
MARINHO CRITICA OFENSIVA DE MORAES CONTRA MENDONÇA E CLASSIFICA EPISÓDIO COMO “INVERSÃO INTOLERÁVEL”
Líder da oposição no Senado afirma que Alexandre de Moraes transformou o Inquérito das Fake News em instrumento de poder pessoal e questiona reação do ministro após investigação envolvendo o Banco Master
O líder da oposição no Senado, Rogério Simonetti Marinho, do Partido Liberal do Rio Grande do Norte (PL-RN), reagiu duramente à decisão do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), de pedir providências contra o também ministro da Corte André Luiz de Almeida Mendonça. Para Marinho, a iniciativa representa uma inversão de papéis e ocorre justamente no momento em que Mendonça determinou o aprofundamento de apurações que alcançaram o próprio Moraes.
Em manifestação divulgada na quinta-feira, 3 de setembro de 2026, Marinho classificou a situação como uma “inversão intolerável de valores” e acusou Moraes de utilizar poderes vinculados ao chamado Inquérito das Fake News para constranger o colega de tribunal. A declaração foi divulgada em meio à escalada da crise institucional provocada pelas investigações envolvendo o ministro, o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, e os procedimentos conduzidos por Mendonça.
A crítica de Rogério Marinho
Na avaliação do senador, o problema central está no fato de que o ministro que passou a ser mencionado em uma investigação teria reagido utilizando instrumentos de um inquérito sob sua própria relatoria para questionar a conduta do magistrado responsável por supervisionar as apurações.
Marinho afirmou que, na sua interpretação, quem deveria prestar esclarecimentos às instituições e à sociedade estaria utilizando poderes investigativos excepcionais para pressionar quem supervisiona uma investigação.
O senador também voltou a criticar a permanência do Inquérito das Fake News, instaurado em 2019 e que já ultrapassou sete anos de duração. Segundo ele, a longevidade do procedimento contribuiu para aquilo que classificou como uma deterioração institucional e um desgaste da autoridade do Supremo Tribunal Federal.
A crítica de Marinho ocorre em um momento especialmente delicado para a Corte. O confronto entre Moraes e Mendonça deixou de ser apenas uma divergência sobre procedimentos jurídicos e passou a envolver questionamentos sobre os limites da atuação individual dos ministros, a participação da Polícia Federal, a atuação da Procuradoria-Geral da República e a própria forma como investigações envolvendo integrantes do STF devem ser conduzidas.
A acusação apresentada por Moraes
Alexandre de Moraes encaminhou ao presidente do STF, Edson Fachin, pedido para que sejam apuradas possíveis irregularidades atribuídas a André Mendonça.
Moraes acusa o colega de possíveis práticas de abuso de autoridade, improbidade administrativa e crime de responsabilidade. Segundo a argumentação apresentada pelo ministro, Mendonça teria ultrapassado os limites de sua atuação ao determinar providências investigativas envolvendo autoridades com foro no Supremo.
Entre os pontos levantados por Moraes estão alegações de que Mendonça teria assumido uma postura excessivamente ativa na condução de investigações, determinado diligências diretamente à Polícia Federal, obtido acesso antecipado a determinados elementos e adotado critérios que, na visão de Moraes, poderiam revelar direcionamento político.
Moraes também afirma que a atuação de Mendonça teria atingido não apenas ele próprio, mas também o presidente do Senado, Davi Samuel Alcolumbre Tobelem, e outras autoridades.
A acusação, porém, ainda está sob análise e não representa uma conclusão judicial de que Mendonça tenha cometido qualquer crime.
O ponto que provocou a crise
A crise ganhou força depois que André Mendonça retirou o sigilo de documentos relacionados à investigação do caso Banco Master.
O material continha mensagens e outros elementos relacionados ao banqueiro Daniel Vorcaro e trouxe novamente ao centro do debate a relação mantida por ele com Alexandre de Moraes.
Mendonça também determinou que a Polícia Federal aprofundasse a análise de mensagens apreendidas e identificasse interlocutores mencionados nos documentos. Uma das linhas da apuração levou ao próprio Moraes.
A decisão provocou reação dentro da própria Polícia Federal e da Procuradoria-Geral da República.
Segundo relatos divulgados pela imprensa, o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Augusto Passos Rodrigues, considerou questionável a determinação para que a corporação produzisse relatório específico sobre determinadas autoridades. A PGR, comandada pelo procurador-geral Paulo Gustavo Gonet Branco, também levantou dúvidas sobre os limites da atuação de Mendonça na fase pré-processual.
O relatório da Polícia Federal usado por Moraes
Um dos pontos mais controversos da ofensiva de Moraes contra Mendonça é justamente o documento produzido pela Polícia Federal utilizado como fundamento para as acusações.
Reportagens sobre o material apontam que o documento foi classificado internamente como “sem valor probatório”. Isso significa que o relatório de inteligência não possui, por si só, a natureza de uma prova judicial formal.
O documento teria sido produzido para análise de inteligência e contém avaliações sobre a atuação de Mendonça, inclusive comparações envolvendo diferentes investigações e autoridades.
Entre os elementos mencionados está uma comparação entre o tratamento dado a Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, e ao ex-prefeito de Salvador Antônio Carlos Peixoto de Magalhães Neto, conhecido como ACM Neto.
A análise foi utilizada para sustentar a tese de que Mendonça teria adotado critérios diferentes conforme o espectro político das pessoas investigadas. A existência dessa análise, entretanto, não significa que esteja comprovado que o ministro tenha atuado por motivação política.
A resposta de Marinho
É justamente nesse cenário que Rogério Marinho afirma existir uma inversão de responsabilidades.
Para o senador, a sequência dos acontecimentos é politicamente grave: Mendonça determinou o aprofundamento de uma investigação que acabou alcançando Moraes; posteriormente, Moraes apresentou acusações contra o colega, utilizando entre seus argumentos relatórios produzidos pela própria estrutura da Polícia Federal.
Marinho considera que esse encadeamento precisa ser analisado pelas instituições e pela sociedade, especialmente porque envolve dois integrantes da mais alta Corte do país.
Na avaliação do líder oposicionista, a disputa revela um problema maior: os limites de poderes concentrados em determinados ministros e a necessidade de mecanismos institucionais capazes de impedir que conflitos entre integrantes do Judiciário sejam resolvidos por meio de instrumentos originalmente destinados à proteção das instituições.
O Inquérito das Fake News no centro do conflito
O Inquérito 4.781, conhecido como Inquérito das Fake News, foi instaurado em 2019 para investigar notícias fraudulentas, ameaças e ataques contra ministros do STF e seus familiares.
Alexandre de Moraes assumiu a relatoria e, desde então, o procedimento se tornou um dos instrumentos mais importantes — e também mais controversos — da atuação do Supremo Tribunal Federal.
A permanência do inquérito por mais de sete anos é hoje alvo de críticas de setores da oposição e de juristas que questionam sua duração, sua forma de instauração e a concentração de poderes na relatoria.
O próprio presidente do STF, Edson Fachin, passou a defender publicamente a avaliação sobre o encerramento do procedimento. Em meio à crise atual, Fachin afirmou que a resposta institucional da Corte deverá ser firme e que não haverá omissão diante dos conflitos internos.
Fachin tenta controlar a escalada
Diante do confronto entre Moraes e Mendonça, Edson Fachin determinou que os envolvidos apresentem informações.
Moraes, Mendonça, a Procuradoria-Geral da República e a Polícia Federal foram chamados a prestar esclarecimentos no prazo estabelecido pelo presidente da Corte.
Fachin também deverá analisar a regularidade dos procedimentos questionados e avaliar as alegações apresentadas pelos dois lados.
A iniciativa busca impedir que a disputa seja resolvida apenas por manifestações individuais e transferir o debate para uma esfera institucional.
O presidente do Supremo não declarou, até o momento, que Moraes ou Mendonça estejam certos ou errados. O objetivo anunciado é reunir informações antes de qualquer conclusão.
Uma crise que ultrapassou os muros do Supremo
A disputa rapidamente ganhou dimensão política.
Parlamentares de oposição passaram a defender Mendonça e a cobrar explicações de Moraes. Rogério Marinho, além de criticar a atuação do ministro, voltou a convocar apoiadores para manifestações previstas para o 7 de Setembro, colocando a crise do STF ao lado de outras pautas da oposição contra o governo federal e o Supremo.
O senador é também coordenador-geral da campanha presidencial de Flávio Nantes Bolsonaro, do PL do Rio de Janeiro, o que amplia a dimensão eleitoral de suas declarações.
Outros integrantes da oposição também reagiram. O episódio passou a ser explorado politicamente como símbolo de uma disputa mais ampla entre o bolsonarismo e setores do Supremo Tribunal Federal.
O outro lado da disputa
Apesar das críticas da oposição, existem também questionamentos jurídicos sobre a própria atuação de André Mendonça.
Especialistas ouvidos pela imprensa divergem quanto à legalidade dos procedimentos adotados pelo ministro. Alguns consideram problemática a determinação direta de diligências à Polícia Federal sem prévia autorização do plenário do STF, sobretudo quando as diligências poderiam alcançar integrantes da própria Corte.
Outros defendem que a identificação dos interlocutores das mensagens era uma providência necessária para esclarecer os fatos e que o debate deveria se concentrar na validade dos procedimentos e dos elementos obtidos.
Portanto, a controvérsia não se resume à oposição de um lado e à defesa de Mendonça do outro. Há uma discussão jurídica real sobre os limites da atuação judicial na fase investigativa.
O caso Vorcaro e o pano de fundo da crise
No centro de toda a controvérsia está Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master e personagem central de investigações que passaram a envolver autoridades dos três Poderes.
Mensagens atribuídas a Vorcaro e outros documentos analisados pela Polícia Federal levantaram questionamentos sobre sua relação com Alexandre de Moraes, além de referências a pessoas ligadas à Procuradoria-Geral da República e à própria Polícia Federal.
A defesa de Moraes sustenta que sua atuação foi regular e que não houve interferência indevida em decisões judiciais. A existência de contatos ou relações entre autoridades e empresários, por si só, também não comprova crime.
É justamente por isso que a investigação ganhou dimensão institucional: não basta saber quem falou com quem. É necessário determinar o contexto, a finalidade dos contatos, a existência ou não de benefícios indevidos e, principalmente, se houve interferência em procedimentos públicos.
Uma disputa que coloca o STF diante de seu próprio limite
A declaração de Rogério Marinho expõe uma questão que vai muito além da disputa pessoal entre Alexandre de Moraes e André Mendonça.
O episódio coloca em discussão quem fiscaliza os ministros do Supremo quando um deles passa a ser objeto de investigação ou questionamento por outro integrante da própria Corte.
Também levanta dúvidas sobre o papel da Polícia Federal, da Procuradoria-Geral da República e do presidente do STF em uma situação na qual diferentes instituições passaram a apresentar interpretações conflitantes sobre a legalidade dos procedimentos.
Para a oposição, a ofensiva contra Mendonça representa uma tentativa de constrangimento contra quem investigava fatos relacionados a Moraes. Para os defensores de Moraes, o problema está na conduta de Mendonça, que teria ultrapassado os limites de suas atribuições.
Entre essas duas versões está agora a responsabilidade institucional de Edson Fachin.
O presidente do STF terá de avaliar documentos, ouvir os envolvidos e estabelecer quais atos foram regulares e quais, eventualmente, deverão ser anulados.
A crise, portanto, ainda está longe de uma conclusão.
O que já está evidente é que a disputa entre Moraes e Mendonça deixou de ser uma divergência interna entre dois ministros. Tornou-se um dos maiores testes recentes para a credibilidade, a transparência e os mecanismos de controle do Supremo Tribunal Federal.
E é nesse contexto que a expressão utilizada por Rogério Marinho — “inversão intolerável” — ganhou força no debate político: para a oposição, o episódio simboliza uma situação em que o investigado teria passado a questionar quem investigava. Para a defesa institucional de Moraes, porém, trata-se justamente do contrário: de uma reação a uma atuação que, segundo seus argumentos, teria extrapolado os limites legais.
A palavra final, portanto, ainda não está dada. Caberá às instâncias competentes separar acusação, indício, relatório de inteligência e prova, evitando que a crise institucional seja decidida pela força das declarações políticas de qualquer dos lados.