Na Paulista, Flávio Bolsonaro transforma 7 de Setembro em ato contra Lula e Moraes e faz de André Mendonça símbolo da manifestação

Na Paulista, Flávio Bolsonaro transforma 7 de Setembro em ato contra Lula e Moraes e faz de André Mendonça símbolo da manifestação

Manifestação reuniu cerca de 28,5 mil pessoas, segundo estimativa da USP/Cebrap, teve como palavras de ordem “Fora Lula” e “Fora Moraes” e reuniu Flávio Bolsonaro, Tarcísio de Freitas, Nikolas Ferreira, Ricardo Nunes, Bia Kicis, Silas Malafaia, Valdemar Costa Neto e outras lideranças da direita

A Avenida Paulista foi transformada, nesta segunda-feira, 7 de setembro de 2026, em um dos principais palcos da disputa política brasileira. O ato convocado pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato à Presidência da República, levou milhares de apoiadores ao coração financeiro de São Paulo e colocou no centro dos discursos dois adversários políticos: o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes.

O evento teve como eixo as palavras de ordem “Fora Lula” e “Fora Moraes”, além da defesa do ministro do STF André Mendonça, que recebeu homenagens, aplausos, orações, coro de apoiadores e até um boneco inflável gigante com sua imagem. O ato também teve forte conteúdo eleitoral, com Flávio apresentando a manifestação como demonstração de força de sua candidatura e defendendo mudanças na composição do Supremo caso seja eleito.

A estimativa do Monitor do Debate Político da Universidade de São Paulo (USP), divulgada após a manifestação, apontou 28,5 mil pessoas no pico do ato. O número ficou abaixo dos públicos estimados em manifestações anteriores de 7 de Setembro na Paulista, mas representa uma mobilização expressiva para um evento político realizado em plena corrida presidencial.

O significado político do evento, entretanto, foi muito maior do que a simples contagem de participantes.

A Paulista tornou-se palco de uma demonstração de força da direita, de ataques ao governo Lula, de pressão contra Alexandre de Moraes e de uma tentativa de consolidar Flávio Bolsonaro como o principal herdeiro político de seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro.

O centro do protesto: “Fora Lula” e “Fora Moraes”

Desde a convocação, o ato foi apresentado pelo Partido Liberal e por seus organizadores com os lemas “Fora Lula, Fora Moraes” e “É agora ou nunca”.

A manifestação foi construída para unir duas insatisfações diferentes em uma mesma narrativa: a oposição ao governo federal e a contestação à atuação do Supremo Tribunal Federal, especialmente de Alexandre de Moraes.

Durante o evento, manifestantes exibiram cartazes, bandeiras e faixas contra Lula e Moraes. O ministro do STF foi um dos principais alvos dos discursos, enquanto o presidente da República foi associado pelos oradores ao atual cenário político e institucional que a direita pretende modificar nas eleições de 2026.

Flávio Bolsonaro foi ainda mais direto.

Em seu discurso, afirmou que “quem vota em Lula está votando em Alexandre de Moraes”, transformando a disputa contra o ministro em argumento eleitoral. O senador também declarou que, se chegar à Presidência, pretende indicar cinco novos ministros para o STF, uma proposta que representa uma das mais fortes promessas de intervenção na composição da Corte apresentadas durante a atual campanha.

A frase resume a estratégia política de Flávio: apresentar a eleição presidencial como uma escolha não apenas entre Lula e a oposição, mas entre a manutenção ou a transformação da atual relação entre Executivo, Legislativo e Judiciário.

André Mendonça vira símbolo da Paulista

Se Alexandre de Moraes foi o principal alvo dos manifestantes, André Mendonça foi o principal ministro homenageado.

O contraste não poderia ser mais evidente.

Enquanto Moraes era vaiado, criticado e alvo de pedidos de afastamento, Mendonça recebeu aplausos e manifestações de apoio.

Um boneco inflável gigante com a imagem de André Mendonça foi levado à avenida e rapidamente se transformou em uma das fotografias mais marcantes do evento. O ministro foi apresentado pelos manifestantes como uma figura de contraponto dentro do próprio Supremo Tribunal Federal.

A deputada federal Bia Kicis (PL-DF) e outros aliados fizeram manifestações em defesa do ministro. O deputado federal Gustavo Gayer (PL-GO) também puxou coro de apoio a Mendonça.

O gesto ganhou força porque ocorre em meio à crise institucional que envolve decisões de Mendonça, Alexandre de Moraes, a Polícia Federal e as investigações relacionadas ao caso Banco Master.

É importante destacar, porém, que as suspeitas e acusações que envolvem autoridades e o caso Master permanecem objeto de investigação e disputa institucional. Apoio político a Mendonça ou críticas a Moraes não substituem investigação, contraditório e decisão judicial.

Quem esteve no palco e no entorno do ato

A manifestação reuniu um grupo numeroso de políticos, parlamentares, dirigentes partidários e lideranças religiosas.

Além de Flávio Bolsonaro, estiveram presentes e participaram da programação nomes como Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo; Nikolas Ferreira, deputado federal por Minas Gerais; Ricardo Nunes, prefeito de São Paulo; Bia Kicis, deputada federal pelo Distrito Federal e candidata ao Senado; Guilherme Derrite, deputado federal por São Paulo e candidato ao Senado; Gustavo Gayer, deputado federal por Goiás e candidato ao Senado; Alfredo Gaspar, deputado federal por Alagoas e candidato a vice-presidente na chapa de Flávio; Valdemar Costa Neto, presidente nacional do PL; e André do Prado, deputado estadual de São Paulo e candidato ao Senado.

Também participaram Silas Malafaia, pastor e uma das principais lideranças religiosas alinhadas ao bolsonarismo, e a bispa Sônia Hernandes, da Igreja Renascer em Cristo, que participou da abertura do ato.

Daniella Marques, integrante da equipe econômica da campanha de Flávio, também discursou. Sua presença reforçou a tentativa da campanha de não limitar o evento exclusivamente à pauta institucional e judicial, mas apresentar uma estrutura política mais ampla para a candidatura presidencial.

A presença de Tarcísio de Freitas teve peso especial.

O governador paulista adotou um tom mais institucional do que Flávio e defendeu que o Supremo dê respostas sobre as controvérsias envolvendo Alexandre de Moraes. Também afirmou que ninguém está acima da lei. Ao mesmo tempo, manifestou apoio à candidatura de Flávio e à continuidade do projeto político associado ao bolsonarismo.

Nikolas Ferreira rouba parte dos holofotes

Outro personagem de grande destaque foi Nikolas Ferreira (PL-MG).

O deputado foi um dos nomes mais ovacionados pelos manifestantes e utilizou seu discurso para atacar o governo Lula e criticar Alexandre de Moraes. A repercussão de sua fala chegou a superar, em determinados momentos, a reação provocada pelo próprio candidato à Presidência.

A presença de Nikolas também mostra que o ato não funcionou apenas como palanque de Flávio Bolsonaro.

Foi uma espécie de reunião da nova geração política da direita, com parlamentares que possuem forte presença nas redes sociais e capacidade de mobilização própria.

O papel de Ricardo Nunes

O prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB), também discursou.

Sua presença possui peso político específico porque Nunes governa a cidade que recebeu o ato e mantém diálogo com diferentes setores da direita paulista.

A participação do prefeito colocou mais uma liderança institucional de São Paulo no palanque de Flávio, ao lado de Tarcísio de Freitas e de parlamentares do PL.

Valdemar Costa Neto e a máquina partidária

O presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, também discursou.

Sua presença mostrou que o ato não foi apenas uma mobilização espontânea de apoiadores, mas contou com a estrutura política do principal partido do bolsonarismo.

O PL está diretamente envolvido na candidatura presidencial de Flávio e na tentativa de ampliar sua bancada no Congresso Nacional, especialmente no Senado, onde uma eventual mudança na correlação de forças poderia alterar o debate sobre pedidos de impeachment de ministros do STF.

Bia Kicis, Derrite, Gayer e André do Prado

O palanque também reuniu candidatos que disputam posições estratégicas nas eleições.

Bia Kicis, além de deputada federal, disputa uma vaga no Senado pelo Distrito Federal. Guilherme Derrite busca o Senado por São Paulo. Gustavo Gayer também disputa uma cadeira de senador por Goiás. André do Prado, deputado estadual paulista, está na corrida pelo Senado.

A presença desses nomes revela outra dimensão do ato.

Não estava em jogo apenas a Presidência da República.

Estava em jogo também a formação de uma possível maioria conservadora no Senado, justamente a Casa responsável constitucionalmente pelo julgamento de ministros do Supremo em processos de impeachment.

Por isso, quando os manifestantes gritam “Fora Moraes”, o discurso não se limita à figura individual do ministro.

Há também uma cobrança dirigida ao Senado e aos parlamentares que poderão decidir sobre eventual processo de impeachment.

Silas Malafaia transforma o discurso religioso em confronto político

O pastor Silas Malafaia foi uma das vozes mais contundentes do evento.

Conhecido por seus discursos políticos e pela proximidade com Jair Bolsonaro, Malafaia direcionou críticas a Alexandre de Moraes e defendeu o avanço de medidas contra o ministro.

Sua participação reforçou a presença do eleitorado evangélico no movimento.

A manifestação, dessa forma, combinou três forças: a estrutura partidária do PL, a militância digital da direita e a influência das lideranças religiosas.

O boneco de André Mendonça

Entre todos os elementos visuais da manifestação, nenhum traduziu melhor a tentativa de criar uma narrativa de contraste dentro do STF do que o boneco de André Mendonça.

O boneco gigante transformou o ministro em personagem popular.

A imagem foi pensada para as câmeras.

Para as redes.

Para os celulares.

Para as fotografias.

E funcionou.

Em uma manifestação dominada por ataques a Moraes, a figura de Mendonça apareceu como contraponto visual: um ministro do STF sendo homenageado pela mesma multidão que criticava outro integrante da Corte.

A mensagem era clara para os presentes.

Não se tratava simplesmente de “ser contra o STF”.

Tratava-se, na narrativa dos manifestantes, de exigir uma determinada postura da Corte e defender ministros considerados mais alinhados à interpretação constitucional defendida por aquele grupo.

Trump, Lula e a guerra dos símbolos

Outro elemento que chamou atenção foi o boneco de Donald Trump segurando uma caricatura de Lula vestido como presidiário.

A imagem levou para a Paulista uma dimensão internacional da disputa política.

Trump, presidente dos Estados Unidos, tornou-se símbolo de identificação para setores da direita brasileira, enquanto Lula apareceu representado de maneira depreciativa pelos manifestantes.

O contraste também provocou reação de adversários políticos, entre eles a deputada Erika Hilton (PSOL-SP), que criticou a utilização do boneco.

A cena acabou resumindo a natureza altamente simbólica do ato: bandeiras brasileiras, referências aos Estados Unidos, ataques a Lula, ataques a Moraes e homenagens a Mendonça convivendo no mesmo espaço.

A ausência de Jair Bolsonaro

Um dos elementos mais importantes do evento foi justamente uma ausência.

Jair Bolsonaro, líder histórico do movimento, não estava na Paulista.

Flávio ocupou o centro do palco.

Essa substituição não foi apenas circunstancial. Ela tem significado eleitoral.

Com Jair Bolsonaro afastado das atividades políticas presenciais, Flávio busca demonstrar que consegue mobilizar a base do pai e conduzi-la para uma candidatura própria.

A Paulista funcionou, portanto, como teste de liderança.

28,5 mil pessoas: nem fracasso, nem recorde

A estimativa da USP/Cebrap foi de 28,5 mil participantes.

O número deve ser tratado com precisão.

Não foi um recorde para a direita na Paulista. Os atos anteriores de 7 de Setembro tiveram estimativas maiores. Segundo levantamento citado pela imprensa, o público de 2026 ficou cerca de 32,5% abaixo do registrado em 2025.

Mas também é incorreto tratar 28,5 mil pessoas como uma manifestação irrelevante.

Uma mobilização desse tamanho, em uma das principais avenidas políticas do país, com candidatos presidenciais, governador, prefeito, parlamentares, dirigentes partidários e lideranças religiosas, possui peso político evidente.

A fotografia da avenida pode não ter produzido a maior multidão da história do bolsonarismo.

Mas produziu uma mensagem eleitoral.

O 7 de Setembro virou comício

O caráter eleitoral do evento foi evidente.

Flávio Bolsonaro utilizou o palanque para apresentar sua candidatura, atacar Lula, prometer mudanças no STF e mobilizar seus apoiadores.

A própria análise publicada pela Jovem Pan destacou que o ato teve o Supremo no centro, apoio a Mendonça, críticas a Moraes e discursos de campanha.

Outras análises jornalísticas também classificaram a manifestação como um comício eleitoral realizado dentro da programação política do 7 de Setembro.

O resultado foi uma fusão entre manifestação política e campanha eleitoral.

Não houve uma direita completamente unificada

Também é importante registrar que o 7 de Setembro não produziu um único ato da direita.

Romeu Zema (Novo) realizou uma manifestação própria na Avenida Paulista pela manhã. Renan Santos (Missão) fez ato no Obelisco do Ibirapuera. Ambos também atacaram Alexandre de Moraes, mas não participaram do palanque principal de Flávio.

Outros presidenciáveis tiveram agendas diferentes.

Ronaldo Caiado (PSD) participou do desfile cívico em Goiânia, enquanto Augusto Cury (Avante) adotou discurso de pacificação no Rio de Janeiro.

Portanto, quando se fala nos “políticos do 7 de Setembro”, é necessário distinguir os diferentes atos.

Na Paulista de Flávio, o núcleo político foi formado principalmente por lideranças do PL e aliados. Zema e Renan tiveram manifestações próprias.

A resposta de Lula

Do outro lado da disputa, Luiz Inácio Lula da Silva participou do desfile oficial de 7 de Setembro em Brasília.

Lula adotou tom institucional e falou sobre soberania nacional, enquanto seus adversários concentraram os ataques no Supremo e no governo federal.

A distância entre os dois eventos foi também uma imagem da polarização eleitoral brasileira: de um lado, a cerimônia oficial em Brasília; do outro, a Paulista transformada em palanque de oposição.

A mensagem política da Paulista

O ato deixou uma mensagem que dificilmente poderá ser ignorada pela campanha presidencial.

Flávio Bolsonaro conseguiu colocar Lula e Alexandre de Moraes no mesmo discurso, transformando a relação entre os dois em uma das principais bandeiras de sua candidatura.

Também conseguiu reunir em um mesmo palanque Tarcísio de Freitas, Nikolas Ferreira, Ricardo Nunes, Bia Kicis, Guilherme Derrite, Gustavo Gayer, Alfredo Gaspar, Valdemar Costa Neto, André do Prado, Silas Malafaia, Daniella Marques e outras lideranças.

E, no meio da multidão, André Mendonça apareceu como símbolo de apoio, enquanto Moraes foi transformado no principal alvo.

“Fora Lula, fora Moraes”

No fim, a frase que melhor resume a manifestação é justamente aquela estampada na convocação:

“Fora Lula, fora Moraes.”

Ela condensou o objetivo político do ato.

Para os manifestantes, representava a rejeição ao governo petista e à atuação de Alexandre de Moraes.

Para Flávio Bolsonaro, tornou-se também uma peça de campanha: transformar a eleição presidencial em uma escolha sobre os rumos do STF, da relação entre os Poderes e do futuro político do país.

A Avenida Paulista, mais uma vez, funcionou como termômetro da direita brasileira.

Não foi o maior ato já registrado.

Não foi uma manifestação sem peso.

Foi uma demonstração de força de aproximadamente 28,5 mil pessoas, cercada por uma constelação de políticos, religiosos e candidatos, com uma mensagem política explícita e um alvo claramente definido.

Lula foi colocado no centro da rejeição eleitoral. Moraes foi transformado no principal alvo institucional. E André Mendonça recebeu o tratamento oposto: aplausos, coro, oração e um boneco gigante para simbolizar apoio.

O 7 de Setembro de Flávio Bolsonaro, portanto, não terminou apenas como uma manifestação na Paulista.

Terminou como um capítulo da disputa presidencial de 2026 — e como mais um episódio de uma crise que colocou o Supremo Tribunal Federal no centro da campanha eleitoral.

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