
Tarcísio troca desfile de 7 de Setembro por agenda religiosa e reforça aproximação com ato de Flávio Bolsonaro
Governador de São Paulo não compareceu à cerimônia oficial no Anhembi, foi representado pelo vice Felicio Ramuth e iniciou o feriado em encontro na Igreja Mundial; à tarde, participação na Paulista aproxima ainda mais sua agenda do campo bolsonarista
O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), decidiu não comparecer ao Desfile Cívico de 7 de Setembro realizado nesta segunda-feira (7), no Sambódromo do Anhembi, na capital paulista. No lugar da cerimônia oficial que marca a Independência do Brasil, o governador cumpriu uma agenda na Igreja Mundial do Poder de Deus, no Brás, onde participou de um encontro com obreiros da instituição. A programação começou por volta das 9h15, segundo a agenda divulgada por sua assessoria.
A ausência no desfile não deixou o governo paulista sem representação. O vice-governador Felicio Ramuth (MDB) compareceu ao Anhembi em nome do Executivo estadual. O prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes, também esteve na cerimônia. O desfile reuniu milhares de participantes entre estudantes, civis e militares em uma das principais celebrações oficiais do calendário nacional.
A escolha de Tarcísio chama atenção especialmente pelo contraste entre os compromissos. Enquanto a cerimônia oficial ocorria no Anhembi, o governador estava em uma agenda de caráter religioso e político na Igreja Mundial. A visita contou com a presença do senador Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência da República, além de outros aliados do campo conservador.
Durante o encontro, Tarcísio fez uma breve participação religiosa, incluindo leitura bíblica e mensagens relacionadas à fé. Flávio Bolsonaro, por sua vez, participou de uma oração. O culto foi conduzido pelo apóstolo Valdemiro Santiago, líder da Igreja Mundial do Poder de Deus.
A presença conjunta de Tarcísio e Flávio em uma igreja no feriado da Independência acrescentou um componente eleitoral à agenda do governador. Tarcísio disputa a reeleição ao Palácio dos Bandeirantes, enquanto Flávio Bolsonaro concorre à Presidência pelo PL. A aproximação entre os dois ocorre em um momento de forte mobilização do eleitorado conservador em São Paulo.
Da cerimônia oficial à agenda política
A movimentação de Tarcísio não terminou na Igreja Mundial. A agenda do governador previa sua participação, às 15 horas, no Ato da Independência marcado para a Avenida Paulista e convocado por Flávio Bolsonaro. A programação coloca o governador no centro da mobilização política organizada pelo campo bolsonarista em São Paulo neste 7 de Setembro.
O movimento também ganha peso porque São Paulo se tornou um dos principais palcos da disputa presidencial de 2026. Enquanto o presidente Luiz Inácio Lula da Silva participou do desfile oficial em Brasília, Flávio Bolsonaro escolheu a Avenida Paulista para reunir seus apoiadores e transformar o feriado nacional em um grande ato político.
Tarcísio, portanto, adotou uma agenda diferente daquela esperada de um chefe do Executivo estadual em uma data de forte simbolismo institucional. Em vez de ocupar o espaço reservado às autoridades no desfile do Anhembi, optou por uma programação que combinou religião, aproximação com lideranças conservadoras e participação em um ato político.
Ausência tem precedentes
A decisão do governador não é inédita entre os chefes do Executivo paulista. Antes de Tarcísio, João Doria deixou de comparecer ao desfile de 7 de Setembro em 2019. Na ocasião, justificou a ausência dizendo que preferia dedicar o período a despachos administrativos.
Em 2022, o então governador Rodrigo Garcia também não participou da cerimônia. Naquele ano, escolheu visitar o Museu do Ipiranga. Assim, a ausência de Tarcísio se soma a outros episódios em que governadores paulistas optaram por agendas alternativas durante a celebração oficial da Independência.
A diferença, porém, está no contexto político de 2026. Tarcísio está em campanha pela reeleição e mantém posição de destaque na articulação do campo conservador paulista. Sua presença na Igreja Mundial ao lado de Flávio Bolsonaro e a participação prevista na Paulista tornam a decisão mais diretamente associada ao ambiente eleitoral.
Religião, política e eleitorado conservador
A passagem pela Igreja Mundial também reforça a importância do eleitorado evangélico na estratégia política de Tarcísio e de seus aliados. A agenda religiosa ocorreu justamente no início de um dia marcado por intensa disputa política e por diferentes manifestações de grupos de direita em São Paulo.
Na Igreja Mundial, Valdemiro Santiago fez elogios a Tarcísio e Flávio. Segundo relatos publicados sobre o encontro, o pastor chegou a classificar o governador como um “milagre de Deus”, enquanto declarou apoio e proximidade com Flávio.
O episódio evidencia como a religião continua ocupando espaço relevante na mobilização eleitoral brasileira. A presença de candidatos e lideranças políticas em cultos e eventos religiosos durante o período eleitoral permite estreitar relações com segmentos específicos do eleitorado e reforçar mensagens associadas à fé, à família, ao patriotismo e aos valores conservadores.
Ao mesmo tempo, a escolha de uma agenda religiosa em detrimento de uma cerimônia oficial pode provocar questionamentos sobre as prioridades institucionais de um governador em uma data nacional. A decisão, contudo, não significa que o governo paulista tenha ficado sem representante: Felicio Ramuth esteve no Anhembi representando oficialmente o Estado.
Tarcísio entre a institucionalidade e o bolsonarismo
A movimentação deste 7 de Setembro também expõe uma equação política delicada para Tarcísio. O governador precisa preservar sua imagem institucional como chefe do Executivo paulista, mas, ao mesmo tempo, busca manter influência dentro do eleitorado bolsonarista, especialmente diante da disputa presidencial de 2026.
A participação prevista no ato da Paulista aproxima Tarcísio diretamente da candidatura de Flávio Bolsonaro. O governador, que no passado chegou a ser apontado como possível candidato presidencial da direita, hoje exerce papel estratégico na composição política do campo conservador em São Paulo.
Nos últimos dias, aliados indicaram que Tarcísio pretendia adotar um discurso mais moderado na Paulista, evitando ataques diretos ao Supremo Tribunal Federal e buscando apresentar uma imagem mais institucional. A estratégia contrasta com declarações mais duras feitas por ele em anos anteriores contra integrantes da Corte.
A agenda desta segunda-feira, portanto, reúne três dimensões: a religiosa, representada pela passagem pela Igreja Mundial; a eleitoral, materializada na proximidade com Flávio Bolsonaro; e a institucional, representada pelo governo estadual no desfile por meio do vice-governador.
No plano simbólico, entretanto, a escolha é significativa. No dia em que o país celebra sua Independência, Tarcísio não esteve no principal evento cívico de São Paulo. Preferiu uma agenda religiosa pela manhã e, posteriormente, um ato político na Avenida Paulista.
O episódio transforma a ausência do governador em um dos fatos políticos mais comentados do 7 de Setembro paulista e reforça a percepção de que a data nacional, em 2026, tornou-se também um importante palco da disputa eleitoral que antecede a sucessão presidencial e as eleições estaduais.