Lula exalta o SUS em Barretos, mas transforma discurso sobre saúde em novo ataque político

Lula exalta o SUS em Barretos, mas transforma discurso sobre saúde em novo ataque político

Em visita ao Hospital de Amor, presidente diz que sistema público “ressurgiu das cinzas” durante a pandemia, promete ampliar atendimento oncológico e volta a mirar Bolsonaro; crítica é que, em plena campanha, Lula transforma até uma agenda de saúde em instrumento de confronto eleitoral

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva voltou a utilizar uma agenda dedicada à saúde pública para fazer uma defesa contundente do Sistema Único de Saúde (SUS) e, simultaneamente, atacar seu principal adversário político. Durante visita ao Hospital de Amor, em Barretos, no interior de São Paulo, Lula afirmou que o SUS “ressurgiu das cinzas” durante a pandemia de Covid-19 e voltou a criticar o chamado negacionismo associado ao governo de Jair Bolsonaro.

A declaração ocorreu neste sábado, 5 de setembro, em uma agenda que tinha como principal objetivo destacar investimentos e ações na área de tratamento contra o câncer. Lula também prometeu que pacientes oncológicos poderão receber tratamento pelo SUS em até 30 dias e anunciou medidas relacionadas à expansão da estrutura de atendimento.

O problema político está justamente na forma como o presidente conduz esse tipo de evento.

Em vez de concentrar o discurso exclusivamente nos desafios atuais da saúde brasileira, Lula novamente voltou ao passado para atacar seu antecessor.

A estratégia já se tornou recorrente.

Quando o assunto é saúde, Lula fala do SUS. Quando fala do SUS, volta à pandemia. E quando fala da pandemia, volta a Bolsonaro.

A questão é saber até quando o governo pretende utilizar a pandemia como argumento político e quando começará a ser cobrado exclusivamente pelos resultados de sua própria administração.

“Ressurgiu das cinzas”

Em Barretos, Lula afirmou que o SUS teria “ressurgido das cinzas” durante a pandemia ao garantir vacinação e atendimento à população.

A declaração foi acompanhada de uma forte crítica ao comportamento de Bolsonaro durante a crise sanitária. O presidente afirmou que declarações contrárias às vacinas representaram um “crime” e voltou a sustentar que centenas de milhares de mortes poderiam ter sido evitadas caso o governo anterior tivesse adotado outra postura diante da ciência e da vacinação.

É legítimo discutir a atuação do governo Bolsonaro durante a pandemia.

Também é legítimo responsabilizar politicamente decisões tomadas naquela época.

Mas existe uma diferença entre fazer uma avaliação histórica e transformar permanentemente uma tragédia nacional em ferramenta eleitoral.

E esse é justamente o ponto que merece crítica.

O passado como arma eleitoral

A pandemia terminou, mas Lula continua utilizando seus acontecimentos como um dos principais instrumentos de comparação com Bolsonaro.

Em praticamente todo discurso sobre saúde, aparece a mesma estrutura narrativa:

Bolsonaro teria errado; Lula teria reconstruído; o SUS teria sido abandonado; o atual governo teria recuperado o sistema.

Essa narrativa possui força política porque explora uma experiência traumática vivida por milhões de brasileiros.

Mas também possui um problema.

O governo Lula está no poder novamente desde janeiro de 2023.

Já não pode responder a todos os problemas brasileiros apontando exclusivamente para o governo anterior.

O eleitor também tem o direito de perguntar o que Lula fez com o SUS durante seu próprio mandato.

Quantas filas foram reduzidas?

Quantas cirurgias foram realizadas?

Quanto tempo o paciente espera por uma consulta?

Quanto tempo demora para conseguir um exame?

Como está a remuneração dos profissionais?

Como está a infraestrutura dos hospitais?

Quantos municípios ainda enfrentam falta de médicos?

Quanto dinheiro foi efetivamente aplicado?

Essas perguntas são tão importantes quanto discutir o passado.

O SUS merece defesa, mas também cobrança

Não há dúvida de que o SUS possui importância extraordinária para a população brasileira.

O sistema oferece vacinação, atendimento hospitalar, transplantes, tratamentos de alta complexidade, medicamentos, vigilância sanitária e uma enorme rede de atenção básica.

O próprio Lula costuma apresentar o SUS como uma das grandes conquistas sociais brasileiras.

Em outra declaração recente, o presidente chegou a chamar o sistema de uma das “obras-primas da saúde mundial”.

A defesa do SUS, portanto, é legítima.

Mas defender o SUS não significa transformar qualquer crítica ao sistema em ataque à saúde pública.

Um sistema dessa dimensão precisa ser permanentemente avaliado.

Precisa de dinheiro.

Precisa de gestão.

Precisa de profissionais.

Precisa de equipamentos.

Precisa de fiscalização.

E precisa, principalmente, entregar atendimento à população.

A promessa dos 30 dias

Em Barretos, Lula também destacou a promessa de ampliar o atendimento aos pacientes com câncer e garantir tratamento em prazo de até 30 dias.

É uma promessa politicamente importante.

Para quem recebe um diagnóstico de câncer, semanas podem representar uma diferença enorme.

O problema, entretanto, está na execução.

Não basta anunciar que o paciente será tratado em 30 dias.

É preciso garantir que existam médicos, hospitais, equipamentos, medicamentos, centros especializados e recursos suficientes para que a promessa seja cumprida em todo o país.

O Brasil possui diferenças enormes entre regiões.

O paciente de São Paulo não enfrenta necessariamente o mesmo problema do paciente do interior da Amazônia, do Nordeste ou de municípios pequenos do Centro-Oeste.

Uma política nacional precisa enfrentar essa desigualdade.

O Hospital de Amor como símbolo

A escolha do Hospital de Amor para a agenda também possui forte significado.

A instituição de Barretos se tornou uma referência nacional no tratamento oncológico e possui reconhecimento pelo atendimento gratuito oferecido pelo SUS.

O governo pretende utilizar a expansão dessa estrutura como exemplo da política de ampliação do atendimento especializado.

Esse é um ponto positivo da agenda.

Mas justamente por isso a discussão deveria ser ainda mais objetiva.

O governo precisa apresentar metas.

Quantos novos pacientes serão atendidos?

Quantos novos centros serão criados?

Quanto será investido?

Qual será a redução esperada nas filas?

Quantos exames adicionais serão realizados?

Quanto tempo o paciente levará entre o diagnóstico e o início efetivo do tratamento?

Esses números são mais importantes do que o tamanho do ataque a Bolsonaro.

A crítica ao negacionismo

Lula voltou a utilizar a palavra “negacionismo” para descrever posições adotadas durante a pandemia.

O termo possui uma carga política muito forte.

O presidente o utiliza para diferenciar sua administração da gestão Bolsonaro e reforçar sua imagem como defensor da ciência e da vacinação.

A vacinação contra a Covid-19 foi, de fato, uma das principais estratégias utilizadas internacionalmente para reduzir os efeitos da pandemia.

Mas uma avaliação histórica séria precisa ser mais ampla do que slogans eleitorais.

A resposta à pandemia envolveu União, estados, municípios, profissionais de saúde, pesquisadores, empresas, universidades e organismos internacionais.

O SUS teve papel decisivo.

Mas a crise também expôs problemas estruturais que continuam existindo.

A pergunta que Lula evita

É justamente aqui que aparece a crítica mais contundente.

Se Lula afirma que o SUS ressurgiu das cinzas, quem o colocou novamente nas cinzas?

A pergunta é importante porque a própria narrativa presidencial transforma o sistema de saúde em personagem de uma batalha política.

Se o SUS estava debilitado, é preciso apresentar dados que mostrem exatamente qual era sua situação.

Se houve recuperação, é preciso apresentar os números que comprovem essa recuperação.

Se houve aumento de investimentos, é preciso informar quanto.

Se houve redução de filas, é preciso mostrar onde.

Se houve expansão de atendimento, é preciso quantificar.

Sem esses dados, “ressurgiu das cinzas” funciona principalmente como uma frase de campanha.

O padrão de atacar o adversário

O episódio de Barretos também se encaixa em um padrão mais amplo da campanha de Lula.

Nos últimos dias, o presidente tem atacado adversários em diferentes agendas, incluindo Donald Trump, Tarcísio de Freitas e o grupo político ligado ao bolsonarismo.

A campanha também vem levando disputas eleitorais ao Tribunal Superior Eleitoral. A coligação de Lula apresentou ações contra Flávio Bolsonaro, Ronaldo Caiado e Romeu Zema, além de questionar conteúdos e um ato ocorrido na Festa do Peão de Barretos.

Isso mostra que a campanha presidencial está cada vez mais marcada pelo confronto.

E não há nada de ilegal em um candidato criticar seus adversários.

O problema político é outro.

Quando praticamente toda agenda pública vira oportunidade para atacar alguém, existe o risco de o programa de governo desaparecer atrás da disputa eleitoral.

Barretos também é um território político

A escolha de Barretos não pode ser analisada apenas pelo aspecto da saúde.

A cidade e a região possuem enorme importância simbólica para o agronegócio, para o eleitorado do interior paulista e para o campo político mais identificado com a direita.

A própria Festa do Peão de Barretos foi recentemente palco de um episódio eleitoral envolvendo Tarcísio de Freitas e Flávio Bolsonaro, que discursaram diante de um grande público.

A campanha de Lula entrou no TSE contra a participação de Flávio no evento, alegando suposto abuso de poder econômico. A defesa do candidato rejeitou a acusação e afirmou que sua participação foi breve e ocorreu como convidado.

Agora Lula aparece em Barretos para falar de saúde.

Politicamente, a escolha é significativa.

O presidente está entrando em um território onde seus adversários possuem forte presença.

E, mais uma vez, o discurso combina política pública com confronto eleitoral.

A pandemia não pode ser esquecida — mas também não pode ser o único argumento

Ninguém deveria esquecer a pandemia.

As mortes precisam ser lembradas.

Os erros precisam ser estudados.

As decisões das autoridades precisam ser avaliadas.

As famílias que perderam parentes merecem respeito.

Mas existe uma diferença entre preservar a memória da tragédia e utilizá-la indefinidamente como instrumento de campanha.

Lula precisa ser cobrado pelo presente.

Seu governo está completando mais um ciclo no poder.

Portanto, o eleitor precisa saber o que foi entregue.

O discurso não pode ser eternamente:

“Bolsonaro fez errado.”

A pergunta agora precisa ser:

“E Lula, o que fez?”

O SUS precisa de resultados, não apenas de slogans

A saúde brasileira enfrenta problemas que nenhum discurso consegue esconder.

Há filas para consultas.

Há filas para exames.

Há espera por cirurgias.

Há falta de profissionais em determinadas regiões.

Há dificuldades de financiamento.

Há hospitais sobrecarregados.

Há desigualdade regional.

Há pacientes que precisam viajar centenas de quilômetros para conseguir atendimento especializado.

Esses problemas não começaram no governo Lula e não terminarão em um único mandato.

Mas são problemas que estão sob responsabilidade do governo atual.

É por isso que a cobrança precisa ser feita agora.

A crítica ao discurso eleitoral

Lula tem todo o direito de defender o SUS.

Tem todo o direito de criticar Bolsonaro.

Tem todo o direito de lembrar os erros cometidos durante a pandemia.

Mas também precisa aceitar que não governa mais como oposição.

Ele é o presidente.

É responsável pelo orçamento federal.

É responsável pela política nacional de saúde.

É responsável pelas escolhas de seu governo.

E será julgado pelos resultados que entregar.

O eleitor não pode ser obrigado a escolher entre “o SUS de Lula” e “o SUS de Bolsonaro”.

O eleitor precisa ter acesso aos números.

Precisa saber quanto o governo investiu.

Precisa saber se o atendimento melhorou.

Precisa saber se as filas diminuíram.

Precisa saber se o dinheiro chegou ao paciente.

A pergunta que fica para 2026

A visita de Lula a Barretos poderia ter sido uma oportunidade para apresentar um grande balanço nacional da saúde.

Poderia ter mostrado quanto o governo recuperou.

Quanto investiu.

Quantos pacientes foram atendidos.

Quantos hospitais receberam recursos.

Quantos tratamentos foram ampliados.

Quantas filas foram eliminadas.

Em vez disso, parte significativa do discurso voltou a ser ocupada pela disputa com Bolsonaro e pela narrativa da pandemia.

É justamente aí que está a crítica.

O presidente não precisa deixar de atacar seus adversários. Precisa apenas demonstrar que consegue falar mais do futuro do que do passado.

Porque a eleição de 2026 não será decidida pelo número de vezes que Lula conseguir mencionar Bolsonaro.

Será decidida pela percepção que o eleitor tiver sobre sua própria vida.

Se o atendimento melhorou.

Se o salário aumentou.

Se o emprego cresceu.

Se o preço dos alimentos caiu.

Se a segurança melhorou.

Se a saúde pública funciona.

Se as promessas foram cumpridas.

Conclusão

Em Barretos, Lula apresentou uma imagem poderosa: o SUS como um sistema que teria sobrevivido à pandemia e retornado fortalecido.

Mas o mesmo discurso revelou uma fragilidade da estratégia eleitoral do presidente.

Mais uma vez, Lula fala do presente olhando para Bolsonaro.

A pandemia é lembrada.

O negacionismo é atacado.

O governo anterior é responsabilizado.

E o presidente aparece como aquele que teria reconstruído a saúde pública.

Essa narrativa pode funcionar politicamente.

Mas o eleitor tem uma pergunta muito mais simples:

Depois de tantos anos no poder, quais são os resultados concretos do governo Lula no SUS?

Essa é a cobrança que precisa ser respondida.

Porque o SUS não pertence a Lula.

Não pertence ao PT.

Não pertence a Bolsonaro.

O SUS pertence aos brasileiros.

E justamente por isso merece algo maior do que disputa eleitoral: merece dinheiro bem aplicado, gestão eficiente, profissionais valorizados, atendimento rápido e resultados que possam ser medidos.

Defender o SUS é importante.

Mas transformar o SUS em palanque eleitoral não basta.

O brasileiro que está esperando uma consulta, um exame ou uma cirurgia não precisa de mais um ataque político.

Precisa ser atendido.

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