Renan Santos incorpora ex-secretário do governo Lula à equipe econômica e promete plano de cortes de até R$ 3,3 trilhões

Renan Santos incorpora ex-secretário do governo Lula à equipe econômica e promete plano de cortes de até R$ 3,3 trilhões

Paulo Bijos, que comandou a Secretaria de Orçamento Federal durante a gestão Simone Tebet, é um dos responsáveis pela proposta econômica do candidato do Missão; plano prevê economia de R$ 1,1 trilhão em cinco anos e R$ 3,3 trilhões em uma década

A campanha presidencial de Renan Santos (Missão) anunciou a incorporação de Paulo Bijos, ex-secretário de Orçamento Federal do governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT), à equipe responsável pela formulação econômica da candidatura. A informação foi divulgada pelo deputado federal Kim Kataguiri (Missão-SP) em 18 de agosto, durante uma agenda de Renan com representantes do setor empresarial em Brasília. Bijos confirmou a participação à imprensa.

O anúncio chama atenção pelo trânsito de um técnico que atuou na administração petista para uma campanha que se apresenta como alternativa tanto ao lulismo quanto ao bolsonarismo. A escolha também ocorre em meio à tentativa de Renan Santos de apresentar uma equipe econômica com perfil técnico e de convencer empresários e agentes do mercado financeiro de que sua candidatura possui um programa consistente de ajuste das contas públicas.

Segundo Kim Kataguiri, Paulo Bijos foi responsável pela elaboração da proposta econômica apresentada por Renan, que prevê uma economia estimada em R$ 1,1 trilhão em cinco anos e R$ 3,3 trilhões em dez anos. O desenho do programa coloca o ajuste fiscal no centro da estratégia econômica da candidatura.

Quem é Paulo Bijos

Bijos ocupou o cargo de secretário de Orçamento Federal durante a gestão da então ministra do Planejamento e Orçamento, Simone Tebet. Ele deixou a pasta em julho de 2024, pouco antes do envio ao Congresso da proposta orçamentária para 2025.

A saída ocorreu após a Câmara dos Deputados requisitar o retorno do servidor. Bijos é funcionário da própria Câmara e estava cedido ao Ministério do Planejamento. O então presidente da Casa, Arthur Lira (PP-AL), requisitou seu retorno para que reassumisse a função de analista legislativo na Consultoria de Orçamento da Câmara.

A saída teria surpreendido Simone Tebet. De acordo com informações publicadas na época, a ministra tentou reverter o retorno do secretário, mas não conseguiu impedir a movimentação.

A trajetória de Bijos, portanto, inclui uma passagem relevante pela estrutura econômica do governo Lula, embora sua atuação seja de natureza técnica e ligada à elaboração e execução do Orçamento Federal.

O programa econômico de Renan Santos

A participação de Bijos ganha importância porque a campanha de Renan Santos tenta fazer do ajuste fiscal um dos principais pilares de sua plataforma presidencial.

A proposta apresentada pelo candidato prevê uma economia de R$ 1,1 trilhão no período de cinco anos e de R$ 3,3 trilhões em dez anos. Os números foram apresentados como parte de um amplo programa de redução de despesas e reorganização do Estado.

Renan também afirmou, durante o encontro com empresários em Brasília, que pretende anunciar em breve quem será seu ministro da Fazenda caso seja eleito. O candidato declarou que a intenção era oficializar o nome em até 15 dias, reforçando a tentativa de demonstrar que sua equipe econômica está sendo construída antes mesmo do início formal de um eventual governo.

A estratégia busca diferenciar Renan de candidatos que deixam para apresentar nomes de primeiro escalão apenas depois do resultado eleitoral.

Kim Kataguiri ganha protagonismo

O deputado Kim Kataguiri, uma das principais lideranças do Missão, foi responsável por anunciar a participação de Bijos. O parlamentar também aparece como peça importante na estrutura econômica projetada pela campanha.

Além de atuar na formulação do programa, Kataguiri é apontado como nome cotado para comandar uma eventual pasta relacionada à reforma do Estado. A campanha pretende associar a agenda econômica a uma proposta mais ampla de redução e reorganização da máquina pública.

A presença de Kataguiri e Bijos na construção do programa revela uma tentativa de combinar atuação política com conhecimento técnico de orçamento público.

Uma escolha que atravessa governos

A chegada de um ex-integrante da equipe econômica de Lula à campanha de Renan Santos tem um componente simbólico importante.

Renan tem construído sua candidatura com críticas duras ao governo petista e ao próprio Lula. No primeiro debate presidencial de 2026, realizado em 23 de agosto, o candidato atacou fortemente o presidente, que não compareceu ao confronto. A ausência de Lula fez com que ele se tornasse um dos principais alvos dos candidatos presentes.

Ao mesmo tempo, Renan procura mostrar que sua equipe não será composta exclusivamente por nomes ligados à sua trajetória política. A escolha de Bijos permite à campanha argumentar que pretende aproveitar profissionais com experiência no Estado, independentemente de sua passagem por governos de diferentes orientações políticas.

A própria participação de um ex-secretário de Orçamento de Lula não significa, por si só, que Bijos tenha aderido ao projeto político do PT. Sua atuação na campanha de Renan está relacionada à formulação técnica do programa econômico do candidato.

Renan mira o empresariado e o mercado

O anúncio foi feito durante uma agenda de Renan Santos com o empresariado em Brasília. O candidato participou de evento organizado pela União Nacional de Entidades do Comércio e Serviços (UNECS) e também tinha compromissos previstos com a Frente Parlamentar de Ambiente de Negócios e com a Confederação Nacional do Transporte (CNT).

A agenda faz parte de uma ofensiva da campanha para apresentar Renan como candidato capaz de dialogar diretamente com empresários, investidores e setores produtivos.

A economia ocupa posição central nessa estratégia. O candidato defende uma profunda mudança na estrutura do Estado e apresenta o equilíbrio das contas públicas como condição para recuperar a capacidade de investimento e criar um ambiente mais favorável aos negócios.

Críticas às regras trabalhistas

Durante o mesmo evento, Renan Santos também apresentou posições controversas sobre a legislação trabalhista. O candidato defendeu o fim da Justiça do Trabalho e classificou como “maluquice” a proposta de acabar com a escala 6×1, atualmente discutida no Congresso.

Segundo Renan, mudanças nesse sentido poderiam provocar uma “quebradeira da economia”. A declaração mostra que o programa econômico da candidatura não se limita ao controle das despesas públicas, mas inclui uma proposta de revisão profunda das relações entre trabalhadores, empresas e Estado.

As posições colocam Renan em confronto com setores que defendem a redução da jornada de trabalho e o fim da escala 6×1 como medida de melhoria das condições laborais.

O ajuste fiscal como bandeira eleitoral

O programa de Renan Santos surge em um cenário no qual o ajuste das contas públicas se tornou um dos principais temas da eleição presidencial de 2026.

Outros candidatos também apresentam propostas de redução de despesas. Flávio Bolsonaro (PL), por exemplo, anunciou uma equipe econômica própria e passou a defender cortes de gastos, responsabilidade fiscal e redução da intervenção estatal.

A diferença está na dimensão dos números apresentados por Renan. A estimativa de R$ 3,3 trilhões em economia ao longo de dez anos coloca o candidato entre os que apresentam as propostas mais agressivas de redução de gastos no debate eleitoral.

A participação de Paulo Bijos procura conferir respaldo técnico a esse projeto, justamente por sua experiência anterior na elaboração e acompanhamento do Orçamento Federal.

Uma equipe ainda em construção

Apesar do anúncio, a campanha ainda não definiu todos os nomes que ocupariam os principais postos econômicos de um eventual governo Renan Santos.

O próprio candidato afirmou que pretende anunciar o nome do ministro da Fazenda em até 15 dias. Isso significa que Bijos, neste momento, integra a construção do programa e da equipe econômica, mas não necessariamente ocuparia o Ministério da Fazenda em caso de vitória.

A confirmação de sua participação, entretanto, representa um movimento relevante da campanha.

Renan Santos tenta, de um lado, manter o discurso de ruptura com a política tradicional e com os governos Lula e Bolsonaro. De outro, procura reunir profissionais com experiência concreta na administração pública e na elaboração do Orçamento.

Entre a ruptura e a experiência técnica

A escolha de Paulo Bijos sintetiza uma das contradições aparentes da estratégia eleitoral de Renan Santos: um candidato que faz da ruptura uma bandeira decidiu recorrer a um técnico que teve papel importante dentro da estrutura econômica do governo Lula.

Para a campanha, a explicação está na natureza técnica do trabalho. A experiência de Bijos com orçamento e contas públicas seria utilizada para construir um programa capaz de sustentar as promessas de redução de despesas.

Para o eleitor, entretanto, a composição da equipe oferece um elemento adicional para avaliar a candidatura: Renan não pretende apenas atacar Lula e o bolsonarismo, mas também construir uma alternativa econômica apoiada em nomes com experiência institucional.

O resultado é uma candidatura que tenta combinar discurso de ruptura, ajuste fiscal radical e conhecimento técnico do funcionamento do Estado.

Nesse contexto, Paulo Bijos passa a ocupar um espaço estratégico. Ex-secretário de Orçamento Federal da gestão Lula, ele agora ajuda a desenhar o projeto econômico de um dos mais contundentes críticos do atual presidente. A movimentação mostra que, na corrida presidencial de 2026, a disputa econômica começa a ultrapassar as fronteiras ideológicas tradicionais e a incorporar técnicos cuja experiência profissional atravessa diferentes governos e grupos políticos.

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