Simone Tebet invoca Cristo contra adversários de Lula — e a política brasileira reencontra a velha arte da metamorfose

Simone Tebet invoca Cristo contra adversários de Lula — e a política brasileira reencontra a velha arte da metamorfose

No lançamento da campanha petista, candidata ao Senado acusou rivais de falar em Deus e família enquanto “gritam Barrabás”; discurso contrasta com a trajetória de 2022, quando Tebet fazia oposição a Lula, criticava o petista e dizia que democratas não deveriam ficar reféns de sua candidatura

No palanque de lançamento da campanha de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em São Bernardo do Campo, neste domingo (16), Simone Tebet (PSB) entrou em cena com uma imagem bíblica e uma acusação política: os adversários do presidente, segundo ela, falam em Deus, Cristo e família, mas, na prática, “gritam Barrabás”.

A candidata ao Senado por São Paulo não citou nominalmente Flávio Bolsonaro (PL), mas o contexto deixava claro o alvo. Tebet criticou o uso de símbolos religiosos pela direita e afirmou que adversários de Lula dizem defender valores cristãos enquanto, em sua avaliação, agem contra esses princípios.

“Eles falam de Deus e de Cristo, no fundo o que eles gritam é Barrabás!”

Na mesma intervenção, Tebet estabeleceu outra oposição: enquanto seus adversários, segundo ela, falariam em família, seriam os aliados de Lula que defenderiam a “família brasileira” por meio de programas como Bolsa Família e Minha Casa, Minha Vida.

A cena é politicamente reveladora não apenas pelo ataque à direita, mas pelo personagem que Simone Tebet passou a ocupar dentro da campanha de Lula.

E aí começa a parte mais curiosa da história.

Porque a Simone Tebet que hoje sobe ao palanque para pedir a reeleição de Lula não é exatamente a mesma Simone Tebet que fazia campanha presidencial em 2022.

A candidata que, em 2022, dizia que Lula e Bolsonaro eram “dois lados da mesma moeda”

Quatro anos atrás, Tebet disputava a Presidência pelo MDB e se apresentava como uma alternativa de centro em relação a Lula e Jair Bolsonaro.

Em agosto de 2022, durante entrevista ao Flow Podcast, ela afirmou que Lula e Bolsonaro eram “dois lados da mesma moeda”, classificando ambos como populistas e personalistas. Naquele momento, ela também relatou que integrantes do entorno de Lula teriam tentado articular para que ela não se candidatasse.

Não era uma crítica discreta.

Em setembro daquele mesmo ano, Tebet classificou como “desrespeito” a campanha de Lula pelo chamado voto útil no primeiro turno, numa estratégia do petista para tentar atrair eleitores da chamada terceira via.

Também em setembro, a então candidata compartilhou uma declaração segundo a qual a democracia não dependeria da vitória de Lula ou Bolsonaro e criticou o discurso de que seria necessário votar em Lula já no primeiro turno para defender o regime democrático.

Era uma Simone Tebet que se colocava fora dos dois polos.

Uma candidata que queria justamente convencer o eleitor de que havia vida política além de Lula e Bolsonaro.

O segundo turno mudou o tabuleiro

A eleição de 2022 produziu a primeira grande transformação dessa trajetória.

Tebet terminou o primeiro turno em terceiro lugar, com 4,16% dos votos válidos. Depois de ficar fora da disputa, declarou apoio a Lula no segundo turno.

Em outubro daquele ano, apareceu na propaganda eleitoral de Lula e afirmou que o Brasil não aguentava mais Bolsonaro.

Naquele comercial, ela reconheceu que havia diferenças entre os dois, mas justificou a aproximação dizendo que havia algo maior em comum: “a democracia e o futuro do nosso país”.

Dias depois, Tebet declarou “total apoio” à campanha de Lula e a um eventual novo governo do petista.

A política brasileira havia produzido mais uma de suas conhecidas reacomodações.

A candidata que havia dito que Lula e Bolsonaro eram “dois lados da mesma moeda” passou a fazer campanha contra Bolsonaro ao lado de Lula.

Da adversária à ministra

A aproximação não terminou nas urnas.

Com a vitória de Lula, Simone Tebet integrou o governo petista como ministra do Planejamento e Orçamento.

A relação que começara como aliança eleitoral tornou-se participação direta na administração federal.

Agora, em 2026, a transformação foi além.

Tebet é candidata ao Senado por São Paulo dentro da coalizão que sustenta a campanha de Lula e participa abertamente dos atos eleitorais do presidente.

Em julho, durante convenção estadual do PT, ela já havia adotado um discurso frontal contra a direita e pedido votos para Lula, para Fernando Haddad ao governo paulista e para sua própria candidatura ao Senado, ao lado de Marina Silva.

Na ocasião, ela mesma reconheceu que sua campanha precisava conversar com um eleitorado mais amplo, incluindo “a direita democrática”, os conservadores e os indecisos.

A candidata que em 2022 disputava espaço contra Lula agora pede votos para o mesmo Lula.

É a política brasileira fazendo o que costuma fazer melhor: trocar os móveis de lugar sem necessariamente mudar a casa.

“Barrabás” no palanque

Foi nesse contexto que apareceu a metáfora religiosa.

Segundo Tebet, os adversários falam de Cristo, mas escolhem Barrabás.

Na narrativa construída pela candidata, a direita utiliza a linguagem cristã e familiar como instrumento político, mas não praticaria aquilo que ela considera os valores correspondentes.

A crítica também alcançou o patriotismo.

Tebet citou uma manifestação de apoiadores de Jair Bolsonaro em 7 de setembro de 2025, na Avenida Paulista, em São Paulo, na qual foi exibida uma grande bandeira dos Estados Unidos. A candidata utilizou a imagem para acusar adversários de defenderem interesses estrangeiros.

“Enquanto eles falam de pátria, quem defende as cores verde e amarela somos nós!”

Em seguida, acusou integrantes da família Bolsonaro e aliados de serem “traidores da pátria”.

O discurso, portanto, misturou religião, patriotismo, programas sociais e disputa eleitoral.

Não é uma combinação acidental.

Deus, família, pátria e voto

Essas palavras — Deus, família e pátria — estão entre os símbolos mais utilizados pela direita brasileira nos últimos anos.

Tebet agora tenta disputar o significado político dessas mesmas expressões.

Em vez de deixar Deus e família exclusivamente no repertório dos adversários, a campanha de Lula apresenta os programas sociais como a prova prática de defesa da família brasileira.

É uma mudança interessante na estratégia do campo governista.

A direita fala em família a partir da religião e dos costumes.

O lulismo procura responder falando em família a partir da renda, da moradia e da proteção social.

Na prática, os dois lados tentam ocupar o mesmo território simbólico por caminhos completamente diferentes.

A ironia está na própria biografia política

Há, contudo, uma ironia inevitável quando se olha para a trajetória recente da própria Tebet.

Em 2022, ela criticava o lulismo.

Dizia que Lula e Bolsonaro se retroalimentavam.

Defendia uma alternativa de centro.

Criticava a estratégia do voto útil do PT.

Questionava a ideia de que a democracia dependeria de votar em Lula.

Quatro anos depois, tornou-se ministra de Lula e está novamente em um palanque petista defendendo a reeleição do presidente.

Isso não significa, por si só, contradição ilegítima.

Políticos mudam de posição. Coalizões são construídas. Circunstâncias eleitorais mudam. Partidos formam alianças.

Mas a mudança é grande demais para passar despercebida.

A Tebet de 2022 defendia uma terceira via.

A Tebet de 2026 está completamente integrada à estratégia eleitoral de Lula.

A política como teatro de alianças

Há algo quase teatral nessa transformação.

Primeiro, a candidata é apresentada como alternativa aos dois polos.

Depois, a disputa muda de fase.

Um dos polos passa a ser considerado a maior ameaça.

O antigo adversário vira aliado.

O antigo aliado potencial vira adversário prioritário.

E, quatro anos depois, a mesma personagem pode estar no palanque que antes criticava.

Esse movimento não é exclusividade de Simone Tebet, nem de Lula.

É um fenômeno recorrente na política brasileira, em que partidos e lideranças reorganizam alianças conforme eleições, governos e interesses eleitorais se sucedem.

A diferença é que, quando a mudança acontece diante das câmeras e com discursos registrados, a memória política acaba funcionando como uma espécie de arquivo incômodo.

Tebet agora quer disputar o centro

Há outro detalhe importante.

A própria Tebet reconheceu, em julho, que a campanha de Lula não pode falar apenas para a esquerda. Ela defendeu diálogo com eleitores de centro, independentes e integrantes da direita democrática.

Isso ajuda a compreender o discurso de São Bernardo.

Ao atacar a extrema direita, mas distinguir dela uma “direita democrática”, Tebet tenta ocupar uma posição intermediária dentro da coalizão governista.

Ela fala como aliada de Lula, mas também procura se apresentar como uma ponte para eleitores que não se identificam plenamente com o PT.

É uma tarefa eleitoral complexa.

E talvez explique por que o discurso combina fortes ataques aos bolsonaristas com apelos a eleitores de centro.

O contraste com 2022 é inevitável

Em 2022, Tebet dizia que a democracia não dependia de Lula ou Bolsonaro.

Em 2026, ela pede a reeleição de Lula.

Em 2022, criticava a tentativa de Lula de convencer eleitores da terceira via a abandonar suas candidaturas.

Em 2026, ela própria está dentro de uma aliança que busca ampliar a votação do presidente.

Em 2022, dizia que Lula e Bolsonaro eram “dois lados da mesma moeda”.

Em 2026, dedica parte de seus discursos a atacar os adversários de Lula.

Esse contraste é um dado político documentado, não uma interpretação criada agora.

Mas a mudança também pode ser explicada

Seria simplista concluir que toda mudança política é hipocrisia.

Tebet pode argumentar que a eleição de 2022 mudou o cenário político, que o segundo turno criou uma escolha diferente da primeira rodada e que a experiência no governo modificou sua avaliação sobre Lula.

Há também uma distinção importante entre apoiar um adversário num segundo turno para impedir outro candidato e posteriormente integrar seu governo.

A própria Tebet, em 2022, justificou o apoio a Lula com base na democracia e no futuro do país, apesar das diferenças entre os dois.

Portanto, o fato de ela ter mudado de posição é verificável; o julgamento sobre sinceridade ou oportunismo é uma questão política.

O discurso que virou senha de campanha

No estádio 1º de Maio, entretanto, a Tebet de 2026 já não fala como a terceira via de 2022.

Fala como integrante da coalizão de Lula.

Pede votos para Lula.

Pede votos para Haddad.

Defende o governo.

Ataca os adversários.

E utiliza uma das figuras mais fortes do cristianismo — Cristo contra Barrabás — para estabelecer uma fronteira moral entre os dois campos.

A metáfora funciona eleitoralmente porque não descreve apenas uma divergência política.

Ela sugere uma escolha entre valores.

Entre aquilo que seria correto e aquilo que seria errado.

Entre quem protegeria a família e quem supostamente a utilizaria como discurso.

Entre quem defenderia o Brasil e quem seria, na acusação de Tebet, “traidor da pátria”.

A política também tem memória

É aí que reside a parte mais irônica da história.

A candidata que hoje acusa adversários de instrumentalizarem Deus, família e pátria está falando do alto de um palanque construído por uma aliança que ela própria, poucos anos atrás, não integrava e criticava.

O eleitor brasileiro tem memória — e as plataformas digitais têm ainda mais.

Discursos de 2022 continuam disponíveis.

Declarações sobre Lula continuam registradas.

A crítica ao voto útil continua registrada.

A definição de Lula e Bolsonaro como “dois lados da mesma moeda” continua registrada.

Assim como está registrada a posterior adesão de Tebet a Lula, sua participação no governo e sua atual candidatura em uma chapa aliada ao petista.

A política pode mudar de lado.

O arquivo, normalmente, não.

Entre Cristo, Barrabás e as urnas

O mais interessante do discurso de Simone Tebet talvez não esteja somente em saber quem, na visão dela, “grita Barrabás”.

Está em observar como a política brasileira consegue produzir alianças que, poucos anos antes, pareciam improváveis.

Em 2022, Tebet era adversária de Lula.

Em 2026, é uma das vozes de sua campanha.

Ontem, terceira via.

Hoje, aliada.

Antes, crítica do lulismo.

Agora, defensora do petista contra os adversários.

Não há nada de ilegal nesse percurso.

Mas há, certamente, uma boa história política para contar.

E uma pergunta que o eleitor pode fazer sozinho, sem que nenhum palanque precise responder por ele:

quando um político muda de posição, o que mudou — o político, as circunstâncias ou apenas o lugar onde ele está sentado no palanque?

Este texto não está fazendo uma avaliação, comparação ou recomendação entre candidatos ou partidos; os fatos históricos e declarações citados acima são apresentados com base em reportagens e registros públicos para contextualizar a trajetória política de Simone Tebet.

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