
Após repercussão negativa da crise das queimadas e críticas à resposta federal, Lula liga para governador do Amazonas e anuncia reforços; Roberto Cidade agradece envio de aeronaves e brigadistas
Governador confirmou que recebeu telefonema de Lula e agradeceu o envio de seis aeronaves e 290 profissionais para combater os incêndios florestais. Anúncio ocorreu após a divulgação de documento que registrou a negativa a um pedido anterior de aeronaves e em meio à troca de versões entre o Corpo de Bombeiros, o Ibama e o governo federal.
O governador do Amazonas, Roberto Cidade (União Brasil), agradeceu neste sábado, 10 de outubro de 2026, ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e ao vice-presidente Geraldo Alckmin pelo envio de reforços para combater as queimadas que atingem o estado. A manifestação foi divulgada nas redes sociais após uma ligação telefônica de Lula, que colocou a estrutura do governo federal à disposição do Amazonas.
O anúncio ocorreu em meio à repercussão negativa da crise ambiental e às críticas dirigidas à resposta das autoridades federais depois que o comandante-geral do Corpo de Bombeiros Militar do Amazonas (CBMAM), coronel Orleilso Ximenes Muniz, tornou pública a negativa a um pedido anterior de aeronaves para enfrentar os incêndios.
A controvérsia ganhou força depois que o documento oficial do Ministério da Justiça e Segurança Pública confirmou que não seria possível atender, naquele momento, à solicitação específica de equipamentos apresentada pelos Bombeiros. A divulgação do ofício contrariou interpretações de que não teria havido pedido formal de apoio aéreo e ampliou a cobrança por explicações sobre a disponibilidade de recursos para enfrentar a emergência.
Após a repercussão, o governo federal anunciou o envio de seis aeronaves e aproximadamente 290 profissionais. Roberto Cidade confirmou o contato com Lula e agradeceu a mobilização.
“Olá pessoal, hoje eu recebi a ligação do presidente Lula se colocando à disposição de ajudar o Amazonas, ele vai enviar para cá 290 brigadistas e também mais seis aeronaves”, declarou o governador, segundo reportagem de A Crítica.
Cidade também agradeceu publicamente ao presidente e ao vice-presidente. “Agradeço ao presidente Lula e ao vice-presidente Geraldo Alckmin por atenderem ao nosso pedido. Quando o assunto é proteger vidas, não existem diferenças políticas. Existe o dever de agir. E agir rápido!”, escreveu.
Documento registrou negativa a pedido anterior
A discussão começou depois que o coronel Orleilso Muniz afirmou, em entrevista à Rede Amazônica, que o Corpo de Bombeiros havia solicitado apoio aéreo ao governo federal, mas recebeu uma resposta negativa.
O pedido foi encaminhado em 18 de setembro e incluía quatro aeronaves destinadas ao combate aos incêndios, um avião para transporte de militares e equipamentos, além de veículos operacionais. A intenção era reforçar a capacidade de atendimento em áreas remotas, onde as grandes distâncias e a falta de acesso terrestre dificultam o deslocamento das equipes.
Em resposta formalizada em 1º de outubro, a Secretaria Nacional de Segurança Pública informou que não poderia atender à solicitação específica naquele momento porque não havia equipamentos daquela natureza disponíveis para doação.
A negativa documentada tornou-se um dos principais pontos da controvérsia. Para o comando dos Bombeiros, a necessidade de aeronaves era urgente diante do avanço das queimadas e das dificuldades para chegar aos locais afetados.
A existência desse documento, entretanto, não significa que toda forma de assistência federal tenha sido recusada. O governo federal sustenta que outras ações estavam em andamento por meio do Ibama, do Ministério do Meio Ambiente e de estruturas de coordenação de emergência.
Governo federal anuncia quatro aviões e dois helicópteros
Segundo o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, o reforço anunciado por Lula inclui quatro aviões do modelo Air Tractor, utilizados para lançar água sobre os focos de incêndio, e dois helicópteros, que podem auxiliar no transporte de profissionais e equipamentos.
A mobilização prevê ainda cerca de 290 brigadistas para reforçar as equipes que trabalham no combate ao fogo. A previsão divulgada pelas autoridades era de que as aeronaves e os profissionais chegassem ao Amazonas no sábado.
O reforço foi apresentado como uma medida para ampliar a capacidade de resposta diante da emergência ambiental. A chegada dos equipamentos, porém, não encerra automaticamente a discussão sobre a demora e as divergências que marcaram as solicitações anteriores.
Para avaliar a resposta federal, é necessário distinguir o pedido de aeronaves feito ao Ministério da Justiça das demais iniciativas mobilizadas por órgãos ambientais. Também é importante verificar quando cada equipamento foi disponibilizado, em quais regiões foi empregado e quais resultados produziu.
Roberto Cidade afirma que Amazonas já atuava desde maio
Durante sua manifestação, o governador afirmou que o estado já vinha desenvolvendo ações de prevenção e combate aos incêndios desde maio, por meio do programa Amazonas Mais Verde.
Segundo Cidade, o governo estadual decretou situação de emergência e mobilizou o Corpo de Bombeiros e outras equipes para enfrentar os focos de incêndio em Manaus e no interior.
“Vale ressaltar que desde o primeiro momento que eu assumi o governo eu já decretei emergência aqui no nosso estado, desde o mês de maio nós iniciamos o programa Amazonas Mais Verde e agora nesse momento o nosso corpo de bombeiro, toda a nossa equipe está trabalhando dia e noite para que a gente possa enfrentar os focos de incêndio na cidade de Manaus e também do interior”, afirmou.
O governador também pediu que os moradores contribuam para evitar novos incêndios, destacando que um pequeno foco pode provocar consequências graves em períodos de seca e vegetação ressecada.
“Precisamos também do empenho dos amazonenses e também de quem escolheu morar e viver aqui no nosso estado, porque apenas um pequeno foco de incêndio pode causar um transtorno muito grande para a nossa população”, declarou.
Cidade afirmou ainda que o estado contratou uma aeronave, adquiriu equipamentos e mantém mais de mil bombeiros em atuação. A administração estadual também defendeu a participação dos municípios na resposta à emergência.
Ministério do Meio Ambiente apresenta outra versão
A crise também provocou divergências entre o comando dos Bombeiros e representantes do Ibama. Enquanto Muniz divulgou a negativa ao pedido específico de aeronaves, integrantes do órgão ambiental destacaram recursos federais destinados ao Amazonas e a existência de outras frentes de apoio.
Em manifestação pública, o Ministério do Meio Ambiente afirmou que o governo estadual havia dispensado equipes federais em setembro, depois que chuvas contribuíram para reduzir parte dos focos de incêndio.
Segundo a versão federal, em 23 de setembro o Centro Integrado Multiagência de Coordenação Operacional Federal (Ciman Federal) recebeu uma solicitação de apoio do governo amazonense. A partir disso, foram acionados profissionais especializados do Projeto de Resposta em Ações Integradas para Atuação em Situações de Desastres (Respad) e uma aeronave vinculada ao Projeto de Gerenciamento de Aeronaves para Situações de Urgência e Socorro (Pegasus).
O ministério afirmou que, em 30 de setembro, o governo estadual informou que já não precisava da equipe terrestre após a melhora temporária das condições em alguns locais.
Além disso, reportagem de A Crítica informou que documentos do Ibama registraram uma dispensa anterior de equipes federais em 25 de setembro. O Corpo de Bombeiros, por sua vez, sustentou que a necessidade prioritária era o reforço aéreo para alcançar áreas de difícil acesso.
Essas informações mostram que houve mais de uma solicitação e diferentes modalidades de apoio. A dispensa de equipes terrestres não equivale necessariamente à recusa de aeronaves, assim como a negativa ao pedido de equipamentos não demonstra, isoladamente, que toda a assistência federal tenha sido bloqueada.
R$ 45 milhões destinados a ações no Amazonas
O superintendente do Ibama no Amazonas, Joel Araújo, afirmou que o governo federal destinou R$ 45 milhões, por meio do Fundo Amazônia, para iniciativas de prevenção e combate a incêndios e desmatamento no estado.
O Ministério do Meio Ambiente também citou o projeto ProAmazon, destinado a fortalecer a estrutura do Corpo de Bombeiros e apoiar ações de prevenção e combate ao fogo.
O valor anunciado é relevante para a discussão sobre os recursos destinados ao Amazonas, mas precisa ser analisado em conjunto com a execução financeira, os equipamentos adquiridos e a disponibilidade operacional de cada estrutura.
A existência de investimentos de longo prazo não responde automaticamente à questão sobre por que as aeronaves solicitadas em setembro não estavam disponíveis para doação naquele momento. Da mesma forma, a negativa a um pedido específico não permite ignorar outras medidas de apoio federal.
Fumaça afeta Manaus e municípios do interior
A disputa entre autoridades ocorre em meio a uma crise que afeta diretamente a população amazonense. A fumaça das queimadas comprometeu a qualidade do ar em Manaus, provocando alertas ambientais e medidas de proteção à saúde.
Dados citados nas reportagens sobre a crise apontaram 3.726 focos de calor no Amazonas em setembro de 2026, quase quatro vezes o número registrado no mesmo mês do ano anterior.
A estiagem, a vegetação ressecada e a extensão territorial do estado dificultam o combate aos incêndios. Em diversas regiões, o deslocamento por terra é limitado, o que aumenta a importância de aeronaves para transportar equipes e equipamentos e para apoiar o lançamento de água sobre as chamas.
A fumaça também levou à suspensão de atividades presenciais em instituições de ensino e provocou preocupação entre moradores, especialmente crianças, idosos e pessoas com problemas respiratórios.
O cenário exige uma resposta coordenada e contínua, pois o envio de aeronaves, embora importante, precisa ser acompanhado de brigadistas em campo, logística adequada, monitoramento e ações para impedir que novos focos se espalhem.
Após a repercussão, anúncio de reforço não elimina os questionamentos
A ligação de Lula para Roberto Cidade e o anúncio de aeronaves e brigadistas representam uma nova etapa da resposta à crise. O governador agradeceu a ajuda, enquanto o governo federal reafirmou que pretende atuar em conjunto com as autoridades estaduais.
Entretanto, a mobilização posterior não apaga o registro documental de que o pedido específico de equipamentos encaminhado ao Ministério da Justiça recebeu uma resposta negativa. O episódio exige esclarecimentos sobre a disponibilidade dos recursos, a coordenação entre os órgãos e a sequência das decisões tomadas durante setembro e outubro.
Também é necessário evitar conclusões que os documentos não sustentam. A repercussão negativa da crise e a proximidade entre as cobranças públicas e o anúncio federal podem levantar questionamentos políticos, mas não comprovam, por si sós, que a ajuda tenha sido motivada por interesses eleitorais ou que toda a assistência tenha sido deliberadamente negada.
O que deve ser cobrado das autoridades é uma explicação clara sobre quando o apoio foi solicitado, quais equipamentos estavam disponíveis, por que o pedido anterior não pôde ser atendido e em que momento as aeronaves anunciadas começaram efetivamente a operar.
A população do Amazonas precisa de resultados concretos, transparência e coordenação. Mais importante do que a disputa entre governos é saber se o reforço chegou a tempo de proteger as comunidades, reduzir os incêndios e melhorar a qualidade do ar.
Em uma emergência ambiental dessa dimensão, o compromisso das autoridades deve ser medido pela resposta efetiva no terreno, pela proteção da saúde pública e pela prestação de contas à população.