
Lula, o Doutor de Si Mesmo
Mais um título honoris causa para quem já coleciona prêmios como quem junta figurinhas — e ainda posa de injustiçado
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva acrescentou mais um troféu à sua prateleira já abarrotada: um doutor honoris causa concedido pela Universidade Pedagógica de Maputo, em Moçambique. Segundo a instituição, Lula merece a honraria por suas contribuições na ciência política, no desenvolvimento econômico e na cooperação internacional — áreas em que o próprio petista nunca morou, mas adora visitar.
Durante o discurso, Lula voltou ao seu tema preferido: ele mesmo. Disse que a educação é sua “obsessão”, reclamou que os pobres não são invisíveis e responsabilizou as lideranças mundiais pela fome. A ironia? Fala disso enquanto acumula títulos acadêmicos simbólicos que qualquer estudante de verdade daria tudo para conquistar após anos de estudo real.
Lula, aliás, fez questão de reforçar o quanto este título o emocionou, mesmo já tendo uma coleção que inclui Coimbra, Sciences-Po e Salamanca. Segundo ele, o reconhecimento em Moçambique é especial porque “não há diferença” entre ele e os estudantes locais. Diferença talvez não, mas distância sim — especialmente a que separa discursos inflamados de resultados concretos.
Na cerimônia, o reitor afirmou que Lula foi “vanguardista” na reparação histórica e no fortalecimento do papel da África. Outros professores exaltaram sua resistência política após derrotas eleitorais e prisão, tratando-o como uma espécie de sábio global cuja voz ecoa do Extremo Oriente ao fundo do sul global. Um roteiro quase messiânico — daqueles que caem como luva no ego presidencial.
O próprio Lula aproveitou para listar feitos de seus governos, mencionar o programa Pé-de-Meia e relembrar suas universidades. Em um momento de emoção calculada, criticou o unilateralismo e apontou que o Sul Global não pode ser “espectador” da ordem internacional injusta. O que ele não comenta é que aqui dentro, no Brasil real, estudantes e professores lidam com cortes, falta de estrutura e promessas que evaporam logo após o discurso acabar.
O título, como sempre, serve mais como espetáculo do que como mudança prática. É o tipo de reconhecimento que cai perfeitamente na história de um presidente que adora ser aplaudido — especialmente quando o palco está longe o suficiente para evitar vaias.
A visita faz parte das celebrações de 50 anos de relações entre Brasil e Moçambique. Lula participou de encontros oficiais, assinou acordos e retorna ainda hoje ao Brasil — carregando mais um diploma simbólico para o acervo e mais um discurso para a coleção de autoelogios.