
Lula monta força-tarefa digital com jovens e influenciadores para o segundo turno
Campanha petista prepara nova ofensiva nas redes após primeiro turno; Ana Elisa, Pedro Rousseff e outros nomes ligados à esquerda devem ajudar a ampliar a presença digital contra Flávio Bolsonaro
A campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) prepara uma força-tarefa digital para o segundo turno das eleições de 2026, reunindo jovens políticos recém-eleitos e nomes com forte presença nas redes sociais. A estratégia representa uma tentativa de reformular a comunicação da campanha depois de Flávio Bolsonaro (PL) terminar o primeiro turno à frente do petista.
Segundo as informações divulgadas nesta terça-feira (6), Lula deverá se reunir na quarta-feira (7), em Brasília, com jovens parlamentares eleitos e lideranças digitais para discutir novas formas de atuação nas redes e nas ruas.
Entre os nomes citados estão os deputados federais eleitos Ana Elisa e Pedro Rousseff, além de outros políticos de esquerda que obtiveram forte desempenho eleitoral e construíram presença relevante no ambiente digital. Também aparecem na articulação nomes como Ana Júlia Ribeiro (PT-PR), Leonardo Grandini (PT-SP), Rick Azevedo (PSOL-RJ), Elias Jabbour (PCdoB-RJ) e Jones Manoel (PSOL-PE).
A mudança depois do primeiro turno
A movimentação ocorre depois de um resultado eleitoral que obrigou a campanha petista a rever sua estratégia.
O Tribunal Superior Eleitoral registrou que Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno com 56.104.268 votos, ou 47,03% dos votos válidos, enquanto Lula obteve 53.876.617 votos, equivalentes a 45,16%. Os dois avançaram para o segundo turno, marcado para 25 de outubro.
A diferença de pouco mais de dois milhões de votos fez a campanha petista buscar uma comunicação mais agressiva e adaptada às plataformas digitais.
Uma reportagem da Reuters informou que integrantes da campanha avaliam que a estratégia utilizada no primeiro turno não conseguiu alcançar suficientemente jovens e mulheres. A equipe pretende ampliar o uso de influenciadores alinhados à esquerda e produzir conteúdos com linguagem mais próxima do público das redes.
Ana Elisa defende “força na rede”
Entre os nomes que ganharam espaço na nova estratégia está Ana Elisa, influenciadora e deputada federal eleita por Minas Gerais.
Depois do primeiro turno, ela defendeu publicamente uma mobilização maior da esquerda nas redes sociais.
A ideia apresentada por Ana Elisa é combinar a tradicional mobilização presencial do PT com uma atuação digital mais organizada.
Ela afirmou que a esquerda já demonstrou força nas ruas e que, agora, precisaria demonstrar força também na internet.
A declaração ajuda a explicar a lógica da nova estratégia: transformar políticos jovens e influenciadores em multiplicadores de conteúdo para tentar alcançar eleitores que não necessariamente acompanham os canais tradicionais da campanha.
Pedro Rousseff também entra na articulação
Outro nome citado é Pedro Rousseff, deputado federal eleito.
A participação de jovens parlamentares atende a uma preocupação específica da campanha: aumentar o alcance entre eleitores mais jovens, faixa em que as redes sociais têm papel particularmente relevante na formação do debate político.
A estratégia, entretanto, não significa que esses parlamentares terão autonomia para definir toda a comunicação da campanha. A proposta é integrá-los a uma estrutura maior coordenada pelo PT e pelos responsáveis pela comunicação eleitoral.
E Erika Hilton e Sâmia Bomfim?
As informações divulgadas inicialmente também mencionaram a preparação de conversas com nomes de grande presença nas redes, incluindo Erika Hilton (PSOL-SP) e Sâmia Bomfim (PSOL-SP).
A intenção é ampliar o número de porta-vozes capazes de produzir conteúdo político com linguagem própria para diferentes públicos.
Nesse modelo, a campanha de Lula tenta deixar de depender exclusivamente da comunicação tradicional do presidente e do PT.
A aposta é descentralizar a produção e utilizar figuras com comunidades digitais próprias.
A estratégia já existia antes do segundo turno
A mobilização digital não começou agora.
Durante a campanha do primeiro turno, Lula já havia estimulado a formação de uma rede de apoiadores nas plataformas digitais. Uma iniciativa chamada “Porta-vozes de Lula” chegou a reunir mais de 140 mil pessoas em grupos de WhatsApp para receber tarefas e compartilhar conteúdos favoráveis ao candidato ou críticos ao adversário.
O PL, por sua vez, também criou uma estrutura semelhante, chamada “Direita Já”, voltada à mobilização de apoiadores de Flávio Bolsonaro.
Portanto, a disputa digital entre as duas campanhas não começou no segundo turno. O que muda agora é a intensidade e a tentativa do PT de reorganizar sua atuação depois do resultado de 4 de outubro.
Ataques, críticas e o limite das redes
É nesse ponto que surge uma questão importante para o eleitor.
A campanha de Lula pretende aumentar a presença digital e confrontar Flávio Bolsonaro nas redes. Isso é legítimo dentro de uma disputa eleitoral, desde que respeitadas as regras eleitorais.
Mas mobilização digital não pode ser confundida com autorização para espalhar informações falsas.
As próprias campanhas de Lula e Flávio já trocaram acusações sobre desinformação e uso irregular de estruturas digitais. Segundo levantamento divulgado pela AFP, os dois lados possuem iniciativas organizadas para estimular apoiadores a compartilhar conteúdos, e ações relacionadas às estratégias chegaram ao Tribunal Superior Eleitoral.
Por isso, qualquer conteúdo produzido nessa nova “força digital” precisa ser analisado com atenção: críticas políticas são parte normal da eleição; acusações factuais exigem comprovação.
Não é possível afirmar, apenas porque a campanha está montando uma força-tarefa digital, que ela esteja planejando espalhar fake news. O que está documentado é que o objetivo declarado é ampliar a mobilização e a comunicação política nas redes.
A ofensiva mira especialmente os jovens
O foco nos jovens não acontece por acaso.
Uma pesquisa Datafolha divulgada em setembro mostrou Lula com 39% das intenções de voto entre eleitores de 16 a 24 anos, contra 29% de Flávio Bolsonaro, dentro da margem de erro do segmento. No cenário de segundo turno pesquisado naquele momento, Lula tinha 49% contra 39% de Flávio entre os jovens.
Os números são anteriores ao primeiro turno e não devem ser tratados como fotografia do eleitorado atual. Ainda assim, ajudam a explicar por que as campanhas consideram os jovens um público estratégico.
Agora, com o segundo turno definido, Lula tenta transformar essa preocupação em uma estrutura permanente de comunicação digital.
O desafio de Lula depois da derrota no primeiro turno
A nova estratégia também revela uma dificuldade enfrentada pela campanha petista: falar com públicos que não respondem necessariamente aos canais tradicionais de comunicação política.
A própria campanha reconheceu a necessidade de mudar a linguagem.
A Reuters informou que Lula e seus aliados discutiram uma reformulação da comunicação depois do desempenho abaixo do esperado no primeiro turno. Entre as mudanças estudadas está uma comunicação mais direcionada às redes e aos eleitores que não compareceram às urnas.
São aproximadamente 33 milhões de eleitores que não votaram no primeiro turno, um contingente que as campanhas passaram a observar com atenção.
Segundo turno terá guerra de narrativas
A eleição presidencial entra agora em uma fase completamente diferente.
Lula terá pela frente Flávio Bolsonaro, que terminou o primeiro turno na liderança. As duas campanhas deverão intensificar a produção de vídeos, cortes, transmissões ao vivo, memes, entrevistas, conteúdos para WhatsApp e publicações em plataformas como Instagram, TikTok, YouTube e X.
A disputa pelo voto também será uma disputa pela atenção.
E a nova força-tarefa de Lula deixa isso evidente.
O PT percebeu que não basta fazer campanha nos palanques, comícios e programas eleitorais. É preciso disputar diariamente o ambiente digital.
A questão central, daqui para frente, será saber até onde irá essa nova ofensiva: se ficará restrita ao debate político e à apresentação de propostas ou se a polarização aumentará a circulação de acusações e conteúdos enganosos.
O eleitor terá papel fundamental nessa etapa: conferir vídeos completos, verificar declarações atribuídas aos candidatos e desconfiar de conteúdos que apresentem acusações graves sem evidências.
A corrida entre Lula e Flávio Bolsonaro chega, portanto, ao segundo turno também como uma disputa pela internet — e a campanha petista acaba de anunciar que pretende entrar nessa batalha com uma estrutura digital reforçada.