
ALCOLUMBRE SE FAZ DE VÍTIMA APÓS COBRANÇAS DE NIKOLAS NO AMAPÁ E TENTA TRANSFORMAR PRESSÃO POPULAR EM ATAQUE POLÍTICO
Presidente do Senado critica manifestações da oposição, reclama de ofensas e ironiza questionamentos às urnas eletrônicas após a derrota de Flávio Bolsonaro. Discurso expõe o desconforto de Alcolumbre diante das cobranças sobre sua atuação, especialmente pela resistência em dar andamento aos pedidos de impeachment de ministros do STF.
O presidente do Senado Federal, Davi Alcolumbre (União-AP), voltou a protagonizar um embate com a oposição ao criticar, na quarta-feira (4), políticos que, segundo ele, conquistam votos por meio de ofensas, agressões e ataques a adversários. A manifestação ocorreu durante discurso no plenário, depois de críticas do líder do PL no Senado, Carlos Portinho, à condução dos trabalhos da Casa e à decisão de adiar a votação da proposta de redução da maioridade penal.
Embora não tenha mencionado diretamente o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG), Alcolumbre fez referência à manifestação realizada pelo parlamentar em Macapá, no Amapá, em setembro. Na ocasião, Nikolas reuniu apoiadores e cobrou publicamente que o presidente do Senado desse andamento aos pedidos de impeachment contra o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF).
Alcolumbre demonstrou irritação com a mobilização e reclamou de lideranças políticas que deixam seus estados para realizar manifestações em seu reduto eleitoral. Durante o discurso, afirmou que a situação política estaria insustentável e criticou o que classificou como ataques, ameaças e mentiras utilizados para conquistar mandatos.
O senador declarou que políticos deveriam apresentar propostas para educação, saúde, infraestrutura e desenvolvimento econômico, em vez de concentrar suas campanhas em ataques pessoais. Também criticou o uso das redes sociais para disseminar ofensas e informações falsas.
Entretanto, o discurso levanta uma questão que Alcolumbre parece não querer enfrentar: quando um parlamentar viaja a outro estado para cobrar providências de uma autoridade pública, isso não significa automaticamente uma agressão. Em uma democracia, manifestações e cobranças fazem parte do exercício legítimo da atividade política. O presidente do Senado, por ocupar uma das posições mais importantes da República, precisa compreender que sua atuação está sujeita à fiscalização e à crítica da sociedade.
A manifestação de Nikolas em Macapá teve justamente como um dos principais objetivos cobrar uma posição de Alcolumbre sobre os pedidos de impeachment de ministros do STF. A oposição considera que o presidente da Casa não pode manter indefinidamente esses requerimentos sem uma resposta política clara.
Outro ponto que provocou reação foi a ironia de Alcolumbre sobre as urnas eletrônicas. O senador questionou integrantes do PL que passaram a contestar o resultado eleitoral depois da derrota de Flávio Bolsonaro, lembrando que o mesmo sistema foi utilizado no primeiro turno, quando candidatos do partido conquistaram mandatos no Congresso Nacional.
A crítica, porém, não encerra o debate sobre a postura do presidente do Senado diante das cobranças da oposição. O questionamento central continua sendo sua condução política da Casa, especialmente em relação aos pedidos de impeachment contra integrantes do Supremo e às decisões sobre matérias de interesse nacional.
Alcolumbre também foi criticado pela decisão de adiar a votação de um requerimento relacionado à tramitação da proposta de redução da maioridade penal, tema que enfrenta divergências entre parlamentares.
O episódio demonstra que o presidente do Senado está cada vez mais no centro de uma disputa política que ultrapassa o plenário. De um lado, a oposição cobra mudanças na condução da Casa e maior disposição para enfrentar temas relacionados ao STF. Do outro, Alcolumbre reclama dos ataques e tenta estabelecer limites para as manifestações dirigidas contra sua atuação.
Mas há uma diferença fundamental entre violência, ameaça e cobrança política. Quem ocupa um cargo público de tamanha relevância não pode esperar apenas elogios, aplausos e manifestações de apoio. A cobrança faz parte da democracia, e o direito de protestar não desaparece porque o alvo da manifestação é o presidente do Senado.
A resposta de Nikolas Ferreira, publicada na quinta-feira (5), reforçou esse entendimento. O deputado afirmou que não precisa pedir licença a um senador para entrar no Amapá e cobrar explicações sobre seu trabalho. Também classificou o ato realizado em Macapá como pacífico e afirmou que a população do estado tem motivos para exigir mudanças.
O confronto deixa uma pergunta incômoda para Alcolumbre: por que demonstrar tanta indignação com uma manifestação política, enquanto continuam sem uma resposta satisfatória as cobranças sobre sua atuação à frente do Senado?
A presidência da Casa não é propriedade particular de quem ocupa o cargo. É uma função pública, com responsabilidades institucionais e políticas. E quem não aceita ser cobrado talvez tenha dificuldade em compreender o verdadeiro significado da representação democrática.