
Valdemar Costa Neto afirma que Bolsonaro estará livre no dia seguinte à eleição de Flávio Bolsonaro
Presidente do Partido Liberal transforma ato na Avenida Paulista em demonstração de apoio ao candidato presidencial e condiciona liberdade de Jair Bolsonaro à vitória do filho; declaração provoca forte repercussão na campanha de 2026
O presidente nacional do Partido Liberal (PL), Valdemar Costa Neto, transformou o ato político realizado na Avenida Paulista, em São Paulo, no feriado de 7 de Setembro, em uma demonstração explícita de apoio à candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) à Presidência da República. Durante seu discurso, Valdemar afirmou que uma eventual vitória de Flávio nas eleições de 2026 teria como consequência, segundo sua avaliação política, a libertação do ex-presidente Jair Bolsonaro.
A declaração foi direta e provocativa. Valdemar afirmou que, caso Flávio seja eleito, Jair Bolsonaro “estará com a gente no dia seguinte”. O dirigente partidário também declarou que, sem a eleição de Flávio, Bolsonaro poderia permanecer preso por mais dez anos.
A fala rapidamente se tornou um dos principais momentos políticos do ato, porque colocou a situação judicial de Jair Bolsonaro no centro da campanha presidencial do filho. Em vez de apresentar a disputa apenas como uma eleição entre projetos de governo, Valdemar apresentou a candidatura de Flávio como uma espécie de instrumento político para garantir o retorno do ex-presidente à liberdade.
É importante destacar, entretanto, que a afirmação de Valdemar representa uma declaração política, e não uma decisão judicial. A eventual liberdade de Jair Bolsonaro depende dos processos, das decisões das autoridades competentes e dos instrumentos jurídicos disponíveis. Portanto, uma eventual eleição de Flávio Bolsonaro não produziria automaticamente, por si só, uma ordem judicial de libertação.
Valdemar transforma Bolsonaro em peça central da candidatura
A estratégia adotada por Valdemar revela a importância que Jair Bolsonaro continua exercendo dentro do PL e na campanha presidencial de 2026. Mesmo sem participar fisicamente do ato na Avenida Paulista, o ex-presidente permaneceu no centro dos discursos, das palavras de ordem e dos símbolos apresentados aos manifestantes.
Flávio Bolsonaro, por sua vez, vem tentando consolidar sua candidatura como uma continuidade política do pai. Durante o mesmo evento, o senador atacou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes, além de prometer mudanças na composição da Suprema Corte caso seja eleito.
A presença de Valdemar ao lado de Flávio teve, nesse contexto, um significado estratégico. Como presidente nacional do PL, o dirigente partidário representa a estrutura formal da legenda e tem papel importante na organização da campanha. Sua declaração funcionou como uma demonstração pública de que a principal legenda do bolsonarismo pretende apostar na transferência do capital político de Jair Bolsonaro para seu filho.
Valdemar também puxou manifestações de apoio ao retorno do ex-presidente durante o ato, reforçando a ligação entre a candidatura de Flávio e a situação política de Jair Bolsonaro.
A estratégia de Flávio Bolsonaro
Para Flávio Bolsonaro, a associação com o pai representa simultaneamente uma força eleitoral e um desafio. Jair Bolsonaro continua sendo uma referência importante para o eleitorado bolsonarista, e a campanha do senador procura apresentar sua candidatura como uma continuidade desse movimento.
No discurso realizado na Paulista, Flávio adotou uma postura de confronto com Lula e Alexandre de Moraes. O senador chegou a afirmar que o eleitor que votar em Lula estaria, na sua interpretação política, votando também em Moraes. Ele ainda prometeu indicar cinco novos ministros para o STF caso seja eleito presidente.
A estratégia deixa evidente que a campanha pretende transformar a relação entre Executivo, Judiciário e oposição em um dos principais temas da eleição. A crise envolvendo o STF, especialmente as controvérsias em torno de Alexandre de Moraes e das investigações relacionadas ao banqueiro Daniel Vorcaro, também passou a ocupar espaço importante nos discursos da direita.
O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, que participou do ato, adotou uma abordagem mais institucional e defendeu que as denúncias e revelações envolvendo autoridades sejam investigadas. Outros participantes, como o deputado Nikolas Ferreira e o pastor Silas Malafaia, fizeram críticas mais contundentes ao Supremo e a Moraes.
O simbolismo da frase “no dia seguinte”
A expressão utilizada por Valdemar — de que Bolsonaro estaria “com a gente no dia seguinte” à vitória de Flávio — possui forte conteúdo político. Ela cria uma narrativa simples para a campanha: votar em Flávio significaria, para o eleitor bolsonarista, votar também pelo retorno político do pai.
A estratégia é especialmente relevante porque Jair Bolsonaro continua sendo o principal símbolo do grupo político que domina o PL. Com o ex-presidente impedido de disputar a eleição, Flávio aparece como um dos principais nomes da família Bolsonaro na sucessão política.
O discurso de Valdemar procura, portanto, transformar uma questão judicial complexa em uma mensagem eleitoral de fácil compreensão para a militância: a vitória de Flávio seria apresentada como o caminho para a volta de Jair Bolsonaro.
Essa associação deverá permanecer entre os principais elementos da campanha nos próximos meses.
Uma eleição com Bolsonaro no centro, mesmo fora da urna
O episódio demonstra também uma característica peculiar da eleição presidencial de 2026: Jair Bolsonaro pode não estar concorrendo diretamente, mas continua sendo um dos personagens centrais da disputa.
A campanha de Flávio busca aproveitar a identidade construída pelo pai durante anos junto ao eleitorado conservador. Ao mesmo tempo, adversários deverão explorar justamente essa ligação para questionar se o senador representa uma candidatura própria ou uma continuidade direta do projeto político de Jair Bolsonaro.
O discurso de Valdemar reforça a segunda interpretação.
Ao afirmar que a eventual eleição de Flávio resultaria na libertação do pai, o presidente do PL praticamente fundiu as duas campanhas em uma única narrativa política: a candidatura presidencial do filho e a situação judicial do ex-presidente.
A força e o risco da estratégia
Politicamente, a estratégia pode fortalecer a mobilização da base mais fiel ao bolsonarismo. O eleitor que considera Jair Bolsonaro vítima de perseguição institucional tende a interpretar a eleição de Flávio como uma oportunidade de manter vivo o projeto político do ex-presidente.
Por outro lado, a associação tão direta entre uma eleição presidencial e a situação judicial de Jair Bolsonaro também pode ampliar a polarização da disputa. O eleitorado que rejeita Bolsonaro poderá interpretar a candidatura de Flávio como uma tentativa de transformar o Palácio do Planalto em instrumento para resolver uma questão pessoal e judicial.
É justamente nesse ponto que a declaração de Valdemar ganha dimensão maior do que uma simples fala de palanque.
Ela apresenta a eleição de 2026 como uma disputa que envolve não apenas economia, segurança pública, saúde, educação ou políticas sociais, mas também o futuro político e jurídico do ex-presidente.
O recado do presidente do PL
A fala de Valdemar Costa Neto, portanto, pode ser interpretada como um recado à própria militância do Partido Liberal: Flávio Bolsonaro deve ser tratado como o candidato capaz de preservar o legado político de Jair Bolsonaro e, na visão do dirigente, criar as condições para o retorno do ex-presidente à liberdade.
Já para Flávio Bolsonaro, receber esse respaldo público do presidente nacional do PL representa uma demonstração de unidade da principal legenda do bolsonarismo em torno de sua candidatura.
O cenário eleitoral, contudo, ainda será definido pelas urnas e pelas regras institucionais. A eleição de Flávio não significa automaticamente a revogação de decisões judiciais contra Jair Bolsonaro. Qualquer alteração na situação do ex-presidente dependerá dos procedimentos e das decisões das autoridades responsáveis pelos processos.
Ainda assim, politicamente, a mensagem transmitida na Avenida Paulista foi inequívoca: para Valdemar Costa Neto, a campanha de Flávio Bolsonaro não deve ser apresentada apenas como uma disputa pelo Palácio do Planalto, mas também como uma batalha pelo futuro político de Jair Bolsonaro.
No palanque, a frase ganhou força de palavra de ordem. Nas eleições, caberá ao eleitor decidir se essa narrativa será suficiente para transformar a mobilização bolsonarista em votos.