
Ministros pressionam Fachin e articulam para adiar julgamento sobre elo entre Moraes e Vorcaro
Disputa interna no STF envolve acesso aos dados do celular de Daniel Vorcaro, pedidos de vista e possibilidade de adiamento da sessão; Fachin resiste à pressão e mantém julgamento marcado para esta terça-feira
O Supremo Tribunal Federal (STF) vive uma das disputas internas mais delicadas dos últimos anos às vésperas do julgamento que poderá analisar os elementos relacionados à relação entre o ministro Alexandre de Moraes e o ex-controlador do Banco Master, Daniel Vorcaro.
Segundo informações divulgadas nesta segunda-feira (14), ministros de diferentes alas da Corte passaram o fim de semana pressionando o presidente do STF, Edson Fachin, para que a sessão marcada para terça-feira (15) fosse adiada. Até o momento, Fachin resistiu aos pedidos e manteve o julgamento na pauta.
A movimentação provocou uma verdadeira disputa interna envolvendo pedidos de acesso a documentos, dados do celular de Vorcaro, decisões individuais e até a possibilidade de um pedido de vista logo no início da sessão.
Pressão sobre Fachin
A pressão sobre Fachin não estaria partindo exclusivamente de ministros considerados próximos de Moraes. De acordo com o relato publicado pelo Estadão, também existem ministros que seriam favoráveis à abertura de uma investigação contra Moraes, mas que consideram inadequado realizar o julgamento neste momento.
O argumento apresentado por esse grupo é que a decisão poderia aumentar ainda mais a tensão política no país às vésperas das eleições presidenciais.
Uma das alternativas discutidas seria transferir o julgamento para novembro.
Fachin, entretanto, manteve a sessão extraordinária para 15 de setembro.
O celular de Vorcaro virou peça central
No centro da disputa está o celular de Daniel Vorcaro, apreendido em novembro de 2025 durante a primeira fase da Operação Compliance Zero, relacionada às investigações do Banco Master.
A Polícia Federal informou que possui condições técnicas para produzir uma cópia integral dos dados extraídos do aparelho e encaminhá-la aos ministros que solicitarem o material, preservando o sigilo e a integridade dos arquivos.
A informação mudou o cenário às vésperas do julgamento.
Ministros como Cristiano Zanin, Gilmar Mendes e Alexandre de Moraes haviam demonstrado interesse em ter acesso ao conteúdo integral.
A PF afirmou ainda que o arquivo original permanece sob sua custódia, com lacres, controles formais e mecanismos de verificação da integridade digital. Segundo a corporação, o conteúdo original nunca deixou a custódia da instituição.
Mendonça questiona abertura dos dados
O ministro André Mendonça, responsável pela relatoria de procedimentos relacionados ao caso, adotou posição contrária à abertura indiscriminada do conteúdo do celular.
Mendonça argumentou que a inclusão de novos elementos às vésperas da sessão poderia “tumultuar” o julgamento e prejudicar o andamento das investigações.
Para o ministro, os elementos considerados necessários para a sessão já teriam sido disponibilizados aos integrantes da Corte.
Mendonça também manifestou preocupação com a possibilidade de divulgação de informações que poderiam comprometer investigações ainda em andamento.
Zanin reage e pede acesso integral
Cristiano Zanin adotou posição diferente.
O ministro determinou diretamente à Polícia Federal que entregasse ao seu gabinete uma cópia dos dados extraídos do celular de Vorcaro.
Zanin justificou a solicitação pela necessidade de conhecer os elementos disponíveis antes de formar sua convicção no julgamento.
O ministro também afirmou que o objeto da sessão ainda poderia exigir a análise de informações provenientes do aparelho de Vorcaro.
A iniciativa de Zanin aumentou a pressão sobre a condução do caso e acrescentou mais um capítulo à disputa entre os ministros.
Gilmar Mendes também entra na disputa
Gilmar Mendes também solicitou acesso integral aos dados.
A preocupação de integrantes da Corte é evitar que os ministros decidam com base apenas em trechos selecionados das informações.
A discussão, portanto, deixou de ser apenas sobre o conteúdo das mensagens e passou a envolver uma questão institucional: quem deve decidir quais informações são relevantes para o julgamento e quais devem permanecer fora do alcance dos demais ministros?
A Polícia Federal, diante das determinações, confirmou que possui condições técnicas para fornecer as cópias solicitadas.
Fachin tenta centralizar a crise
Edson Fachin passou a centralizar parte dos procedimentos relacionados à crise interna do Supremo.
No sábado (12), o presidente da Corte determinou a apresentação de informações sobre o celular de Vorcaro e estabeleceu prazo de 24 horas para a Polícia Federal esclarecer a situação do aparelho.
Fachin também assumiu a relatoria do procedimento que apura a relação entre Moraes e Vorcaro, retirando o caso de André Mendonça.
Além disso, decidiu manter para terça-feira apenas o julgamento relacionado a Moraes, enquanto o procedimento envolvendo Mendonça foi marcado para a semana seguinte.
A decisão de Fachin foi interpretada como uma tentativa de reorganizar a condução dos casos e reduzir o choque entre decisões individuais de diferentes ministros.
A estratégia do pedido de vista
Diante da resistência de Fachin em adiar a sessão, surgiu outra possibilidade: um pedido de vista.
Segundo as informações divulgadas, ministros próximos a Moraes estudam pedir vista logo no início da sessão, antes que qualquer integrante do colegiado apresente seu voto.
Na prática, um pedido de vista interromperia o julgamento e impediria uma decisão imediata sobre o caso.
A estratégia, se adotada, poderá mudar completamente o cenário previsto para terça-feira.
Por outro lado, ministros do grupo de Mendonça poderiam antecipar seus votos, o que poderia provocar novos debates e aumentar a tensão durante a sessão.
A tentativa de evitar uma decisão imediata
É justamente nesse ponto que a disputa ganha maior dimensão política.
Se a sessão for mantida, os ministros poderão ser obrigados a se posicionar sobre os elementos que envolvem Moraes e Vorcaro.
Se houver pedido de vista, a decisão será postergada.
Se houver adiamento, o julgamento poderá ficar para outro momento.
E se o colegiado decidir avançar imediatamente, o STF terá de enfrentar publicamente uma questão que já provocou enorme repercussão política e institucional.
Por isso, a movimentação dos últimos dias vem sendo interpretada como uma tentativa de controlar o ritmo do julgamento.
É importante, contudo, distinguir articulação para adiar ou interromper uma sessão de uma suposta tentativa comprovada de “salvar” Alexandre de Moraes. Até o momento, o que as reportagens documentam é a existência de pressão por adiamento e a possibilidade de pedido de vista.
A PGR defende acesso integral
A Procuradoria-Geral da República (PGR) também entrou na discussão.
O procurador-geral Paulo Gonet defendeu que os ministros tenham acesso integral aos dados extraídos do celular de Vorcaro, argumentando que o acesso desigual às informações poderia comprometer a formação de um julgamento adequado.
A posição da PGR reforçou a pressão por transparência e acesso aos elementos que poderão ser considerados pelo colegiado.
O caso coloca o STF diante de uma decisão delicada
A crise ocorre em um momento especialmente sensível para o Supremo.
As mensagens e informações relacionadas a Daniel Vorcaro atingiram diretamente a imagem de integrantes da Corte e provocaram divergências sobre a forma como as investigações devem ser conduzidas.
Fachin tenta estabelecer uma condução mais centralizada, enquanto diferentes ministros adotam posições próprias sobre o acesso aos documentos.
O resultado é uma disputa interna que ultrapassou os limites de um processo específico e passou a envolver colegialidade, transparência, sigilo, acesso às provas e independência entre os ministros.
O que pode acontecer nesta terça-feira
Com o julgamento mantido para 15 de setembro, três cenários ganharam força:
1. Julgamento começa normalmente: os ministros analisam o caso e podem votar pela abertura ou pelo arquivamento da investigação.
2. Pedido de vista: um ministro solicita mais tempo para analisar o processo, interrompendo a decisão imediata.
3. Novo adiamento: algum fato novo ou decisão processual pode retirar o caso da pauta.
A possibilidade de pedido de vista é especialmente relevante porque poderia impedir uma decisão definitiva justamente quando o conteúdo integral do celular de Vorcaro começa a chegar aos gabinetes.
Uma disputa que expõe o STF
O episódio mostra que o caso Banco Master deixou de ser apenas uma investigação envolvendo um banco e seu antigo controlador.
A controvérsia passou a atingir diretamente o funcionamento interno do Supremo.
De um lado, ministros defendem que todos tenham acesso às informações necessárias para votar com segurança. De outro, há preocupação de que a abertura indiscriminada dos dados prejudique investigações ainda em andamento.
No meio da disputa está Fachin, que precisa decidir se mantém a sessão e permite que o colegiado enfrente imediatamente o caso ou se cede à pressão por mais tempo.
Até agora, o presidente do STF decidiu manter o julgamento.
A expectativa, portanto, está concentrada na sessão de terça-feira e, principalmente, na possibilidade de que um pedido de vista ou outra manobra processual impeça uma decisão imediata.
O caso tornou-se um teste para a própria Corte: se o julgamento avançar, Moraes terá de enfrentar publicamente os elementos relacionados à sua ligação com Vorcaro; se for interrompido, a pressão por transparência e esclarecimentos deverá aumentar ainda mais.
O que está comprovado até aqui é a existência de uma forte disputa interna sobre o calendário, o acesso às provas e a condução do processo. A interpretação de que determinadas movimentações representam uma tentativa de “salvar” Moraes é uma avaliação política que precisa ser apresentada como tal, e não como fato já demonstrado.