
Tarcísio diz que houve “falsa comunicação” no caso de suposta perseguição a Haddad e afirma que 70 câmeras foram analisadas
Governador e candidato à reeleição contesta relato de adversário e afirma que imagens e GPS das viaturas não indicam abordagem; Polícia Civil deverá ouvir motorista e Haddad
O governador de São Paulo e candidato à reeleição, Tarcísio de Freitas (Republicanos), elevou neste domingo (16) o tom sobre o episódio envolvendo uma viatura da Polícia Militar que, segundo relato de Fernando Haddad (PT), teria acompanhado e intimidado o motorista de sua equipe na capital paulista.
Em entrevista concedida durante uma agenda de campanha em Osasco, na Grande São Paulo, Tarcísio afirmou que as imagens de 70 câmeras de segurança foram examinadas e, segundo a versão apresentada por ele, não mostram uma perseguição ou abordagem ao veículo utilizado por Haddad. O governador classificou o episódio como uma “falsa comunicação” de crime.
A declaração acrescenta uma nova dimensão política a um caso que já havia provocado reação do candidato petista e mobilizado a estrutura de segurança pública paulista.
Tarcísio, entretanto, afirmou que a investigação ainda está em andamento e que eventual desvio de conduta de policiais será punido.
“Se houvesse algum desvio de conduta, a gente ia punir severamente os responsáveis”, afirmou.
A questão central, portanto, permanece: o que aconteceu naquela noite e qual foi a intenção da movimentação das viaturas?
O relato apresentado por Haddad
O episódio veio a público depois de Haddad afirmar, na quarta-feira (12), que o carro utilizado por sua equipe havia sido acompanhado por uma viatura da PM na noite de terça-feira (11), quando chegava à residência do candidato, na zona sul de São Paulo.
Segundo o relato de Haddad, ele retornava de uma aula magna realizada na Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP), no Largo São Francisco.
Ao chegar à região de sua casa, uma viatura teria se aproximado do veículo e lançado uma luz sobre o automóvel. Haddad desembarcou e entrou em sua residência, inicialmente sem dar maior importância ao episódio.
A situação teria mudado depois.
De acordo com o relato apresentado pelo candidato, o motorista continuou sendo acompanhado pela viatura. O veículo teria sido seguido de perto, emparelhado e acompanhado até um hotel.
Ainda segundo Haddad, quando o motorista entrou no estabelecimento e percebeu que os policiais continuavam nas proximidades, questionou os agentes sobre o motivo da presença policial. O motorista teria considerado a abordagem intimidatória.
Haddad também afirmou que os policiais portavam fuzis, classificando a situação como ostensiva e intimidatória.
Tarcísio contesta a interpretação
A versão apresentada pelo governador é diferente.
Tarcísio afirmou que houve viaturas que passaram pelo caminho percorrido pelo carro, mas que a análise conjunta das imagens de segurança e dos dados de GPS dos veículos policiais não indicou uma perseguição.
Segundo o governador, uma das viaturas passou pela rua onde fica a residência de Haddad e, pouco depois, seguiu para o estacionamento de um batalhão.
Outra viatura teria passado pelo hotel onde o motorista estava. Conforme a explicação de Tarcísio, o veículo policial não teria parado nem realizado abordagem. Na sequência, teria se juntado a outra viatura e continuado o patrulhamento em uma rua diferente.
A distinção é importante para o caso: a presença das viaturas é reconhecida; o que está em disputa é a interpretação daquela movimentação.
Polícia já havia analisado 40 câmeras
Antes da declaração de Tarcísio, a Polícia Militar havia informado, na quinta-feira (13), que analisara imagens de 40 câmeras públicas instaladas ao longo do trajeto indicado pelo motorista.
Naquele momento, segundo a corporação, não havia sido identificado indício de abordagem ou procedimento irregular.
A PM confirmou, contudo, que uma viatura esteve no trajeto descrito e que os policiais estavam armados com fuzis.
O caso continuou sendo investigado pela estrutura de segurança pública paulista.
A nova informação apresentada por Tarcísio amplia o número de equipamentos examinados: de 40 câmeras mencionadas anteriormente pela PM para 70 imagens de câmeras, segundo o governador.
Investigação deverá ouvir Haddad e motorista
Tarcísio também afirmou que o episódio deverá ser investigado pela Polícia Civil.
O motorista e Fernando Haddad deverão ser chamados a prestar depoimento, segundo o governador.
A apuração deverá reunir diferentes elementos: depoimentos, imagens das câmeras de segurança e dados de GPS das viaturas.
A expectativa é que o cruzamento dessas informações permita reconstruir a sequência dos acontecimentos.
Esse ponto é particularmente relevante porque as imagens podem demonstrar a posição e o deslocamento dos veículos policiais, mas a interpretação sobre eventual intenção dos agentes dependerá também dos depoimentos e de outros elementos da investigação.
A política entrou no caso
O episódio ocorre justamente no início da campanha eleitoral para o governo paulista e coloca frente a frente dois dos principais protagonistas da disputa: o governador Tarcísio de Freitas, que busca permanecer no Palácio dos Bandeirantes, e Fernando Haddad, que tenta retornar à disputa estadual pelo PT.
O momento torna o episódio especialmente sensível.
De um lado, Haddad relata uma situação que descreve como intimidadora e envolvendo policiais fortemente armados. De outro, Tarcísio, responsável politicamente pela administração estadual e pela estrutura de segurança pública, afirma que as evidências disponíveis até agora não confirmam a acusação de perseguição.
Há, portanto, duas dimensões distintas.
A primeira é criminal e administrativa: saber exatamente o que ocorreu e se houve alguma irregularidade policial.
A segunda é política: determinar como o episódio será interpretado pelos eleitores em uma eleição marcada pela disputa entre grupos políticos antagônicos.
Tarcísio promete punição se houver irregularidade
Apesar de rejeitar a tese de perseguição, Tarcísio procurou deixar aberta a possibilidade de punição caso a investigação encontre irregularidades.
O governador afirmou que a apuração será conduzida com responsabilidade e que agentes que eventualmente tenham cometido algum desvio de conduta serão punidos severamente.
Ao mesmo tempo, porém, antecipou sua avaliação sobre o material analisado até agora.
Segundo ele, as evidências disponíveis apontariam para a inexistência de abordagem e de perseguição.
A afirmação de que teria ocorrido uma “falsa comunicação” representa uma mudança de tom em relação às primeiras manifestações oficiais, quando a PM confirmou a presença da viatura e informou que investigava o episódio.
O que ainda precisa ser esclarecido
Apesar das declarações públicas, o caso ainda depende da conclusão do inquérito.
Entre os pontos que deverão ser esclarecidos estão:
- por que as viaturas estavam nas proximidades do trajeto percorrido pelo motorista;
- qual era a missão policial de cada equipe;
- se houve comunicação entre as viaturas durante o deslocamento;
- o que mostram integralmente as imagens das câmeras;
- quais eram os dados de GPS dos veículos policiais;
- se houve contato entre policiais e o motorista;
- o que o motorista relatou aos agentes no hotel;
- e se a movimentação das viaturas pode ser caracterizada como perseguição ou apenas como coincidência de trajetos.
O caso também precisará estabelecer se houve ou não abuso de autoridade, desvio de conduta ou qualquer outra irregularidade.
Até que a investigação seja concluída, as versões apresentadas por Haddad e pelo governo paulista permanecem em lados opostos.
Um episódio policial transformado em teste político
O episódio acontece em uma eleição na qual segurança pública é uma das principais bandeiras do debate paulista.
Tarcísio tenta apresentar a estrutura policial do Estado como parte de sua administração e, ao mesmo tempo, precisa responder a qualquer acusação envolvendo agentes públicos sob sua gestão. Haddad, por sua vez, tem interesse político evidente em esclarecer um episódio que sua equipe descreveu como intimidatório.
A investigação terá, assim, uma tarefa que ultrapassa a simples reconstrução de um trajeto.
Precisará separar fato de interpretação, coincidência de perseguição e procedimento policial de eventual abuso.
Enquanto isso, a expressão utilizada por Tarcísio — “falsa comunicação” — já colocou o caso no centro da disputa eleitoral antes mesmo da conclusão do inquérito.
E é justamente por isso que a prudência será fundamental: a conclusão deverá vir das imagens, do GPS, dos depoimentos e das demais provas, e não da narrativa antecipada de qualquer dos lados da disputa.