
Xuxa reage a críticas sobre o próprio corpo e cita Ney Matogrosso: “Ninguém chama o homem de ridículo”
Aos 63 anos, apresentadora afirmou que enfrenta uma combinação de etarismo e machismo; comentário surgiu durante participação no Domingão com Huck, em meio à turnê “O Último Voo da Nave”
Aos 63 anos, Xuxa Meneghel decidiu responder publicamente às críticas que tem recebido por exibir o corpo durante apresentações de sua turnê “O Último Voo da Nave”. Em participação no programa Domingão com Huck, exibido pela Globo neste domingo (16), a apresentadora fez um desabafo sobre julgamento estético, envelhecimento e a diferença de tratamento entre homens e mulheres no entretenimento.
Para construir seu argumento, Xuxa recorreu a uma comparação com um dos artistas mais emblemáticos da música brasileira: Ney Matogrosso.
A apresentadora fez questão de deixar claro que a referência não era uma crítica ao cantor.
“Não é uma crítica — porque amo o Ney Matogrosso de paixão — mas a gente vê o Ney com as mesmas roupas, com o corpo mostrando, com a dança e ninguém fala nada. Porque a imagem dele é de homem.”
Na avaliação de Xuxa, a diferença está justamente na forma como o público interpreta corpos masculinos e femininos que envelhecem sob os olhos da sociedade.
“A minha imagem é de uma mulher de 63 anos, uma senhora. Não é legal. Eles veem uma mulher e falam: ‘Olha que ridícula!’”
A apresentadora então resumiu o incômodo em uma frase que ganhou destaque nas redes:
“Ninguém chama o homem de ridículo, chamam a mulher.”
O corpo que deixa de ser aceito com a idade
O desabafo de Xuxa não se limitou à estética. Ela associou os ataques ao etarismo, preconceito relacionado à idade, e ao machismo.
Segundo a apresentadora, mulheres que envelhecem em público passam a ser submetidas a um julgamento que vai muito além da aparência.
A mesma roupa que pode ser interpretada como performance artística em um homem, segundo sua avaliação, pode ser recebida como inadequada em uma mulher mais velha.
É um contraste que, para Xuxa, revela uma espécie de regra silenciosa da indústria do entretenimento: homens podem envelhecer preservando o direito de continuar sendo sensuais, performáticos ou provocadores; mulheres, muitas vezes, são cobradas para desaparecer, esconder o corpo ou abandonar determinados símbolos de juventude.
A fala ganhou força justamente porque Xuxa foi, durante décadas, um dos maiores símbolos de beleza e juventude da televisão brasileira.
Agora, já aos 63 anos, ela enfrenta uma contradição que conhece de forma particular: a sociedade que ajudou a construir sua imagem também parece exigir que ela envelheça dentro de determinados limites.
A comparação com Ney Matogrosso
Ao citar Ney Matogrosso, Xuxa escolheu um exemplo especialmente forte.
O cantor construiu uma carreira inteira baseada na ruptura de padrões. Figurinos reveladores, maquiagem, sensualidade, dança e liberdade corporal fazem parte de sua identidade artística há décadas.
A estética de Ney nunca foi discreta.
E justamente por isso a comparação de Xuxa chama atenção.
Ela não está dizendo que os dois artistas fazem exatamente a mesma coisa, mas questionando por que a exposição corporal de um homem pode ser celebrada como parte da arte enquanto a de uma mulher pode provocar comentários depreciativos.
Há, ainda, outra dimensão: Ney Matogrosso envelheceu em público sem abandonar seu personagem artístico.
Xuxa também parece reivindicar esse direito.
O direito de continuar sendo artista sem ter de pedir licença ao calendário.
“Ninguém fala nada”
A frase central do desabafo é simples, mas contém uma crítica cultural ampla.
“A gente vê o Ney com as mesmas roupas, com o corpo mostrando, com a dança e ninguém fala nada.”
Na sequência, Xuxa apontou o que considera ser o motivo:
“Porque a imagem dele é de homem.”
É uma observação sobre o peso do gênero na avaliação social do corpo.
A aparência masculina costuma ser interpretada sob critérios diferentes daqueles aplicados às mulheres. A mulher pode ser considerada “velha demais”, “vulgar”, “ridícula” ou “inadequada” simplesmente por continuar mostrando o corpo ou adotando comportamentos associados à juventude.
No caso de Xuxa, a questão ganha uma camada adicional.
Durante décadas, ela foi uma das figuras mais fotografadas, televisionadas e comentadas do Brasil.
Seu corpo esteve no centro de sua imagem pública desde os anos 1980.
De símbolo sexual a mulher de 63 anos
A carreira de Xuxa foi construída, em grande medida, em torno da televisão infantil, mas sua imagem pública também passou por etapas em que beleza, sensualidade e juventude tinham enorme peso.
A apresentadora cresceu diante do público.
Isso significa que milhões de brasileiros viram suas diferentes fases.
A jovem modelo.
A apresentadora.
A mulher adulta.
A mãe.
A empresária.
A artista veterana.
E agora, uma mulher de 63 anos que se recusa a aceitar que envelhecer signifique abrir mão da própria presença física e artística.
É justamente essa transição que parece estar por trás do desabafo.
Xuxa não está apenas dizendo “aceitem meu corpo”.
Está dizendo: aceitem que mulheres envelhecem sem perder o direito de ocupar o palco.
A turnê “O Último Voo da Nave”
As críticas citadas por Xuxa surgiram no contexto da turnê “O Último Voo da Nave”, espetáculo que revisita elementos de sua trajetória artística e também dialoga com diferentes gerações que cresceram acompanhando sua carreira.
A produção funciona como uma viagem pela memória.
Há música, figurinos, coreografias, referências visuais e elementos associados ao universo que marcou sua trajetória.
E, como acontece com artistas que retornam ao palco depois de décadas de carreira, o corpo também se torna parte inevitável da conversa.
Quando uma artista veterana dança, usa figurinos provocantes ou celebra sua sensualidade, parte do público interpreta aquilo como liberdade.
Outra parte, porém, reage com estranhamento.
É justamente contra esse segundo olhar que Xuxa se posiciona.
A reação de Déa Lúcia
Durante o Domingão, Déa Lúcia, integrante do programa, entrou na conversa e adotou um tom ainda mais direto.
Ela defendeu Xuxa e respondeu aos críticos:
“É inveja, Xuxa! Porque quem falou não é bonita. Depois que abriu a boca, piorou! Aí ficou horrorosa.”
O comentário arrancou repercussão por seu tom provocativo.
Déa também argumentou que mulheres deveriam se defender umas às outras diante desse tipo de ataque.
A fala mostrou outro elemento presente no quadro: a solidariedade feminina como contraponto àquilo que elas entendem como julgamento machista.
Lívia Andrade também entrou no desabafo
A apresentadora e atriz Lívia Andrade também se manifestou no programa.
Sem citar nomes, ela afirmou:
“Ela não pode colocar a virilha pra jogo, você pode!”
A frase reforçou o caráter de indignação coletiva do momento.
A discussão deixou de ser apenas sobre Xuxa.
Passou a tratar de um problema mais amplo: por que determinados corpos são considerados aceitáveis em determinadas idades e inadequados em outras?
Etarismo como pano de fundo
O termo usado por Xuxa — etarismo — não é apenas uma expressão popular.
O preconceito relacionado à idade é estudado como fenômeno social que pode afetar emprego, saúde, relacionamentos, participação social e representação cultural.
Na indústria do entretenimento, o problema é particularmente visível porque artistas são submetidos a constante avaliação estética.
Mulheres tendem a enfrentar uma cobrança ainda mais severa.
A juventude feminina continua sendo tratada, em muitos ambientes, como requisito implícito de valor.
O envelhecimento masculino, por outro lado, frequentemente é romantizado.
Cabelos grisalhos podem virar sinal de charme.
Rugas podem ser consideradas marcas de experiência.
O mesmo processo, quando acontece com mulheres, muitas vezes é tratado como algo que precisa ser escondido.
A cobrança que acompanha as mulheres famosas
A declaração de Xuxa também toca em uma realidade específica da televisão.
As mulheres famosas são observadas durante toda a carreira.
O corpo é comentado.
A roupa é comentada.
O peso é comentado.
O rosto é comentado.
A idade é comentada.
Quando emagrecem, surgem especulações.
Quando engordam, surgem críticas.
Quando fazem procedimentos estéticos, são acusadas de artificialidade.
Quando não fazem, são cobradas pelo envelhecimento.
E quando mostram o corpo, podem ser acusadas de tentar parecer jovens demais.
É uma espécie de armadilha sem saída.
Xuxa parece ter chegado ao ponto de decidir que não vai mais jogar esse jogo.
O direito de envelhecer no palco
Há uma ideia poderosa escondida no discurso.
O direito de envelhecer publicamente.
Artistas não deveriam precisar desaparecer do palco para que o público se sinta confortável com sua idade.
Uma mulher de 63 anos pode dançar.
Pode usar roupa curta.
Pode mostrar as pernas.
Pode expor a barriga.
Pode ser sensual.
Pode fazer isso por prazer, por arte ou simplesmente porque quer.
A existência de rugas não deveria funcionar como autorização para que desconhecidos definam o que ela pode vestir.
Essa parece ser a reivindicação central de Xuxa.
A ironia de ser julgada justamente por continuar
Existe ainda uma ironia particular na trajetória da apresentadora.
Xuxa começou a carreira sob uma cultura de exposição permanente do corpo feminino.
Durante anos, aparência e juventude foram parte central de sua marca.
Agora que envelheceu, ela enfrenta críticas justamente por permanecer visível.
Ou seja: quando jovem, era cobrada para ser bonita.
Agora, é cobrada para parecer menos velha.
Em ambos os casos, o corpo continua sendo tratado como propriedade pública.
É exatamente essa lógica que ela contesta.
Uma comparação que também fala sobre liberdade artística
Ney Matogrosso aparece na declaração como símbolo de outra possibilidade.
A de que um artista pode transformar o próprio corpo em linguagem.
Seu corpo no palco não é apenas físico.
É personagem.
É estética.
É provocação.
É identidade.
Xuxa parece reivindicar o mesmo direito de utilizar o próprio corpo como parte de sua linguagem artística.
A diferença é que, por ser mulher e por ter envelhecido sob observação pública, a reação sobre ela é mais dura.
O desabafo de Xuxa vai além de uma briga na internet
O episódio pode parecer, à primeira vista, apenas mais uma discussão envolvendo celebridade e comentários de redes sociais.
Não é tão simples.
A fala da apresentadora toca em um debate muito maior sobre gênero, envelhecimento, imagem pública e autonomia corporal.
Ela não pediu que todos gostem de seu figurino.
Não disse que ninguém pode fazer críticas.
O que contestou foi a diferença de tratamento.
Seu argumento é: a crítica não deveria ser determinada pelo sexo e pela idade da pessoa.
A mulher que se recusa a desaparecer
Xuxa passou boa parte da vida sendo chamada de “Rainha dos Baixinhos”.
Foi símbolo de uma geração.
Criou personagens, músicas e programas que atravessaram décadas.
Agora, em outra fase da vida, parece reivindicar uma nova identidade.
Não mais apenas a mulher eternamente jovem que a memória televisiva insiste em congelar.
Mas uma mulher de 63 anos.
Com marcas da idade.
Com história.
Com desejos.
Com corpo.
E com o direito de continuar subindo ao palco.
A comparação com Ney Matogrosso foi provocativa justamente porque coloca dois artistas veteranos diante do mesmo espelho: um homem que envelheceu sem perder o direito de ser extravagante e uma mulher que ainda precisa explicar por que continua querendo mostrar o próprio corpo.
No fim, o desabafo de Xuxa pode ser resumido em uma pergunta simples e desconfortável:
por que o envelhecimento deveria diminuir a liberdade artística de uma mulher mais do que a de um homem?
Para Xuxa, a resposta parece estar no próprio ataque que recebeu: não é apenas sobre idade.
É sobre o que a sociedade ainda acredita que uma mulher pode ou não pode fazer depois dos 60.