Terremoto deixa 265 mortos na Colômbia enquanto governo de De la Espriella amplia cooperação militar com os EUA contra o narcotráfico

Terremoto deixa 265 mortos na Colômbia enquanto governo de De la Espriella amplia cooperação militar com os EUA contra o narcotráfico

País enfrenta uma corrida contra o tempo para localizar quase 500 desaparecidos após o maior terremoto do século, ao mesmo tempo em que novo governo anuncia aproximação militar com Washington e recebe promessa de US$ 1 bilhão para segurança

A Colômbia vive, nesta quinta-feira (13), uma das mais dramáticas jornadas de sua história recente. Enquanto equipes de emergência correm contra o relógio para encontrar sobreviventes de um terremoto de magnitude 7,4 que devastou cidades do oeste do país, o novo governo colombiano anuncia uma mudança significativa na política de segurança nacional, com a ampliação da cooperação militar com os Estados Unidos no combate ao narcotráfico.

O terremoto, registrado na segunda-feira, já deixou 265 mortos e cerca de 3.500 feridos, segundo os dados apresentados pelas autoridades. Aproximadamente 500 pessoas continuam desaparecidas, enquanto milhares de famílias perderam suas casas.

A tragédia acontece apenas três dias depois da posse do presidente Abelardo de la Espriella, que assumiu o governo colombiano com uma agenda de direita, forte discurso de combate às organizações criminosas e aproximação com o presidente americano Donald Trump.

Ao mesmo tempo em que equipes de resgate trabalham entre prédios destruídos e escombros, o governo colombiano autorizou, segundo anúncio feito pelos Estados Unidos, a realização de operações militares conjuntas com Washington contra grupos ligados ao chamado narcoterrorismo.

A combinação dos dois acontecimentos coloca a Colômbia diante de uma situação excepcional: de um lado, uma emergência humanitária de grandes proporções; de outro, uma mudança na estratégia de segurança que poderá aproximar ainda mais as Forças Armadas colombianas dos Estados Unidos.


A corrida contra o tempo

Às 7h34 no horário local desta quinta-feira, ou 9h34 no horário de Brasília, completaram-se as primeiras 72 horas desde o terremoto.

Esse período é considerado especialmente crítico nas operações de busca e salvamento. A cada hora, as dificuldades aumentam para os socorristas que procuram pessoas que possam ter sobrevivido sob estruturas destruídas.

Em Cali, Pereira e outras cidades do oeste colombiano, equipes trabalham continuamente, utilizando cães farejadores, equipamentos especializados e técnicas de escavação para tentar localizar vítimas.

Entre os familiares que aguardam notícias está Valeria Cardona, de 26 anos, que procura dois primos desaparecidos em Cali.

Ela afirmou que existem suspeitas sobre o local onde eles poderiam estar, mas até o momento não foram encontrados sinais de vida.

A angústia é compartilhada por centenas de famílias que permanecem em áreas próximas aos locais atingidos, acompanhando cada movimentação das equipes de emergência.


Socorristas mexicanos chegam para reforçar buscas

A operação recebeu também o reforço dos chamados Topos Aztecas, grupo mexicano especializado em operações de resgate após grandes desastres.

Os socorristas estavam na vizinha Venezuela, onde trabalhavam depois de um terremoto ocorrido em junho e que, segundo os dados apresentados na reportagem, deixou mais de 6 mil mortos.

O grupo chegou a Cali para participar das buscas.

O presidente dos Topos Aztecas, Héctor Méndez, de 80 anos, afirmou que a experiência adquirida durante 41 dias de trabalho na Venezuela deixou a equipe mais preparada para enfrentar condições extremas.

O grupo passou por fome, noites sem dormir e situações de grande desgaste físico e emocional antes de seguir para a Colômbia.

A chegada dos socorristas mexicanos representa mais uma tentativa de ampliar a capacidade internacional de resposta à tragédia.


Epicentro atingiu uma das regiões mais pobres

O epicentro do terremoto foi localizado em San José del Palmar, no departamento de Chocó, uma das regiões economicamente mais vulneráveis da Colômbia.

A cidade de Quibdó, capital do departamento, registrou 14 mortes.

Mas, segundo a governadora de Chocó, Nubia Córdoba, a etapa de busca e resgate na região já foi encerrada.

A prioridade agora passou a ser o atendimento às vítimas, a distribuição de ajuda e o acolhimento das famílias atingidas.

A governadora afirmou que a família que estava sendo procurada em uma determinada operação de resgate foi localizada e já recebe assistência.


Mais de 11 mil casas destruídas

A dimensão da tragédia vai muito além do número de mortos.

Dados oficiais citados na reportagem indicam que mais de 11 mil moradias foram destruídas, deixando milhares de famílias sem condições de retornar para casa.

Outro levantamento divulgado nesta quinta-feira aponta 9.215 casas destruídas e 140 prédios que desabaram, além de mais de 3.490 pessoas feridas.

Os números ainda podem mudar à medida que as equipes conseguem acessar áreas que permanecem isoladas ou parcialmente destruídas.

O desastre também impõe ao governo um enorme desafio logístico: retirar famílias de áreas de risco, providenciar abrigo, alimentação, atendimento médico e reconstrução da infraestrutura.


Governo decreta emergência econômica

Diante da dimensão da catástrofe, o presidente Abelardo de la Espriella, que havia acabado de assumir o cargo, decretou estado de emergência econômica.

A medida permite ao governo adotar ações extraordinárias, incluindo alterações orçamentárias e criação de tributos dentro das condições previstas pelo regime de emergência.

A decisão chama atenção porque o novo presidente chegou ao poder defendendo justamente uma política de contenção da carga tributária.

Agora, porém, o governo argumenta que enfrenta uma situação excepcional, agravada pela destruição provocada pelo terremoto e por uma crise fiscal que já existia antes da tragédia.

De la Espriella reconheceu que a crise ocorre em um momento particularmente delicado para as contas públicas.

O presidente também anunciou a criação de um fundo destinado a receber ajuda internacional para as vítimas.

A intenção é reunir recursos para assistência emergencial e, posteriormente, para a reconstrução das regiões devastadas.


Ao mesmo tempo, Colômbia aprofunda parceria militar com os EUA

Enquanto o país ainda contabiliza mortos e desaparecidos, outra notícia movimentou a política colombiana.

O secretário de Defesa dos Estados Unidos, Pete Hegseth, anunciou na quarta-feira (12), no Panamá, que a Colômbia autorizou os americanos a participarem de operações militares conjuntas no combate ao narcotráfico.

Segundo Hegseth, o pedido partiu do novo governo colombiano.

A iniciativa está relacionada à decisão de De la Espriella de integrar uma coalizão antidrogas liderada pelo presidente americano Donald Trump.

O governo colombiano também havia sinalizado, desde a posse, uma postura mais dura contra organizações criminosas.

Durante sua cerimônia de posse, realizada em um regimento militar, De la Espriella prometeu combater “sem trégua” o chamado narcoterrorismo e as organizações criminosas.

O novo presidente também descartou negociações de paz com grupos armados, defendendo uma política de enfrentamento direto.


Washington promete US$ 1 bilhão para segurança

A aproximação não ficou restrita ao anúncio das operações conjuntas.

No mesmo dia, o Departamento de Estado americano informou que pretende destinar US$ 1 bilhão à Colômbia na área de segurança.

A promessa representa um novo capítulo na longa relação entre Washington e Bogotá no combate ao narcotráfico.

A Colômbia é apontada como o maior produtor de cocaína do mundo, enquanto os Estados Unidos são considerados o maior mercado consumidor da droga.

O narcotráfico movimenta grupos armados e organizações criminosas que atuam em diferentes regiões colombianas.

Segundo relatório da Fundação Ideias para a Paz, baseado em dados oficiais de 2025, essas organizações reuniriam aproximadamente 25 mil integrantes.


Um novo momento na política colombiana

A mudança ocorre depois da chegada de De la Espriella à Presidência.

O advogado de direita assumiu o governo defendendo uma política de segurança mais rígida e uma aproximação estratégica com Washington.

A aliança com Trump poderá significar maior participação americana nas ações contra grupos criminosos, especialmente aqueles envolvidos com tráfico de drogas.

A questão, porém, ganha contornos ainda mais delicados porque o anúncio ocorre no exato momento em que a Colômbia enfrenta uma emergência humanitária de grandes proporções.

O governo precisará dividir recursos e capacidade administrativa entre duas frentes distintas: a reconstrução das áreas atingidas pelo terremoto e o fortalecimento de sua política de segurança.


Tragédia e mudança política se encontram

O terremoto expôs a vulnerabilidade de regiões pobres da Colômbia e colocou milhares de pessoas em situação de emergência.

A aproximação militar com os Estados Unidos, por sua vez, sinaliza uma transformação na estratégia do novo governo para enfrentar o narcotráfico e os grupos armados.

São duas crises diferentes, mas que chegam simultaneamente ao gabinete de um presidente que assumiu o cargo há apenas poucos dias.

De um lado, famílias continuam esperando notícias de parentes desaparecidos, enquanto socorristas procuram sinais de vida sob toneladas de concreto.

Do outro, Bogotá anuncia uma nova etapa de cooperação com Washington, com operações militares conjuntas e a perspectiva de US$ 1 bilhão em investimentos americanos na segurança colombiana.

Para o governo De la Espriella, o desafio imediato será administrar uma emergência nacional sem deixar que a reconstrução das áreas destruídas seja sufocada pelas prioridades de segurança.

Para milhares de colombianos, entretanto, a prioridade é mais simples e urgente: encontrar os desaparecidos, salvar quem ainda possa estar vivo e dar abrigo às famílias que perderam tudo.

A janela das primeiras 72 horas chegou ao fim. Mas, em meio aos escombros, as equipes de resgate continuam procurando. E, para os familiares, enquanto houver uma possibilidade, por menor que seja, a operação ainda não terminou.

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