Senado derruba resolução do Conanda sobre aborto em menores sem autorização dos pais

Senado derruba resolução do Conanda sobre aborto em menores sem autorização dos pais

Decisão reacende debate sobre proteção infantil, poder familiar e limites do Estado em casos de aborto legal

O Senado Federal aprovou nesta terça-feira (2) a derrubada da resolução do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda) que autorizava a realização de aborto legal em menores de idade sem o conhecimento ou consentimento dos pais. A medida foi suspensa por meio do Projeto de Decreto Legislativo (PDL) nº 3/2025 e agora segue para promulgação pelo Congresso Nacional.

A decisão provocou forte repercussão política e social, reacendendo um dos debates mais delicados do país: até onde o Estado pode intervir em decisões envolvendo crianças e adolescentes sem a participação da família?

A resolução do Conanda previa que meninas menores de 14 anos vítimas de violência sexual poderiam ter acesso ao aborto legal sem necessidade de boletim de ocorrência e sem autorização dos responsáveis. O texto também determinava que a vontade da menor deveria prevalecer, garantindo sigilo e rapidez no atendimento.

Para parlamentares favoráveis à derrubada da norma, porém, o conselho ultrapassou seus limites legais e avançou sobre atribuições que pertencem à família e ao Congresso Nacional.

A relatora do projeto, senadora Damares Alves, afirmou que a resolução criava um precedente perigoso ao permitir decisões de enorme impacto físico, psicológico e emocional sem a participação dos pais.

Segundo ela, o Conanda transformava o aborto em uma espécie de “direito automático”, ignorando que a legislação brasileira só prevê situações específicas em que a prática deixa de ser punida criminalmente.

“O ordenamento jurídico brasileiro não reconhece o aborto como um direito fundamental irrestrito”, argumentou a parlamentar durante a sessão.

A proposta que derrubou a resolução é de autoria da deputada Chris Tonietto e já havia sido aprovada pela Câmara dos Deputados ainda em 2025.

Nos bastidores do Senado, a votação expôs mais uma vez a profunda divisão ideológica em torno do tema. Parlamentares conservadores defenderam a proteção da autoridade familiar e criticaram o que classificaram como “ativismo institucional” do Conanda. Já entidades ligadas aos direitos humanos e à proteção da infância afirmam que a decisão pode dificultar o atendimento de meninas vítimas de estupro, especialmente em ambientes familiares abusivos.

A presidente do Conanda, Deila Martins, criticou duramente a derrubada da norma e afirmou que a medida pode aumentar a revitimização de crianças e adolescentes vítimas de violência sexual.

Segundo ela, muitas menores não conseguem denunciar os próprios agressores justamente porque o abuso acontece dentro de casa. Sem mecanismos de sigilo e proteção, o medo e a dependência emocional poderiam impedir denúncias e atendimentos médicos.

O episódio também levanta outro debate importante: o crescimento da judicialização e da disputa política em torno de temas morais no Brasil. Nos últimos anos, decisões envolvendo aborto, liberdade religiosa, costumes e direitos da infância passaram a ocupar o centro das disputas entre Congresso, Judiciário e órgãos de proteção social.

Críticos da resolução afirmam que conselhos e órgãos administrativos não podem criar normas com efeitos tão amplos sem passar pelo Legislativo. Já defensores da medida argumentam que o objetivo era apenas garantir proteção rápida a vítimas de violência sexual, sem criar novas hipóteses legais de aborto.

Com a aprovação do PDL, todos os efeitos da Resolução nº 258/2024 ficam oficialmente suspensos.

A discussão, no entanto, está longe de terminar. O tema promete continuar mobilizando setores religiosos, movimentos feministas, entidades de direitos humanos e lideranças políticas nos próximos meses, principalmente diante da aproximação do debate eleitoral de 2026.

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