É justamente nesse ponto que aparece a situação dos profissionais de enfermagem.
Em março de 2026, o Conselho Federal de Enfermagem (Cofen) levou milhares de profissionais a Brasília em uma mobilização pela valorização da categoria, pelo reajuste do piso salarial e pelo avanço da chamada PEC 19.
Segundo o Cofen, aproximadamente 5 mil participantes participaram da marcha e representaram uma categoria com cerca de 3 milhões de profissionais.
A entidade afirmou que o piso estava sem correção havia mais de três anos e pediu explicitamente apoio do presidente Lula e da bancada governista para o avanço da proposta.
Esse dado é politicamente incômodo.
Porque a enfermagem não é uma categoria periférica no SUS.
Segundo o próprio Cofen, os profissionais de enfermagem representam mais de 60% dos trabalhadores do Sistema Único de Saúde.
Ou seja: quando enfermeiros, técnicos, auxiliares e parteiras reclamam de remuneração e condições de trabalho, não estão falando de uma questão isolada.
Estão falando de uma parcela gigantesca da força de trabalho que sustenta diariamente o sistema que o presidente apresenta como patrimônio da sociedade brasileira.
É importante fazer uma correção histórica
Também é necessário evitar uma acusação simplificada.
Não é correto afirmar que Lula tenha simplesmente “recusado” o piso da enfermagem.
O piso nacional foi estabelecido pela Lei nº 14.434/2022, com valores de R$ 4.750 para enfermeiros, R$ 3.325 para técnicos e R$ 2.375 para auxiliares e parteiras.
Já durante o governo Lula, em 2023, o presidente sancionou uma legislação que abriu caminho para o repasse de R$ 7,3 bilhões destinados ao pagamento do piso da enfermagem pelos sistemas de saúde de estados e municípios.
Portanto, a crítica precisa ser mais precisa.
O problema atual não é dizer que Lula criou ou sancionou o piso. O problema é perguntar por que, durante seu atual governo, a reivindicação por atualização do piso continua sem solução definitiva.
A cobrança de 2026
Em maio de 2026, o presidente do Cofen, Manoel Neri, afirmou que o piso havia sido uma conquista histórica, mas que a ausência de reajuste havia provocado defasagem em relação a outras categorias.
A entidade defende uma atualização que preserve o poder de compra dos profissionais.
Em março, a mobilização em Brasília foi justamente construída em torno dessa reivindicação.
A PEC 19 prevê correção inflacionária do piso e sua vinculação a uma jornada de 30 horas semanais. A proposta, apresentada pela senadora Eliziane Gama (PSD-MA) e relatada favoravelmente pelo senador Fabiano Contarato (PT-ES), ainda enfrentava dificuldades para avançar na Comissão de Constituição e Justiça.
O detalhe politicamente mais importante é que os próprios representantes da enfermagem pediram que Lula e sua base governista ajudassem a destravar a pauta.
Isso demonstra que a relação entre o governo e a categoria não pode ser resumida a uma simples acusação de abandono.
Existe diálogo, houve recursos destinados ao piso e há medidas federais relacionadas ao financiamento.
Mas também existe uma cobrança concreta por uma nova etapa de valorização salarial.
O discurso presidencial e a realidade do trabalhador
É aqui que a crítica ao discurso de Lula se torna legítima.
Quando o presidente afirma que o SUS é uma das grandes obras da humanidade, a frase produz uma imagem poderosa.
Mas uma obra dessa dimensão não é feita apenas por hospitais, equipamentos, medicamentos, programas federais ou prédios públicos.
Ela é feita por pessoas.
Enfermeiros.
Técnicos.
Auxiliares.
Médicos.
Agentes comunitários.
Fisioterapeutas.
Farmacêuticos.
Assistentes sociais.
Profissionais administrativos.
Trabalhadores de limpeza e manutenção.
Sem essa estrutura humana, não existe SUS funcionando.
Por isso, o discurso de valorização do sistema deveria vir acompanhado de uma política igualmente contundente de valorização de quem trabalha nele.
O problema não é apenas salário
A discussão sobre enfermagem também não pode ser reduzida ao valor do contracheque.
A categoria reivindica jornada adequada, condições de trabalho, segurança, dimensionamento das equipes e reconhecimento profissional.
A PEC 19 está associada justamente a essa discussão sobre jornada e atualização do piso.
Em 2026, o Cofen voltou a mobilizar a categoria para defender o reajuste e a jornada de 30 horas.
Isso revela um problema estrutural.
O governo pode anunciar recursos para determinados programas e apresentar grandes números de investimentos, mas o profissional que passa horas dentro de um hospital precisa sentir essa valorização diretamente em sua vida.
Não basta dizer que o SUS é patrimônio do povo. É preciso fazer com que quem mantém o SUS de pé também se sinta valorizado pelo Estado.
A comparação com os Estados Unidos
A comparação feita por Lula com os Estados Unidos também merece uma crítica.
É legítimo destacar as diferenças entre os modelos.
O SUS realmente possui uma característica que o diferencia: a universalidade.
Mas utilizar os Estados Unidos como contraponto permanente pode transformar uma discussão complexa em uma disputa política simplificada.
O Brasil deve avaliar o próprio sistema por seus próprios resultados.
Quantas pessoas aguardam atendimento?
Quanto tempo levam para conseguir uma consulta?
Quantos exames ficam represados?
Como estão os hospitais?
Como está a remuneração dos profissionais?
Qual é a disponibilidade de medicamentos?
Como está a atenção básica?
Como está a saúde mental?
Como funciona o atendimento nas regiões mais pobres e distantes?
Essas são perguntas muito mais importantes do que saber se o Brasil é melhor ou pior que os Estados Unidos.
O paradoxo político
Existe, portanto, um paradoxo na narrativa presidencial.
Lula apresenta o SUS como uma conquista extraordinária do Estado brasileiro.
Ao mesmo tempo, os profissionais responsáveis por grande parte do atendimento continuam pressionando por reajuste salarial.
Lula fala em cuidar dos pobres.
Mas milhões de trabalhadores da saúde também pertencem à classe trabalhadora que depende de salário, reajuste e melhores condições de vida.
Lula afirma que o Brasil aprendeu a cuidar de todos.
A enfermagem responde que o Estado também precisa cuidar de quem cuida dos outros.
Essa última frase talvez seja a síntese mais importante dessa discussão.
O governo tem argumentos — mas a cobrança permanece
O Planalto pode responder que já destinou bilhões para garantir o pagamento do piso, que mantém programas de financiamento da saúde e que ampliou determinadas políticas do SUS.
Esses argumentos são legítimos.
Também é legítimo lembrar que o reajuste do piso envolve impactos financeiros sobre União, estados, municípios e instituições privadas, além de questões jurídicas e orçamentárias.
O governo federal não controla sozinho toda a folha de pagamento da enfermagem brasileira.
Mas isso não elimina a responsabilidade política de liderar a discussão.
E essa responsabilidade ficou ainda mais evidente porque a própria categoria pediu apoio diretamente ao presidente.
A questão do dinheiro
O governo também precisa explicar suas prioridades.
Em setembro de 2026, a equipe econômica trabalha com restrições fiscais e mecanismos que limitam a expansão de determinadas despesas. Para 2027, o governo projetou R$ 361,5 bilhões em despesas com pessoal do Executivo e reservou R$ 9,1 bilhões para aumentos salariais e R$ 2,5 bilhões para concursos e novas contratações.
Isso mostra que a discussão sobre reajustes não acontece em um vácuo.
Existe orçamento.
Existem limites fiscais.
Existem prioridades.
E é exatamente por isso que o governo precisa explicar quem será valorizado, quanto será gasto e por que determinadas categorias recebem prioridade enquanto outras aguardam.
O SUS merece defesa — e também cobrança
Fazer uma crítica ao governo Lula nesse assunto não significa atacar o SUS.
Pelo contrário.
Quem defende o SUS pode ser justamente quem exige que ele funcione melhor.
O sistema público brasileiro merece ser preservado porque milhões de brasileiros dependem dele.
Mas a defesa do SUS não pode ser transformada em blindagem política para qualquer problema existente dentro dele.
Um sistema verdadeiramente forte precisa suportar críticas.
Precisa admitir falhas.
Precisa corrigir problemas.
E precisa valorizar seus profissionais.
O discurso que Lula precisa transformar em realidade
Lula tem razão ao afirmar que o SUS representa uma das maiores conquistas sociais brasileiras.
Mas uma frase presidencial não paga salário.
Um discurso não reduz uma jornada.
Um palanque não corrige a inflação.
E um elogio não resolve a falta de profissionais em um hospital.
Se o governo realmente deseja apresentar o SUS como uma referência mundial, precisa mostrar que a excelência também começa por aqueles que estão na linha de frente.
A enfermagem não está pedindo apenas aplausos.
Está pedindo reajuste, jornada digna e valorização profissional.
E, em 2026, o próprio Cofen continua cobrando do governo Lula apoio para essas medidas.
Por isso, a pergunta que fica para o presidente é simples:
Se o SUS é uma “obra-prima” da saúde mundial, por que aqueles que formam a maior parte de sua força de trabalho ainda precisam ocupar Brasília para pedir que o próprio governo apoie a valorização de seus salários?
Essa não é uma pergunta contra o SUS.
É uma pergunta em defesa de quem mantém o SUS funcionando todos os dias.