Proposta de tabelamento dos juros expõe divergências no PT e levanta dúvidas sobre os rumos da economia no quarto mandato de Lula

Proposta de tabelamento dos juros expõe divergências no PT e levanta dúvidas sobre os rumos da economia no quarto mandato de Lula

Ideia defendida pelo economista André Lara Resende prevê limitar a Selic e mudar a relação entre política fiscal e monetária; enquanto Gleisi Hoffmann e aliados demonstram simpatia pela tese, o ministro Dario Durigan afirma que a medida não está nos planos do governo.

A discussão sobre os rumos da economia no quarto mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ganhou um novo capítulo com a proposta do economista André Lara Resende de estabelecer limites para a taxa básica de juros, a Selic. A ideia, que passou a ser chamada de “tabelamento dos juros”, provocou divergências dentro do próprio campo governista e ampliou as preocupações de agentes do mercado financeiro sobre a condução da política econômica.

Lara Resende, um dos formuladores do Plano Real, defende uma mudança na coordenação das políticas fiscal e monetária. Sua proposta prevê a criação de um Conselho Fiscal e Monetário Nacional, responsável por estabelecer metas conjuntas para um período de quatro a cinco anos. A taxa Selic ficaria dentro de uma faixa definida a partir da meta de inflação e do crescimento nominal potencial da economia.

Na prática, o economista propõe que os juros sejam reduzidos gradualmente, chegando a aproximadamente 7,5% ao ano em um prazo de 12 meses. Atualmente, a Selic está em 13,75% ao ano, segundo os dados divulgados nas reportagens sobre a proposta.

O argumento de Lara Resende é que o custo elevado dos juros tem peso determinante no crescimento da dívida pública brasileira. Para ele, reduzir a taxa básica poderia diminuir os encargos financeiros do governo e contribuir para o reequilíbrio das contas públicas. A proposta também prevê a possibilidade de utilização das reservas internacionais para tentar amenizar uma eventual pressão sobre o câmbio.

A ideia encontrou apoio em integrantes de uma ala desenvolvimentista do PT. A deputada Gleisi Hoffmann compartilhou o artigo do economista e criticou a pressão do mercado financeiro por medidas de ajuste fiscal. O ex-presidente da Petrobras José Sérgio Gabrielli também demonstrou simpatia pela discussão, defendendo a abertura do debate econômico a alternativas diferentes das propostas pelo mercado.

Do outro lado, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, tratou de afastar a possibilidade de que o tabelamento esteja sendo adotado pelo governo. Em declaração divulgada pela imprensa, afirmou que nenhuma proposta dessa natureza está na mesa de Lula e que não existe reunião agendada entre o presidente e Lara Resende para discutir o assunto.

O presidente nacional do PT, Edinho Silva, também procurou conter as especulações e afirmou que as manifestações oficiais sobre a política econômica do governo cabem ao ministro da Fazenda. O presidente do BNDES, Aloizio Mercadante, igualmente negou que exista uma proposta de tabelamento em discussão no governo.

A reação do mercado financeiro foi de preocupação. Entre as principais críticas está o risco de que a imposição de limites à Selic comprometa a autonomia do Banco Central e enfraqueça a credibilidade da política monetária. Gestores ouvidos pela imprensa argumentam que reduzir os juros por decisão política, sem uma estratégia fiscal considerada consistente, poderia desorganizar as expectativas de inflação, pressionar o dólar e afastar investimentos.

O ponto central da divergência está no diagnóstico do problema brasileiro. Lara Resende atribui parcela decisiva do crescimento da dívida ao custo dos juros. Já os críticos de sua proposta sustentam que os juros elevados também refletem a falta de confiança na trajetória das contas públicas. Nessa interpretação, tentar reduzir a Selic artificialmente, sem enfrentar o desequilíbrio fiscal, poderia agravar a instabilidade econômica.

O debate ocorre em um momento delicado para o governo. A dívida pública bruta está próxima de 83% do Produto Interno Bruto, e a cobrança por sinais claros de responsabilidade fiscal aumentou após a reeleição de Lula. A discussão sobre a futura equipe econômica também ganhou força, justamente porque investidores e empresários aguardam indicações sobre as prioridades do próximo mandato.

A controvérsia revela que não existe consenso nem mesmo entre aliados do presidente sobre como enfrentar o custo da dívida, controlar as despesas públicas e estimular o crescimento econômico. Enquanto uma ala defende mudanças mais profundas na política monetária, outra procura evitar propostas que possam comprometer a confiança na condução das contas nacionais.

Para o cidadão, a discussão não é meramente técnica. Decisões sobre juros, inflação, câmbio e dívida pública afetam o crédito, o financiamento de empresas, o custo de produtos e serviços e a capacidade do governo de financiar políticas públicas. Uma redução sustentável dos juros pode trazer benefícios, mas uma queda sem credibilidade e sem controle das contas públicas também pode produzir consequências negativas.

Por enquanto, o ministro da Fazenda nega que o tabelamento esteja nos planos do governo. A proposta de Lara Resende, entretanto, já colocou em evidência uma disputa importante sobre a orientação econômica do quarto mandato de Lula: de um lado, os que defendem uma intervenção maior na definição dos juros; de outro, os que alertam para os riscos de enfraquecer a política monetária e a confiança na economia brasileira.

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