
Moraes critica influenciadores e diz que muitos “não têm a mínima ideia do que estão falando”
Ministro do STF afirma que influenciadores passaram a disputar audiência com telejornais, critica a desinformação nas redes e relaciona o fenômeno à atuação dos algoritmos das big techs
O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), fez duras críticas à atuação de influenciadores digitais e ao impacto das redes sociais sobre o debate público. A declaração ocorreu na segunda-feira (24), durante uma cerimônia no Tribunal de Contas do Município de São Paulo (TCM-SP).
Ao abordar a transformação do ambiente de informação no Brasil, Moraes afirmou que determinados influenciadores conquistaram grande audiência mesmo sem, segundo ele, possuírem conhecimento sobre os assuntos que comentam.
“Hoje, o influencer, que ninguém nunca ouviu falar, o pessoal não tem a mínima ideia do que tá falando, fala da Guerra na Ucrânia até a derrota lamentável do Corinthians para o Coritiba ontem. Sabe comentar tudo.”, declarou o ministro.
A crítica de Moraes foi além da capacidade técnica desses produtores de conteúdo. O ministro afirmou que os influenciadores passaram a disputar espaço diretamente com veículos tradicionais de comunicação e apontou uma mudança no comportamento de parte do público.
Segundo ele, determinados influenciadores conseguem alcançar uma audiência superior à de telejornais de grande alcance.
“Esse influencer tem mais audiência do que o Jornal Nacional, do que todos os telejornais.”, afirmou.
“Desacreditar” a imprensa tradicional
Na avaliação de Moraes, esse fenômeno não teria ocorrido de maneira espontânea. O ministro afirmou que houve um processo deliberado de enfraquecimento da credibilidade da imprensa tradicional.
“Isso foi trabalhado para desacreditar.”, disse.
Moraes questionou quantas pessoas atualmente deixaram de confiar nos veículos tradicionais de comunicação e passaram a acompanhar exclusivamente conteúdos produzidos dentro de suas próprias comunidades digitais.
O ministro descreveu esse comportamento como uma espécie de isolamento informacional, no qual o usuário passa a consumir principalmente conteúdos que confirmam suas próprias convicções.
“Quantas pessoas vocês conhecem que não acreditam mais na mídia tradicional? E que seguem como se fosse uma religião fanática tudo o que a bolha passa como notícia. Lavagem cerebral.”, afirmou.
A declaração coloca no centro do debate a chamada “bolha informacional”, fenômeno no qual algoritmos e padrões de consumo digital podem fazer com que usuários sejam continuamente expostos a opiniões e informações semelhantes às que já acompanham.
Algoritmos e política
Durante a mesma palestra, Moraes também direcionou críticas às big techs, empresas responsáveis pelas principais plataformas digitais.
O ministro afirmou que foi um erro considerar essas empresas neutras e sustentou que os algoritmos são capazes de identificar características, frustrações e preferências dos usuários.
“Fomos ingênuos em um determinado momento por acreditar que as big techs eram neutras.”, declarou.
Segundo Moraes, os algoritmos podem ser utilizados para identificar determinados grupos e explorar sentimentos e insatisfações presentes entre os usuários.
Ele relacionou essa dinâmica ao cenário político e eleitoral, argumentando que os candidatos podem acabar sendo transformados em produtos destinados a públicos específicos.
A avaliação do ministro é particularmente relevante em um período eleitoral, no qual redes sociais, vídeos curtos, transmissões ao vivo e influenciadores desempenham papel crescente na comunicação entre candidatos e eleitores.
A crítica à perda de referência jornalística
A fala de Moraes também se conecta a outra discussão levantada recentemente pelo ministro: a necessidade de voltar a debater a exigência de formação específica para o exercício do jornalismo.
O ministro e o colega Flávio Dino, também integrante do STF, defenderam que a Corte volte a discutir a questão do diploma de jornalismo. A exigência havia sido derrubada pelo Supremo em 2009.
Moraes argumentou que o crescimento das redes sociais tornou mais complexa a distinção entre jornalismo profissional e produção individual de conteúdo.
Em declaração anterior, o ministro afirmou que atualmente qualquer pessoa pode se declarar jornalista e utilizar a liberdade de imprensa como argumento para publicar conteúdos ofensivos.
Para Moraes, esse cenário não deveria levar a sociedade a tratar indistintamente qualquer produtor de conteúdo como equivalente à imprensa profissional.
Um debate que envolve liberdade de expressão
As declarações do ministro ocorrem em meio a uma discussão mais ampla sobre os limites da liberdade de expressão, responsabilidade nas redes sociais e combate à desinformação.
A questão ganhou importância especialmente depois que as plataformas digitais passaram a ocupar posição central na formação da opinião pública.
De um lado, existe a defesa de mecanismos capazes de impedir campanhas coordenadas de desinformação e ataques contra instituições. De outro, há preocupação de que medidas de controle possam atingir manifestações legítimas e ampliar o poder de autoridades sobre o discurso público.
Moraes tem sido uma das figuras centrais desse debate no STF, especialmente em processos relacionados à atuação das plataformas digitais e à circulação de conteúdos considerados ofensivos ou antidemocráticos.
Influenciadores no centro da disputa pela informação
A fala do ministro revela uma transformação profunda na maneira como parte da sociedade consome notícias.
A televisão e os grandes jornais deixaram de ter exclusividade na produção e distribuição de informação. Hoje, uma pessoa com celular, acesso à internet e uma grande audiência pode comentar acontecimentos nacionais e internacionais para milhões de seguidores.
É justamente essa mudança que Moraes questiona.
Para o ministro, audiência não significa necessariamente conhecimento ou credibilidade. Um influenciador pode falar sobre política, guerra, economia, futebol ou instituições públicas sem possuir formação ou experiência específica nesses assuntos.
A crítica é direcionada, portanto, não apenas ao conteúdo produzido, mas à confiança depositada por parte do público nesses comunicadores.
A frase que resume a crítica
Ao atacar esse fenômeno, Moraes utilizou uma linguagem particularmente dura. Para ele, há influenciadores que conquistaram grande audiência apesar de, segundo sua avaliação, “não terem a mínima ideia do que estão falando”.
O ministro também chamou atenção para o risco de o público abandonar fontes jornalísticas tradicionais e passar a consumir exclusivamente conteúdos de comunidades digitais fechadas.
A preocupação apresentada por Moraes está diretamente ligada ao funcionamento das democracias contemporâneas: se diferentes grupos passam a viver em ambientes informacionais completamente separados, a própria construção de consensos mínimos sobre fatos pode se tornar mais difícil.
A discussão, portanto, ultrapassa a simples disputa entre televisão e internet. Envolve a credibilidade da imprensa, o poder dos algoritmos, a responsabilidade das plataformas, o papel dos influenciadores e a capacidade do cidadão de distinguir opinião, propaganda e informação jornalística.
No discurso em São Paulo, Moraes resumiu sua preocupação ao apontar para uma realidade em que influenciadores podem alcançar mais pessoas do que os principais telejornais do país.
“Esse influencer tem mais audiência do que o Jornal Nacional, do que todos os telejornais.”
Para o ministro, o desafio agora é compreender como essa nova estrutura de comunicação interfere na formação da opinião pública — e, principalmente, como impedir que a enorme capacidade de alcance das redes transforme audiência em autoridade sem que exista, necessariamente, conhecimento, apuração ou responsabilidade jornalística por trás da informação.