Pablo Marçal entra na corrida presidencial com patrimônio bilionário, mas com a candidatura sob o crivo do TSE

Pablo Marçal entra na corrida presidencial com patrimônio bilionário, mas com a candidatura sob o crivo do TSE

PRTB registra empresário como candidato ao Planalto e troca o comando da chapa; Marçal declara R$ 7,4 bilhões, enquanto uma condenação eleitoral mantém a inelegibilidade até 2032

Pablo Marçal voltou oficialmente ao centro da disputa presidencial de 2026, mas sua entrada na corrida eleitoral está longe de ser uma questão encerrada. O PRTB protocolou o registro de sua candidatura à Presidência da República em 15 de agosto, depois de uma decisão judicial autorizar a filiação do empresário ao partido. A candidatura, porém, ainda depende da análise da Justiça Eleitoral e convive com uma condenação que, atualmente, mantém Marçal inelegível até 2032.

O episódio transforma a candidatura em uma espécie de corrida contra o relógio jurídico. Enquanto o partido apresenta Marçal como seu nome para o Palácio do Planalto, adversários e o Ministério Público Eleitoral podem questionar o registro. Até uma decisão contrária do Tribunal Superior Eleitoral, contudo, Marçal pode aparecer como candidato, fazer campanha e participar normalmente do processo eleitoral, conforme a interpretação apresentada pelo professor de Direito Eleitoral Fernando Neisser, da FGV.

Uma chapa remodelada às pressas

A candidatura também provocou uma mudança significativa dentro do PRTB. Leonardo Avalanche, presidente nacional da legenda, havia sido escolhido para encabeçar a chapa presidencial. Com a entrada de Marçal, passou à condição de candidato a vice-presidente. O próprio partido descreveu a movimentação como resultado de uma articulação construída nos bastidores. Avalanche afirmou que a legenda havia recuperado o controle do partido depois de uma disputa interna.

A mudança se tornou possível após uma liminar autorizar Marçal a deixar o União Brasil e retornar ao PRTB, antigo partido do empresário. A decisão registrou que ele havia preenchido e assinado a ficha de filiação em 4 de abril de 2026, com deferimento da presidência nacional da legenda.

A partir daí, o partido passou a vender a candidatura como uma alternativa própria ao eleitorado. Em nota, o PRTB apresentou Marçal como um candidato cristão, defensor do empreendedorismo e crítico do governo atual. A legenda também afirmou que, com o início oficial da campanha, sua expectativa era transformar a candidatura em uma das principais novidades da abertura da disputa presidencial.

Marçal, por sua vez, respondeu de maneira curta quando procurado pelo g1: “O Senhor proverá”.

A candidatura enfrenta uma barreira judicial

O principal problema político e jurídico está na situação de inelegibilidade.

Em 5 de agosto, o Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo rejeitou, por unanimidade, os embargos de declaração apresentados pela defesa do empresário e manteve a condenação que determina oito anos de inelegibilidade, com base na legislação eleitoral. A decisão preservou o acórdão de dezembro de 2025.

A condenação está relacionada ao chamado “campeonato de cortes”, estratégia de campanha em que colaboradores eram estimulados a produzir e disseminar vídeos nas redes sociais. O TRE-SP também havia aplicado uma multa de R$ 420 mil.

As ações foram apresentadas pelo PSB, pelo Ministério Público Eleitoral e pela vereadora eleita Silvia Ferraro, do PSOL/Rede. Na avaliação dos advogados do PSB, Rafael Carneiro e Felipe Corrêa, a decisão do TRE-SP reforça a necessidade de preservar o equilíbrio da disputa e impedir práticas capazes de interferir indevidamente na vontade do eleitor.

O que a Justiça analisou

Nos processos, a Justiça Eleitoral examinou principalmente a realização do concurso de cortes. Segundo os autos descritos na reportagem, colaboradores eram incentivados a criar e espalhar vídeos de campanha nas redes sociais mediante remuneração e brindes.

Em outro processo, apresentado por Silvia Ferraro, também foi analisada a contratação de um anúncio no Google pela maquiadora da esposa de Marçal. O anúncio encaminhava usuários ao site oficial da campanha.

Na primeira instância, Marçal havia sido condenado por abuso de poder econômico, captação e gastos ilícitos de recursos e uso indevido dos meios de comunicação. O pedido de condenação por compra de votos, entretanto, foi rejeitado.

A manutenção da condenação no TRE-SP significa, na prática, que a candidatura presidencial chega ao processo eleitoral carregando uma contestação jurídica de grande peso.

Marçal pode fazer campanha?

Pode, enquanto não houver uma decisão da Justiça Eleitoral que impeça sua permanência na disputa.

O professor Fernando Neisser explica que qualquer pessoa pode apresentar um pedido de registro de candidatura, mesmo estando em situação de inelegibilidade. Não existe uma barreira automática que impeça o protocolo do pedido.

A situação, portanto, produz uma característica peculiar: Marçal pode ser candidato no plano eleitoral enquanto sua candidatura ainda está sendo discutida no plano judicial.

Segundo Neisser, adversários e o Ministério Público Eleitoral ainda podem impugnar o registro. Marçal terá direito de apresentar defesa, e, por se tratar de uma eleição presidencial, o processo será analisado inicialmente pelo próprio TSE.

Se o TSE concluir que Marçal não pode concorrer, ele terá de abandonar a disputa e o PRTB poderá substituí-lo.

A força do patrimônio declarado

Paralelamente à batalha jurídica, outro aspecto da candidatura chamou atenção: o patrimônio declarado pelo empresário.

Segundo as informações apresentadas à Justiça Eleitoral, Marçal declarou R$ 7,4 bilhões em bens, sendo cerca de R$ 6,7 bilhões em aplicações de renda fixa. Também aparece na relação um terreno em Santana de Parnaíba (SP), declarado em R$ 490 milhões.

O tamanho da declaração coloca o patrimônio do empresário no centro do debate eleitoral, especialmente porque a Justiça Eleitoral exige que os candidatos informem seus bens no momento do registro.

A cifra, contudo, deve ser tratada como patrimônio declarado pelo próprio candidato, e não como uma homologação judicial de valor ou origem de cada ativo.

Uma candidatura entre a política e os tribunais

O caso de Pablo Marçal expõe uma das peculiaridades do processo eleitoral brasileiro: o lançamento político pode acontecer antes da conclusão jurídica sobre a elegibilidade.

O PRTB tem um candidato, uma chapa formada e uma campanha em andamento. Marçal pode pedir votos, mobilizar apoiadores e arrecadar recursos enquanto o processo segue seu curso. Ao mesmo tempo, a condenação do TRE-SP continua produzindo efeitos e poderá derrubar a candidatura caso o TSE mantenha o entendimento das instâncias anteriores.

É justamente essa dualidade que torna a candidatura uma das mais controversas da eleição de 2026. De um lado, há a estratégia política do PRTB de apresentar Marçal como uma alternativa ao eleitorado e reposicionar Avalanche como vice. De outro, existe uma decisão judicial que continua apontando para a inelegibilidade até 2032.

No meio dessa disputa estão os eleitores, que poderão acompanhar uma campanha cujo destino não será decidido apenas nos palanques, nas redes sociais ou nas pesquisas. Parte essencial dessa história será escrita nos autos do Tribunal Superior Eleitoral.

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