Tarcísio redesenha plano de governo para 2026 e transforma segurança, mulheres e tecnologia em pilares da campanha

Tarcísio redesenha plano de governo para 2026 e transforma segurança, mulheres e tecnologia em pilares da campanha

Documento apresentado ao TRE-SP amplia de 43 para 68 páginas e mais que dobra referências à segurança pública; menções às mulheres passam de 19 para 63, enquanto inteligência artificial e mudanças climáticas entram no centro de um programa que tem “prosperidade” como eixo

O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), apresentou nesta segunda-feira (17) ao Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo (TRE-SP) o plano de governo que pretende levar à campanha pela reeleição. O documento, agora com 68 páginas, revela uma tentativa clara de atualizar a identidade política da gestão e responder a temas que ganharam peso no debate público desde a eleição de 2022.

A mudança mais visível está na segurança pública. O assunto aparece 54 vezes no novo programa, contra 23 menções no documento apresentado quatro anos atrás. A diferença não é apenas quantitativa: a segurança passa a ocupar uma posição central na arquitetura eleitoral do governador, ao lado de tecnologia, inteligência, combate ao crime organizado e proteção das mulheres.

O movimento ocorre em uma eleição na qual a percepção de violência deve ocupar espaço importante no discurso dos candidatos. Tarcísio, que em 2022 apresentou um programa de 43 páginas estruturado em torno do desenvolvimento social, urbano, ambiental e econômico, agora apresenta um texto mais extenso e com novos focos. A Folha registrou que o programa original tinha como um de seus eixos fundamentais justamente o desenvolvimento, com propostas para infraestrutura, emprego, saúde, educação, segurança e meio ambiente.

A nova versão preserva a linguagem de crescimento e desenvolvimento, mas introduz uma camada mais fortemente associada à proteção social, segurança e inovação tecnológica.

A palavra “prosperidade” como síntese política

O documento está organizado em chamadas “trilhas da prosperidade”, expressão que funciona como uma espécie de fio narrativo da proposta de continuidade administrativa.

A palavra traduz uma tentativa de combinar dois campos que costumam aparecer separados no debate eleitoral: de um lado, a promessa de crescimento econômico, geração de oportunidades e investimentos; de outro, o sentimento de proteção diante da criminalidade, das mudanças climáticas e das transformações tecnológicas.

É uma mudança importante em relação ao programa de 2022. Naquele momento, o desenvolvimento era apresentado como espécie de mantra da candidatura, com três grandes diretrizes: desenvolvimento social; desenvolvimento urbano e meio ambiente; e desenvolvimento econômico e inovação.

Quatro anos depois, o governo procura apresentar uma narrativa mais conectada aos problemas concretos que passaram a dominar a rotina do eleitor paulista.

Segurança deixa de ser capítulo e vira eixo eleitoral

O salto de 23 para 54 citações de segurança pública é um dos indicadores mais expressivos da transformação do programa.

Entre as propostas está a criação de um centro de inteligência que deverá reunir as diferentes polícias, ampliando o compartilhamento de informações e a capacidade de atuação integrada do Estado.

A tecnologia aparece como instrumento de combate ao crime. Um dos exemplos é a expansão do Programa SP Mobile, aplicativo utilizado para combater roubos e furtos de celulares. Segundo os dados apresentados pela administração estadual, a ferramenta teria permitido recuperar 90 mil aparelhos desde 2023.

Outra frente é a ampliação da Muralha Paulista, sistema que busca integrar câmeras públicas e privadas espalhadas pelo estado para ampliar a capacidade de identificação, monitoramento e investigação de ocorrências.

O plano também promete intensificar o enfrentamento às organizações criminosas, colocando inteligência policial e integração entre diferentes estruturas do Estado como elementos centrais da política de segurança.

A estratégia representa uma evolução em relação ao programa de 2022, que já defendia aumento do efetivo policial, valorização das carreiras, mudanças no sistema prisional e maior cooperação com o governo federal. A antiga proposta também previa a revisão do emprego das câmeras corporais utilizadas por policiais militares.

Agora, a ênfase está menos apenas na estrutura tradicional das polícias e mais na ideia de uma máquina de inteligência conectada por dados, câmeras e tecnologia.

O crime organizado como adversário político

A escolha da segurança como um dos principais eixos da nova campanha também coloca Tarcísio em confronto direto com o PT, representado na disputa ao governo paulista pelo ex-ministro Fernando Haddad.

Haddad também incorporou o combate ao crime organizado à sua plataforma. Entre suas propostas está a criação de um gabinete institucional no Palácio dos Bandeirantes, com representantes de órgãos federais, como a Polícia Federal e a Receita Federal, além do Ministério Público.

A disputa, portanto, não se limita a quem será mais duro no combate à criminalidade. Há também uma competição pelo modelo de gestão da segurança: enquanto Tarcísio enfatiza integração tecnológica, inteligência e estruturas policiais, Haddad pretende destacar a articulação entre instituições estaduais e federais.

O tema tende a ganhar ainda mais dimensão eleitoral porque permite aos candidatos dialogar com uma das preocupações mais sensíveis do cotidiano das grandes cidades: a sensação de vulnerabilidade diante do crime.

Mulheres ganham espaço inédito

Outra alteração significativa está na forma como o plano trata as mulheres.

As menções ao tema saltaram de 19, em 2022, para 63 em 2026. O crescimento de mais de três vezes sinaliza uma mudança de prioridade dentro do documento.

O programa prevê medidas relacionadas à proteção de vítimas de violência sexual e à criação de políticas específicas para ampliar a segurança das mulheres. Entre as propostas está a criação de um cadastro estadual de condenados por crimes contra mulheres e a promessa de triplicar o número de delegacias especializadas com atendimento 24 horas.

Atualmente, segundo o documento, existem 18 unidades com esse tipo de funcionamento. A proposta, portanto, levaria esse número a um patamar de 54 delegacias.

O programa ainda promete ampliar iniciativas associadas ao “SP Por Todas”, incluindo atendimento psicológico, social e jurídico, além de medidas voltadas à autonomia profissional e financeira.

O texto menciona também o “Ônibus SP Por Todas”, concebido como uma estrutura móvel de atendimento e acolhimento.

“A rede de proteção terá total apoio jurídico, policial e social, reunindo inteligência e tecnologia para a segurança das mulheres”, afirma o plano.

A ampliação do espaço dedicado ao tema revela uma preocupação eleitoral que vai além da segurança em sentido tradicional. A campanha procura apresentar a proteção feminina como política pública transversal, associando prevenção, atendimento e autonomia econômica.

De um tema secundário a uma tecnologia transversal

Talvez a principal novidade conceitual do plano seja a entrada da inteligência artificial como elemento estratégico.

Em 2022, praticamente não havia espaço específico para o tema. Agora são 27 citações distribuídas por diferentes áreas.

A tecnologia aparece na segurança, na saúde e na educação. No setor de saúde, o documento prevê o uso de inteligência artificial para auxiliar na identificação de doenças e surtos epidemiológicos.

Na educação, a experiência já começou durante o atual governo. Em 2024, a Secretaria da Educação anunciou o uso de inteligência artificial para auxiliar professores curriculistas na produção e aprimoramento de materiais pedagógicos. A secretaria informou que os conteúdos produzidos por IA passariam por avaliação e edição dos educadores, além de verificações relacionadas a direitos autorais e design.

O novo plano transforma essa experiência pontual em uma proposta de política pública mais ampla.

A mensagem implícita é a de que a tecnologia não deve aparecer apenas como inovação administrativa, mas como instrumento para ampliar a capacidade do Estado de prever problemas, identificar riscos e prestar serviços.

Mudanças climáticas entram no projeto de Estado

Outra novidade de peso é a presença das mudanças climáticas.

O tema ganha espaço que não tinha no programa apresentado em 2022 e aparece agora associado a planejamento, prevenção e infraestrutura.

Tarcísio promete investir R$ 25 bilhões até 2029 em políticas relacionadas à adaptação climática.

O principal instrumento será o Plano Estadual de Adaptação e Resiliência Climática (PEARC), apresentado como uma plataforma destinada à prevenção e ao monitoramento de situações de risco, com integração entre órgãos estaduais, municipais e federais.

A proposta representa uma inflexão importante na forma como o meio ambiente aparece no discurso administrativo. Em vez de estar restrito a preservação de recursos naturais, o tema é apresentado como questão de segurança, infraestrutura e proteção da população.

A mudança também acompanha a crescente preocupação com eventos climáticos extremos, enchentes, deslizamentos, ondas de calor e prejuízos provocados por fenômenos naturais.

Uma nova linguagem para uma candidatura conhecida

O plano de 2026 não rompe completamente com a identidade política que Tarcísio construiu desde sua eleição.

O documento continua associado à imagem de gestor, ao discurso de eficiência administrativa, investimento, infraestrutura e crescimento econômico. A diferença está na incorporação de assuntos que ganharam centralidade durante seu primeiro mandato.

Em 2022, o programa destacava obras, infraestrutura rodoviária e ferroviária, saúde, educação, habitação, mobilidade, inovação e desenvolvimento econômico. Também defendia redução de impostos e modernização tributária.

Agora, esses elementos convivem com segurança, inteligência artificial, mudanças climáticas e políticas específicas para mulheres.

A campanha parece buscar, assim, uma fórmula que conecte a imagem de gestor técnico à de um governante capaz de oferecer respostas para problemas cotidianos.

Natália Resende assume papel central

A elaboração do novo plano foi coordenada pela secretária estadual de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística, Natália Resende, uma das principais colaboradoras políticas de Tarcísio.

O protagonismo de Resende na construção do documento reforça a importância atribuída à integração entre infraestrutura, planejamento urbano, meio ambiente e capacidade de gestão.

Reportagens anteriores já apontavam que o programa estava sendo estruturado em múltiplos eixos e que a equipe pretendia transformar o conteúdo extenso em algumas mensagens principais para a campanha.

A construção do documento, portanto, não aparece apenas como uma formalidade exigida pela legislação eleitoral. Ele funciona também como mapa estratégico para a disputa.

O eleitor no centro da mudança

As alterações no plano contam uma história sobre a própria eleição.

A segurança cresce porque o medo da criminalidade é um problema político cada vez mais presente. As mulheres ganham espaço porque proteção, violência doméstica, violência sexual e autonomia econômica passaram a ocupar posição central na agenda eleitoral. A inteligência artificial entra porque a transformação tecnológica deixou de ser promessa distante e passou a fazer parte da administração pública. E o clima aparece porque eventos extremos tornaram a prevenção uma questão de infraestrutura e sobrevivência.

O plano de Tarcísio procura, portanto, transformar uma gestão que chegou ao poder com forte marca de infraestrutura e desenvolvimento em uma candidatura de continuidade que também quer dominar os debates sobre segurança, proteção social, tecnologia e resiliência climática.

A eleição começa antes da urna

Em uma campanha estadual de dimensões nacionais, o documento também funciona como declaração política.

Tarcísio não apresenta apenas uma lista de obras ou programas. Ele tenta construir uma interpretação sobre o futuro de São Paulo: um estado mais protegido, mais conectado por tecnologia, mais preparado para eventos climáticos e com maior atenção a grupos vulneráveis.

O contraste com 2022 é revelador. O plano anterior tinha 43 páginas e concentrava sua identidade no desenvolvimento. O novo chega a 68 páginas e amplia consideravelmente o espaço destinado a segurança e mulheres, além de incorporar inteligência artificial e mudanças climáticas.

A arquitetura mudou porque o cenário político também mudou.

Na disputa de 2026, a pergunta já não é apenas quanto São Paulo pode crescer. É também como proteger seus habitantes, como usar tecnologia sem perder controle sobre o Estado, como enfrentar organizações criminosas, como responder a eventos climáticos extremos e como garantir segurança para mulheres em uma sociedade ainda marcada pela violência.

É nesse terreno que Tarcísio pretende disputar a reeleição.

E, ao escolher “prosperidade” como mote, sua campanha tenta juntar essas diferentes peças em uma única narrativa: a de que desenvolvimento, segurança e inovação não seriam projetos separados, mas partes de um mesmo modelo de governo.

O resultado é um plano que preserva a marca original do governador, mas procura falar para um eleitorado que, quatro anos depois, apresenta outras urgências — e que deverá decidir nas urnas se a transformação anunciada no papel corresponde ao futuro que deseja para São Paulo.

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