Paulista x Esplanada: 34,2 mil no ato de Flávio e 70 mil no desfile de Lula — mas quem contou cada multidão?

Paulista x Esplanada: 34,2 mil no ato de Flávio e 70 mil no desfile de Lula — mas quem contou cada multidão?

O 7 de Setembro de 2026 produziu duas imagens políticas distintas e duas contagens de público que imediatamente chamaram atenção. Em São Paulo, o ato liderado pelo senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) ocupou a Avenida Paulista com críticas ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva e ao ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes. Em Brasília, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) participou do desfile oficial na Esplanada dos Ministérios, em uma cerimônia que o governo afirmou ter reunido aproximadamente 70 mil pessoas.

A primeira comparação é matemática.

Segundo o Poder360, a manifestação de Flávio Bolsonaro chegou a 34,2 mil participantes em seu pico. Já a Secretaria de Comunicação Social da Presidência informou 70 mil pessoas na Esplanada. Se as duas estimativas forem tomadas pelos seus valores divulgados, o público de Brasília teria sido pouco mais de duas vezes maior que o da Paulista. 

Mas existe uma segunda conta — e ela é justamente a que torna a discussão mais interessante.

O Monitor do Debate Político da USP, em parceria com o Cebrap e a organização More in Common, estimou 28,5 mil pessoas no ato de Flávio. A margem indicada foi de aproximadamente 3,4 mil pessoas. O cálculo foi feito a partir de imagens aéreas e metodologia própria de estimativa de público. 

Ou seja: dependendo da metodologia escolhida, a Paulista aparece com 28,5 mil ou 34,2 mil pessoas.

E Brasília aparece com 70 mil na estimativa divulgada pelo governo.

É justamente aí que começa a discussão.

A matemática que ninguém consegue esconder

Se forem utilizados os 34,2 mil registrados pelo Poder360, os 70 mil anunciados para Brasília representam aproximadamente 2,05 vezes o público da Paulista.

Se for utilizada a estimativa de 28,5 mil da USP/Cebrap, a diferença sobe para aproximadamente 2,46 vezes.

Em linguagem simples: pela conta oficial divulgada para Brasília, a Esplanada teria reunido mais que o dobro da mobilização registrada na Paulista.

E essa comparação merece ser feita porque, durante anos, estimativas de multidões em manifestações políticas brasileiras se transformaram em uma verdadeira guerra de narrativas.

Quando é um ato da direita, aparecem discussões minuciosas sobre densidade, área ocupada, horário de pico, imagens aéreas e metodologia.

Quando é uma manifestação favorável ao governo, frequentemente o número anunciado pelos organizadores ou pelo poder público ganha enorme destaque antes mesmo de uma metodologia independente equivalente ser apresentada.

A pergunta não deveria ser se a manifestação é de direita ou de esquerda.

A pergunta deveria ser uma só:

qual foi o critério utilizado para contar?

A USP e a contagem da Paulista

O caso da Paulista é particularmente interessante porque a USP já possui histórico de estimativas de grandes manifestações políticas.

Em 2026, o Monitor do Debate Político estimou 28,5 mil pessoas no ato de Flávio Bolsonaro. O número foi inferior às estimativas de manifestações bolsonaristas anteriores realizadas na mesma avenida: 42,2 mil em 2025, 45,4 mil em 2024 e 32,7 mil em 2022. 

É uma metodologia que permite comparar atos diferentes utilizando uma mesma referência.

E isso é importante.

Não significa que a USP seja dona da verdade absoluta sobre todas as multidões. Significa que, quando se pretende comparar manifestações, é mais consistente utilizar o mesmo método em eventos diferentes.

O problema aparece quando alguém coloca lado a lado um número produzido por uma metodologia independente e outro divulgado pelo próprio governo ou por seus órgãos de comunicação sem demonstrar que os critérios foram equivalentes.

E os 70 mil de Brasília?

Aqui está o ponto mais delicado.

A informação de que 70 mil pessoas estiveram na Esplanada dos Ministérios foi divulgada pela Secretaria de Comunicação Social da Presidência e também apareceu em reportagens atribuindo a estimativa à Polícia Militar do Distrito Federal. 

O próprio Poder360 questionou a origem da contagem e destacou que o governo não explicou detalhadamente como chegou aos 70 mil. A publicação também comparou imagens do desfile de 2026 com as de 2025 e levantou dúvidas sobre a dimensão anunciada. 

Isso é jornalisticamente relevante.

Não porque permita concluir automaticamente que os 70 mil sejam falsos.

Mas porque uma estimativa extraordinariamente precisa exige explicação sobre a metodologia.

Se alguém diz que havia 70 mil pessoas, a pergunta óbvia é:

Como chegaram a esse número?

Qual foi a área considerada?

Qual densidade foi utilizada?

Foram contadas apenas as arquibancadas?

Foram incluídas as pessoas espalhadas pela Esplanada?

O cálculo considerou horários diferentes?

Houve contagem por imagens aéreas?

Qual instituição realizou tecnicamente a estimativa?

Essas perguntas deveriam valer para qualquer governo, qualquer partido e qualquer manifestação.

“Nas imagens não tinha ninguém”?

É aqui que a crítica precisa tomar cuidado.

É possível olhar determinadas imagens aéreas e ter a impressão de que a Esplanada estava menos ocupada do que o número de 70 mil sugeriria. O próprio Poder360 levantou questionamentos a partir da comparação visual. 

Mas afirmar que “não tinha ninguém” seria exagero e não corresponde ao conjunto das evidências disponíveis.

A Agência Brasil, por exemplo, relatou que, por volta das 9h, no início das apresentações, as arquibancadas estavam praticamente lotadas, com famílias e crianças acompanhando o desfile. 

Portanto, a crítica mais forte — e mais defensável — não é dizer que Brasília estava vazia.

É perguntar:

como uma imagem que visualmente não parece corresponder a uma multidão de 70 mil pessoas resultou em uma estimativa tão alta?

Essa é uma pergunta legítima.

E deveria ser respondida com números, metodologia e transparência.

A ironia da “multidão invisível”

Existe, porém, uma ironia política evidente.

Durante anos, militantes dos dois lados acusaram o outro de inflar números.

A direita costuma questionar estimativas de manifestações ligadas à esquerda.

A esquerda questiona estimativas de atos bolsonaristas.

E, no meio disso, surge o cidadão comum olhando para fotografias e vídeos e perguntando:

“Mas onde estão essas pessoas?”

Essa é uma pergunta que não deveria ser considerada ofensiva.

Ao contrário.

É exatamente o tipo de pergunta que uma imprensa independente deveria fazer.

Se uma organização afirma que determinado ato teve 30 mil pessoas, deve explicar como contou.

Se um governo afirma que seu desfile teve 70 mil, também deve explicar.

A democracia não pode ter uma matemática para a oposição e outra para o governo.

O curioso caso dos 34,2 mil e dos 28,5 mil

Outro ponto que merece destaque é a própria diferença entre as duas estimativas da Paulista.

O Poder360 publicou 34,2 mil.

O Monitor da USP/Cebrap publicou 28,5 mil.

Isso significa uma diferença de 5,7 mil pessoas entre duas metodologias.

É uma diferença significativa, mas não absurda em uma multidão dinâmica, especialmente porque os cálculos podem considerar momentos, áreas e critérios diferentes.

O próprio Poder360 informou que seu número era referente ao pico da manifestação. 

A USP, por sua vez, também trabalhou com o momento de maior concentração e metodologia baseada em imagens aéreas. 

Portanto, a maneira correta de apresentar a notícia é:

Flávio Bolsonaro reuniu algo entre aproximadamente 28,5 mil e 34,2 mil pessoas, dependendo da metodologia utilizada.

Isso é muito mais honesto do que escolher convenientemente apenas o número que interessa politicamente.

E a Esplanada?

A mesma régua deveria ser aplicada a Brasília.

Se o governo afirma 70 mil, deve apresentar a metodologia.

Se a PMDF confirma o número, deve explicar o procedimento.

Se existem imagens aéreas que levantam dúvidas, elas devem ser analisadas.

Se as arquibancadas estavam lotadas, isso deve ser considerado.

Tudo isso pode coexistir.

É perfeitamente possível que milhares de pessoas tenham comparecido e, ao mesmo tempo, que a cifra de 70 mil mereça escrutínio.

Uma coisa não exclui a outra.

A diferença política entre os dois eventos

Além da contagem, existe uma diferença fundamental entre as manifestações.

Na Paulista, Flávio Bolsonaro realizou um ato essencialmente político e eleitoral. O discurso teve como principais alvos Lula e Alexandre de Moraes, com palavras de ordem como “Fora Lula” e “Fora Moraes”, além da defesa do ministro André Mendonça. 

Em Brasília, Lula participou do desfile oficial de Independência, cujo tema foi “Soberania — A força que une o Brasil”. O evento contou com a presença de autoridades dos Três Poderes, incluindo o presidente do STF, Edson Fachin, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, e o presidente da Câmara, Hugo Motta. 

Portanto, não se tratava exatamente do mesmo tipo de evento.

Um era uma manifestação eleitoral de oposição.

O outro era uma cerimônia oficial de Estado.

Essa diferença precisa ser considerada antes de qualquer conclusão política sobre qual lado “mobilizou mais”.

Mas a comparação é inevitável

Mesmo sendo eventos diferentes, a comparação de público é inevitável porque ambos aconteceram no mesmo 7 de Setembro.

De um lado:

Paulista — 28,5 mil pela USP/Cebrap ou 34,2 mil pelo Poder360.

Do outro:

Esplanada — 70 mil segundo a estimativa divulgada pelo governo/PMDF.

Se utilizarmos 34,2 mil contra 70 mil, Brasília teria 35,8 mil pessoas a mais.

Se utilizarmos 28,5 mil contra 70 mil, a diferença chega a 41,5 mil pessoas.

Ou seja, na estimativa divulgada para a Esplanada, a diferença não é pequena.

É uma diferença de dezenas de milhares.

A velha guerra da régua

E aqui está a crítica que merece ser feita à cobertura política.

Não se pode exigir precisão científica somente quando se mede uma manifestação da direita.

Da mesma forma, não se deve aceitar automaticamente qualquer número quando a manifestação favorece o governo.

Se a USP é utilizada para contar um protesto de Flávio, ótimo.

Se outro instituto independente contar a Esplanada com a mesma metodologia, melhor ainda.

O que não faz sentido é comparar uma contagem metodológica independente de um lado com uma estimativa institucional do outro e apresentar os dois números como se fossem produzidos exatamente pela mesma régua.

A régua precisa ser a mesma.

“A Paulista estava cheia, Brasília estava vazia”

Também seria uma simplificação dizer isso como fato absoluto.

A Paulista efetivamente apresentou uma grande concentração de manifestantes, e a Esplanada também teve público, especialmente nas arquibancadas. A Agência Brasil registrou presença significativa no desfile. 

O debate real está em outro lugar:

a cifra de 70 mil está adequadamente demonstrada?

É essa a questão que deveria ocupar o jornalismo.

Porque a política brasileira já tem propaganda demais.

O que falta é transparência na contagem.

A ironia final

Existe uma ironia que não pode passar despercebida.

Quando um ato da direita é medido pela USP e chega a 28,5 mil, rapidamente aparece a manchete dizendo que a mobilização foi menor.

Quando outro levantamento aponta 34,2 mil, surge uma cifra diferente.

Mas quando o governo anuncia 70 mil pessoas em seu próprio desfile, a pergunta deveria ser automática:

quem contou?

E mais:

como contou?

Não se trata de defender Flávio Bolsonaro.

Não se trata de defender Lula.

Não se trata de defender a USP.

Trata-se de defender a mesma regra para todos.

Se havia 70 mil na Esplanada, que se mostre a metodologia e se esclareça a conta.

Se havia 34,2 mil na Paulista, que se explique o método.

Se a USP encontrou 28,5 mil, que se apresente sua metodologia — como já faz.

A população tem o direito de saber.

O que as imagens realmente mostram

As imagens aéreas são importantes, mas também precisam ser interpretadas com cuidado.

Uma fotografia isolada pode não registrar todo o público de um evento. Pessoas podem estar concentradas em arquibancadas, áreas laterais, pontos de acesso e trechos que não aparecem no enquadramento.

Por isso, não é tecnicamente seguro concluir “não havia ninguém” apenas olhando uma fotografia ou um vídeo específico.

Mas também não é razoável utilizar o número de 70 mil como verdade incontestável simplesmente porque foi divulgado por uma autoridade.

A fotografia não substitui a contagem.

E a autoridade também não substitui a metodologia.

A disputa que ficou para além do 7 de Setembro

No fim, o 7 de Setembro de 2026 deixou duas imagens políticas muito diferentes.

Na Paulista, Flávio Bolsonaro transformou a avenida em palanque eleitoral, com ataques a Lula e Moraes, apoio a André Mendonça e palavras de ordem contra o governo e o Supremo. O público foi estimado entre 28,5 mil e 34,2 mil, conforme a metodologia adotada. 

Em Brasília, Lula comandou a cerimônia oficial, acompanhado por autoridades dos Três Poderes, diante de uma estimativa de 70 mil pessoas divulgada pelo governo e atribuída também à PMDF. 

A ironia é que a guerra política brasileira conseguiu transformar até uma contagem de público em disputa ideológica.

34,2 mil de um lado. 70 mil do outro.

Uma multidão foi medida por metodologia independente.

A outra teve seu número divulgado pelo próprio aparato governamental.

E é justamente por isso que a pergunta mais importante do 7 de Setembro não é “quem levou mais gente?”.

É outra:

quem contou — e como contou?

Porque, em uma democracia, até a multidão precisa ter direito à transparência.

Compartilhe nas suas redes sociais
Categorias
Tags