Lula tenta se desvincular do STF após primeiro turno e diz carregar nas costas a “promiscuidade” da Suprema Corte

Lula tenta se desvincular do STF após primeiro turno e diz carregar nas costas a “promiscuidade” da Suprema Corte

Presidente endurece críticas ao Supremo justamente na abertura do segundo turno, defende reforma do Judiciário e afirma que sua campanha estaria sofrendo os efeitos da crise envolvendo a Corte

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) mudou significativamente o tom em relação ao Supremo Tribunal Federal (STF) depois do resultado do primeiro turno das eleições de 2026. Em reunião com aliados realizada na segunda-feira (5), em Brasília, Lula afirmou que sua campanha estaria carregando o peso da crise envolvendo a Suprema Corte e declarou, em tom contundente, que existe uma “promiscuidade” estabelecida no STF.

A declaração ocorreu apenas um dia depois de Lula terminar o primeiro turno atrás de Flávio Bolsonaro (PL). O senador obteve 47,03% dos votos válidos, enquanto o presidente ficou com 45,16%. Os dois agora disputam o segundo turno, marcado para 25 de outubro.

O episódio ganhou ainda mais repercussão porque a fala de Lula foi registrada em vídeo e divulgada publicamente. Nas imagens, o presidente aparece diante de aliados discutindo os rumos da campanha e fazendo uma avaliação sobre o desempenho eleitoral do primeiro turno.

“Estamos carregando nas costas uma coisa muito grave, que é a promiscuidade que ficou estabelecida na Suprema Corte brasileira depois dessas denúncias”, afirmou Lula.

A declaração foi feita no contexto das controvérsias envolvendo o STF e as investigações relacionadas ao Banco Master e ao empresário Daniel Vorcaro. É importante destacar que referências a suposto envolvimento de ministros, familiares ou pessoas próximas à Corte são objeto de denúncias, investigações e apurações, e não podem ser tratadas automaticamente como prova de ilícitos.

O vídeo e a mudança de discurso

O vídeo chama atenção não apenas pelo conteúdo da declaração, mas também pelo momento em que ela foi feita.

Lula passou a colocar o STF no centro de sua estratégia eleitoral justamente após a divulgação do resultado do primeiro turno. Segundo relatos sobre a reunião, integrantes da campanha avaliaram que a imagem do presidente acabou sendo associada à Suprema Corte e que a crise envolvendo o tribunal teria produzido desgaste político para sua candidatura.

O próprio Lula afirmou que sua campanha estaria sofrendo esse impacto.

Na gravação, o presidente também tentou apresentar sua candidatura como uma alternativa ao chamado “sistema”, afirmando que ele seria o único candidato verdadeiramente “antissistema”.

“Só tem um candidato que é antissistema, que somos nós. Não tem outro candidato”, declarou.

Na sequência, veio a crítica ao STF.

A combinação das duas afirmações produz um dos pontos mais curiosos do discurso: Lula passou a se apresentar como candidato “antissistema” e, simultaneamente, procurou afastar sua campanha do desgaste provocado pela crise da Suprema Corte.

A ironia política: a crítica veio depois do primeiro turno

É justamente aqui que surge a ironia apontada na repercussão política do discurso.

Depois de passar praticamente todo o primeiro turno enfrentando a associação de sua candidatura com instituições do chamado sistema político e judicial, Lula agora afirma que está “carregando nas costas” a crise do STF.

A mudança ocorre exatamente na entrada do segundo turno.

Ou seja, o mesmo Supremo que agora aparece no discurso presidencial como um peso político passa a ser apresentado como um problema que estaria prejudicando sua candidatura.

A questão que naturalmente surge no debate público é temporal: por que essa crítica ganhou tanta força justamente depois de Lula terminar o primeiro turno atrás de Flávio Bolsonaro?

A resposta oficial apresentada por Lula é que existe uma crise institucional que precisa ser enfrentada independentemente da eleição. Já a leitura de aliados e analistas políticos citados nas reportagens é que o desgaste da Corte passou a ter impacto eleitoral e, por isso, tornou-se necessário mudar o discurso.

Não é possível afirmar, apenas pela declaração, que a mudança tenha sido exclusivamente eleitoral. O que está documentado é que ela ocorreu imediatamente após o resultado do primeiro turno e dentro da reunião destinada a reorganizar a campanha para a segunda etapa.

Lula defende reforma do Judiciário

Além de criticar o STF, Lula defendeu uma nova reforma do Poder Judiciário.

O presidente questionou os critérios utilizados para a escolha dos ministros da Suprema Corte e sugeriu que a sociedade participe mais diretamente dessa discussão.

“Precisamos definir concretamente como é que a gente vai escolher um ministro da Suprema Corte. É de interesse pessoal do presidente da República? É de pressão do Congresso Nacional? É de interesse do poder econômico? Não”, afirmou.

Lula também levantou a possibilidade de discutir a existência de mandatos para ministros do STF.

“Ninguém está acima da lei, nem os ministros da Suprema Corte estão acima da lei”, declarou.

A proposta representa uma mudança importante no tom adotado pelo presidente durante a disputa, porque coloca no centro de sua campanha uma discussão sobre o próprio funcionamento das instituições judiciais.

O resultado eleitoral está no pano de fundo

A reunião aconteceu após um resultado que contrariou a expectativa de Lula de terminar a primeira etapa na liderança.

Com 100% das urnas apuradas, Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno com aproximadamente 56,1 milhões de votos, equivalentes a 47,03% dos votos válidos. Lula recebeu aproximadamente 53,9 milhões, ou 45,16%.

A diferença foi de pouco mais de dois pontos percentuais.

O segundo turno, portanto, começa com os dois candidatos separados por uma margem relativamente estreita, mas com uma mudança importante na estratégia de comunicação de Lula.

Além do STF, o presidente falou sobre segurança pública, política fiscal, abstenção e a necessidade de aumentar a mobilização eleitoral.

Segundo dados divulgados pelo TSE, cerca de 33 milhões de eleitores não compareceram às urnas no primeiro turno, o equivalente a 21,08% do eleitorado.

Lula demonstrou preocupação com esse número e questionou por que tantos eleitores deixaram de votar.

“Agora é tête-à-tête”

Outro trecho significativo do discurso foi a mudança de postura de Lula em relação aos debates eleitorais.

O presidente afirmou que pretende participar dos debates do segundo turno, justificando que agora a disputa será diretamente entre dois candidatos.

“Agora é importante ter debate na televisão. Porque agora é tête-à-tête. Agora é um contra um”, afirmou.

A declaração também chamou atenção porque Lula não participou dos debates do primeiro turno, inclusive do debate que seria realizado pela TV Globo e acabou cancelado.

Na nova etapa da eleição, entretanto, o presidente passou a defender justamente o confronto direto na televisão.

A campanha de segundo turno, portanto, deverá ser marcada por uma exposição maior dos dois candidatos e por uma disputa mais concentrada em temas como segurança pública, economia, Judiciário, corrupção, políticas sociais e relação entre os Poderes.

Lula diz que não vê motivos para perder

Apesar de reconhecer a necessidade de reorganizar sua campanha, Lula afirmou aos aliados que está convencido de que poderá vencer o segundo turno.

“Não há nenhuma razão econômica, social e política” para que não seja eleito, afirmou.

O presidente também recuperou como exemplo a eleição de 2006, quando disputou o segundo turno contra Geraldo Alckmin e conseguiu ampliar sua votação na segunda etapa.

A estratégia agora é convencer eleitores que não participaram do primeiro turno, conquistar votos dos candidatos que ficaram fora da disputa e reduzir a vantagem obtida por Flávio Bolsonaro.

A disputa pelo eleitor e a nova narrativa

O discurso de Lula mostra que o segundo turno começa com uma tentativa clara de reposicionamento político.

De um lado, o presidente tenta apresentar sua candidatura como “antissistema”. De outro, critica o desgaste provocado pelo STF e defende uma reforma do Judiciário.

É nesse ponto que a fala ganha sua maior dimensão política.

A frase “estamos carregando nas costas” coloca sobre a Suprema Corte parte do peso que Lula considera prejudicial à sua candidatura. Mas a própria mudança de discurso, ocorrida imediatamente depois do primeiro turno, inevitavelmente alimenta o debate sobre a estratégia eleitoral adotada para os próximos 20 dias.

A pergunta que fica para o eleitor é simples: a crítica ao STF representa uma mudança efetiva de posição sobre o Judiciário ou é também uma nova estratégia de campanha para o segundo turno?

O vídeo não responde sozinho a essa questão. Ele, porém, registra um fato político incontestável: na largada do segundo turno, Lula decidiu colocar o STF no centro de seu discurso e passou a dizer publicamente que a crise da Suprema Corte também pesa sobre sua candidatura.

A eleição presidencial será decidida em 25 de outubro, quando Lula e Flávio Bolsonaro voltarão às urnas para a segunda e decisiva etapa da disputa.

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