
🚨 Quando o crime dita as regras: facção impõe “paz” entre torcidas no Ceará
MP investiga ordem do Comando Vermelho para proibir brigas apĂłs onda de violĂŞncia no Clássico-Rei; cenário expõe o nĂvel alarmante de influĂŞncia criminosa no Estado
O que deveria ser apenas futebol terminou em cenas de guerra urbana. E, como se nĂŁo bastasse a violĂŞncia explĂcita nas ruas de Fortaleza, agora surge algo ainda mais preocupante: uma facção criminosa determinando quem pode ou nĂŁo brigar no Ceará.
O MinistĂ©rio PĂşblico do Estado confirmou que investiga mensagens atribuĂdas ao Comando Vermelho (CV) que ordenam o fim das brigas entre torcidas organizadas de Ceará e Fortaleza. Os chamados “salves” circularam nas redes sociais logo apĂłs o primeiro Clássico-Rei de 2026, marcado por confrontos generalizados e mais de 350 pessoas detidas.
Segundo apuração, os setores de InteligĂŞncia dos ĂłrgĂŁos de segurança confirmaram a autenticidade das mensagens e seguem monitorando a situação. Em um dos recados, a facção afirma que “briga de torcida está totalmente brecada dentro do Estado”, deixando claro que a ordem partiu do crime organizado — e nĂŁo das autoridades constituĂdas.
É difĂcil nĂŁo se indignar. Em vez de o Estado impor ordem, Ă© uma organização criminosa que aparece ditando regras, justificando a decisĂŁo com o argumento de que as brigas chamam atenção da polĂcia e “trazem o sistema para dentro da quebrada”. Ou seja: nĂŁo Ă© uma questĂŁo de paz, mas de conveniĂŞncia para o prĂłprio crime.
Violência nas ruas e humilhação pública
No domingo (8), bairros como Edson Queiroz, Passaré, Vila Velha e Barra do Ceará registraram confrontos violentos antes da partida. Imagens mostram torcedores trocando socos e chutes em plena via pública, usando paus, pedras, rojões, socos-ingleses e até artefatos explosivos artesanais.
Em uma das ocorrências, 184 pessoas foram capturadas apenas no bairro Edson Queiroz. No total, cerca de 350 suspeitos foram detidos, incluindo mais de 100 adolescentes. A Justiça manteve a prisão preventiva de 159 envolvidos após audiência de custódia.
A PolĂcia Militar apreendeu uma verdadeira coleção de instrumentos de agressĂŁo: balaclavas, drogas, explosivos caseiros, celulares e armas improvisadas. Um retrato claro de que nĂŁo se trata mais de “rivalidade esportiva”, mas de violĂŞncia organizada.
Como se nĂŁo bastasse, outro vĂdeo mostrou torcedoras sendo coagidas a retirar camisas do time adversário em via pĂşblica, numa cena humilhante e revoltante. Mulheres foram expostas e tiveram pertences levados sob ameaça. Um episĂłdio que ultrapassa qualquer limite aceitável.
RenĂşncias e silĂŞncio
ApĂłs a circulação dos “salves”, presidentes de torcidas organizadas anunciaram renĂşncia em vĂdeos divulgados nas redes. Lideranças locais tambĂ©m deixaram seus cargos. NĂŁo há confirmação oficial de que as saĂdas tenham sido motivadas diretamente pela ordem da facção, mas a coincidĂŞncia chama atenção.
O Ministério Público, por meio do Gaeco e do Núcleo do Desporto e Defesa do Torcedor, informou que investiga o caso e que mais detalhes não serão divulgados para não comprometer as apurações.
A pergunta que nĂŁo quer calar
O que mais assusta não é apenas a violência — já grave por si só — mas o fato de que uma facção criminosa se sente confortável o suficiente para intervir publicamente em conflitos sociais e esportivos.
Quando o crime organizado passa a arbitrar comportamentos coletivos, algo está profundamente errado. A ordem não pode vir de quem vive da ilegalidade. Segurança pública não pode depender da conveniência de facção.
O Ceará, como tantos outros estados, enfrenta um desafio que vai muito além das arquibancadas. Não se trata apenas de conter torcidas violentas, mas de retomar a autoridade do Estado sobre territórios e decisões que jamais deveriam estar sob influência criminosa.
Futebol é paixão. O que se viu foi barbárie. E o que se lê nas mensagens é um alerta ainda maior: o crime não pode ser o mediador da paz.