
Rogério Marinho nega acordo para salvar Moraes e afirma que Janja virou “cabo eleitoral” de Flávio
Coordenador da campanha de Flávio Bolsonaro rejeita acusação de acordo com Michel Temer para preservar Alexandre de Moraes e afirma que a direita não fará “vingança”, mas também não será omissa diante das questões envolvendo o STF
O senador Rogério Marinho (PL-RN), coordenador-geral da campanha de Flávio Bolsonaro (PL) à Presidência da República, reagiu de forma contundente às acusações feitas por setores do PT de que haveria um suposto acordo entre Flávio e o ex-presidente Michel Temer (MDB) para preservar o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF).
Em entrevista à coluna de Igor Gadelha, do Metrópoles, Marinho negou categoricamente a existência de qualquer negociação nesse sentido. Segundo o senador, nas conversas realizadas até agora não houve qualquer compromisso para impedir medidas contra Moraes.
“Nas conversas que nós tivemos, não existe nenhuma palavra de acordo. Não queremos vingança contra ninguém, mas não seremos omissos”, afirmou Marinho.
A declaração veio depois de integrantes do PT levantarem a tese de que o apoio de Temer à candidatura de Flávio no segundo turno teria como contrapartida uma espécie de proteção política a Moraes. A hipótese havia sido divulgada como uma avaliação de petistas, mas os interlocutores de Temer e de Flávio negaram a existência de qualquer acordo.
Marinho: tentativa de “virar o jogo”
Para Marinho, a narrativa criada pelos adversários políticos representa uma tentativa de deslocar o debate depois do resultado expressivo de Flávio no primeiro turno.
O senador avaliou que setores do PT perceberam que o Supremo acabou se transformando em um dos elementos centrais da disputa eleitoral e agora tentariam atribuir à campanha de Flávio uma negociação que, segundo ele, simplesmente não existe.
Marinho afirmou que a direita não pretende agir por vingança, mas deixou claro que também não aceitará abrir mão das prerrogativas constitucionais do Senado.
A posição é relevante porque a composição do Congresso eleito para a próxima legislatura terá forte presença de parlamentares de direita, aumentando a pressão política em torno de temas relacionados ao STF e à atuação de seus ministros.
O coordenador da campanha de Flávio já havia defendido publicamente que o Senado exerça suas competências constitucionais e criticado aquilo que considera interferência judicial no processo eleitoral.
“Não queremos vingança, mas não seremos omissos”
A frase de Marinho merece destaque justamente pela diferença entre vingança política e responsabilização institucional.
O senador não prometeu perseguição pessoal contra Alexandre de Moraes. O que afirmou foi que uma eventual análise de responsabilidades deverá seguir os instrumentos previstos na Constituição e nas instituições brasileiras.
Essa distinção é importante em um momento de forte polarização.
A campanha de Flávio tenta apresentar a questão não como uma disputa pessoal contra ministros do Supremo, mas como um debate sobre os limites entre os Poderes e sobre a competência constitucional do Senado para analisar eventuais pedidos de impeachment de ministros da Corte.
Marinho também tem se colocado como um dos principais críticos de decisões judiciais que, na avaliação da oposição, poderiam interferir no processo eleitoral. Em setembro, por exemplo, criticou uma decisão de Flávio Dino relacionada a publicações envolvendo Flávio Bolsonaro e defendeu que o STF não se transformasse em instrumento de interferência política na eleição.
Janja é chamada de “cabo eleitoral” de Flávio
Na mesma entrevista, Rogério Marinho ironizou a atuação da primeira-dama Janja Lula da Silva na campanha de Lula.
Para o senador, a exposição de Janja e suas declarações acabam produzindo um efeito contrário ao pretendido pelo governo: fortalecem a candidatura de Flávio Bolsonaro.
A expressão utilizada por Marinho foi direta: Janja estaria funcionando como uma espécie de “cabo eleitoral” de Flávio.
A avaliação ocorre em meio ao crescente debate dentro do próprio PT sobre o espaço ocupado pela primeira-dama na campanha presidencial.
Nos últimos dias, críticas à atuação de Janja partiram inclusive de integrantes do próprio campo petista. A coluna do Metrópoles informou que integrantes da ala jovem do PT passaram a questionar sua influência e seu protagonismo na campanha. A assessoria de Janja negou que ela tenha tentado impedir uma reunião de Lula com jovens petistas e afirmou que sua participação na campanha é legítima e respaldada pelo presidente.
O efeito político das declarações
A crítica de Marinho ganha força dentro da estratégia eleitoral de Flávio porque a campanha tenta transformar ataques e confrontos promovidos pelo grupo de Lula em combustível para a mobilização da direita.
O episódio envolvendo Nikolas Ferreira é um exemplo citado nesse ambiente político. A relação entre declarações de integrantes da campanha de Lula e o crescimento da visibilidade de adversários passou a ser explorada pela oposição como demonstração de que o governo estaria contribuindo involuntariamente para fortalecer seus concorrentes.
Nesse cenário, Marinho procura manter a campanha de Flávio concentrada em uma mensagem de firmeza institucional: não haveria negociação para proteger ninguém, mas também não haveria disposição para ignorar os conflitos entre os Poderes.
Mérito a Rogério Marinho
O posicionamento de Rogério Marinho merece destaque pela objetividade com que respondeu às acusações.
O senador poderia simplesmente ignorar a narrativa sobre um suposto acordo com Temer. Preferiu enfrentá-la publicamente, negando a existência de qualquer compromisso e explicando qual seria a posição da campanha.
Também merece mérito a distinção feita entre vingança e responsabilidade institucional. Em vez de defender uma política de retaliação pessoal, Marinho sustenta que eventuais medidas contra autoridades devem ocorrer dentro das competências constitucionais do Senado.
Como coordenador da campanha de Flávio, sua atuação também demonstra que a candidatura pretende responder aos ataques políticos sem aceitar, segundo sua avaliação, que acusações não comprovadas sejam transformadas em fatos.
Enquanto o PT tenta explorar a aproximação de Michel Temer com Flávio para construir uma narrativa de bastidores, Marinho responde colocando o foco em uma questão mais ampla: se houver problemas institucionais envolvendo autoridades, eles deverão ser tratados pelas instituições competentes, e não por acordos de conveniência política.
No segundo turno, portanto, a disputa não se limita às urnas. Também envolve narrativas sobre STF, Senado, limites entre os Poderes, liberdade política e o papel dos principais personagens da campanha.
E, para Rogério Marinho, uma coisa precisa ficar clara: não existe acordo para salvar Moraes — e a campanha de Flávio não pretende ser omissa diante das questões que considera legítimas.