Carlos Bolsonaro critica militarização do governo Bolsonaro e provoca reação de generais: “Foi um dos maiores erros”

Carlos Bolsonaro critica militarização do governo Bolsonaro e provoca reação de generais: “Foi um dos maiores erros”

Vereador e pré-candidato ao Senado por Santa Catarina afirma que o pai cercou o governo de militares por falta de estrutura política. Integrantes das Forças Armadas reagem com ironia, atribuem a decisão ao próprio Jair Bolsonaro e dizem que a instituição ainda enfrenta os efeitos do desgaste de imagem.

Uma declaração do vereador Carlos Bolsonaro (PL-SC), pré-candidato ao Senado por Santa Catarina, provocou forte repercussão entre integrantes das Forças Armadas ao colocar em xeque uma das principais marcas do governo do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL): a ampla presença de militares em cargos civis da administração federal.

Durante agenda política realizada em Timbó (SC), em 26 de junho, Carlos afirmou que um dos maiores erros cometidos pelo pai durante a Presidência da República foi cercar-se de militares na estrutura do governo. O vídeo voltou a circular nas redes sociais nos últimos dias, ampliando o debate sobre a participação das Forças Armadas na gestão entre 2019 e 2022.

Carlos Bolsonaro: “Foi um dos maiores erros”

Ao comentar a formação do governo do pai, Carlos Bolsonaro atribuiu a militarização à ausência de uma estrutura política consolidada naquele momento.

Segundo ele, Jair Bolsonaro acabou recorrendo a pessoas de sua convivência mais próxima, formada principalmente por militares.

“Não tinha ninguém que ele conhecia que não fosse das Forças Armadas.”

Na avaliação de Carlos, essa escolha acabou sendo um dos principais equívocos da administração.

Ele também afirmou que, caso o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) dispute e vença uma futura eleição presidencial, adotará um modelo diferente de composição do governo.

“Hoje em dia eu tenho a certeza absoluta que o Flávio não fará essa militarização em torno de si, mas de pessoas realmente técnicas. Pessoas que entendem o movimento e não são positivistas como eram os militares.”

A declaração representou uma crítica direta ao protagonismo que militares tiveram durante o governo Bolsonaro.

Generais reagem com ironia

Nos bastidores das Forças Armadas, a fala de Carlos Bolsonaro foi recebida com ironia.

Segundo militares ouvidos sob condição de anonimato, é necessário distinguir a atuação individual de militares da reserva da instituição Forças Armadas como um todo.

Na avaliação de oficiais-generais, foi o próprio Jair Bolsonaro quem promoveu a aproximação entre militares e o governo federal, utilizando esse grupo como um dos pilares de seu projeto político.

Um general de quatro estrelas, sob reserva, fez críticas duras ao ex-presidente e aos filhos.

“Como passou pouco tempo na ativa e não foi além de um posto intermediário, Bolsonaro jamais compreendeu o espírito que norteia a vida militar. Os filhos compartilham da mesma visão míope. Aliás, nenhum deles prestou o serviço militar. Por que será?”

A declaração evidencia o desconforto existente em parte da cúpula militar com a forma como a instituição passou a ser associada ao governo Bolsonaro.

Militares reconhecem desgaste da imagem institucional

Nos bastidores, integrantes das Forças Armadas admitem que a instituição ainda trabalha para recuperar sua imagem após o período de intensa participação de militares em cargos políticos e administrativos.

Segundo esses relatos, a forte identificação entre militares e o governo Bolsonaro produziu desgaste institucional, cuja superação ainda é considerada um desafio.

Militarização do governo

Um levantamento divulgado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) em 2022 apontou que a presença de militares em cargos civis do governo federal cresceu significativamente durante a gestão Bolsonaro.

O estudo mostrou que o número de militares ocupando cargos na administração pública passou de 370 postos em 2013 para 1.085 em 2021, um crescimento de aproximadamente 193%.

Os maiores aumentos ocorreram justamente durante o governo Bolsonaro.

Entre os destaques do levantamento:

  • os cargos de Direção e Assessoramento Superior (DAS) e Funções Comissionadas do Poder Executivo (FCPE) passaram de 381 militares em 2018 para 742 em 2021;
  • no Ministério da Economia, o número de militares subiu de 1 para 84 entre 2013 e 2021;
  • no Ministério da Saúde, que durante parte da pandemia foi comandado pelo general Eduardo Pazuello, o contingente passou de 7 para 40 militares;
  • no Ministério do Meio Ambiente, a quantidade aumentou de 1 para 21 militares no mesmo período.

Debate sobre o legado

As declarações de Carlos Bolsonaro abriram um novo capítulo na discussão sobre a participação de militares em funções civis durante o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro.

Enquanto Carlos classificou a militarização como um erro decorrente da falta de estrutura política do então presidente, integrantes da caserna responderam afirmando que a decisão partiu do próprio Bolsonaro e lembraram que a instituição ainda busca reduzir os impactos do desgaste de imagem provocado pela forte associação entre as Forças Armadas e o governo federal naquele período.

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