Caso da “fazenda da maconha” ganha novo capítulo com exoneração de delegados e investigação sobre falhas na operação

Caso da “fazenda da maconha” ganha novo capítulo com exoneração de delegados e investigação sobre falhas na operação

Apreensão de cerca de 290 mil pés de maconha em Acopiara se transforma em uma das maiores polêmicas da segurança pública do Ceará após denúncias de falhas na preservação da área, abertura de investigação disciplinar e versões divergentes sobre a destruição da droga.

O caso da gigantesca plantação de maconha descoberta em Acopiara, no interior do Ceará, continua cercado de questionamentos e já provocou mudanças na cúpula da Polícia Civil. Os delegados Vicente de Paula Rodrigues, então titular da Delegacia de Acopiara, e Marcos Sandro Nazaré de Lira, delegado seccional da 4ª Seccional do Interior Sul, foram exonerados dos cargos de chefia após a abertura de Processo Administrativo Disciplinar (PAD) para apurar possíveis falhas na condução da operação.

A medida ocorre em meio à repercussão de uma apreensão considerada uma das maiores da história do estado. No dia 25 de junho, policiais localizaram aproximadamente 290 mil pés de maconha, sendo cerca de 160 mil em cultivo e outros 130 mil já colhidos, além de uma estrutura utilizada pelos suspeitos para produção da droga.

Inicialmente, a Polícia Civil informou que a plantação havia sido destruída por meio de uma operação de incineração realizada com apoio do Corpo de Bombeiros. Dias depois, entretanto, o caso tomou outro rumo após o deputado federal André Fernandes (PL) divulgar vídeos afirmando ter encontrado a fazenda sem policiamento e com parte da droga ainda no local.

Nas imagens divulgadas pelo parlamentar, aparecem sacos com maconha, pés da planta ainda espalhados pela propriedade e materiais que, segundo ele, deveriam ter sido recolhidos como prova. Em uma nova visita, André Fernandes chegou a escavar parte do terreno e mostrou plantas enterradas, sustentando que a droga não havia sido totalmente incinerada, como havia sido anunciado oficialmente.

As denúncias aumentaram a pressão sobre o Governo do Ceará e levaram a Controladoria Geral de Disciplina (CGD) a abrir investigação para apurar a atuação dos agentes responsáveis pela preservação da área após a operação policial.

Exoneração decorre de processo disciplinar

A exoneração dos dois delegados ocorreu com base na Lei Estadual nº 13.441/2004, que impede policiais civis submetidos a processo administrativo disciplinar de permanecerem em cargos de chefia enquanto durar a investigação.

A Polícia Civil ressaltou que a medida possui caráter automático e temporário, não representando punição definitiva nem antecipação de culpa. Ambos permanecem integrando os quadros da corporação, porém sem funções de comando.

A decisão, no entanto, foi contestada pela Associação dos Delegados de Polícia Civil do Ceará (Adepol-CE). A entidade classificou a instauração do processo como precipitada e afirmou que não houve uma investigação preliminar suficientemente ampla para delimitar responsabilidades antes da abertura do PAD.

Segundo os advogados dos delegados, Leandro Vasques e Seledon Dantas, existe o risco de personalizar responsabilidades em apenas duas autoridades policiais, quando a apuração deveria considerar toda a estrutura envolvida na operação.

Polícia afirma que droga foi destruída

Após a repercussão das denúncias, a Polícia Civil informou que concluiu a destruição da plantação utilizando uma técnica empregada pelo Corpo de Bombeiros.

De acordo com a corporação, as plantas foram queimadas em valas abertas no solo com auxílio de gasolina e óleo diesel e, posteriormente, cobertas por terra para impedir a propagação do fogo para a vegetação ao redor.

Segundo a versão oficial, o material encontrado posteriormente pelo deputado corresponderia apenas a restos vegetais da plantação já destruída e não a maconha pronta para consumo.

O diretor do Departamento de Polícia do Interior Sul, delegado Pedro Viana, afirmou que a técnica utilizada segue protocolos de segurança e explicou que a maconha ainda estava verde, exigindo um procedimento específico de destruição.

Governo promete apuração completa

Após a repercussão nacional do caso, o governador Elmano de Freitas (PT) visitou pessoalmente a fazenda e determinou a continuidade dos trabalhos até a destruição integral da plantação.

Na ocasião, o governador afirmou que nenhuma irregularidade seria acobertada e garantiu investigação completa sobre eventual falha na operação.

Elmano também pediu que o deputado André Fernandes apresente formalmente às autoridades qualquer informação que possua sobre uma suposta interferência na operação policial.

MP, PF e CNJ acompanham os desdobramentos

O Ministério Público do Ceará informou que acompanha o caso por meio do Gaesp e do Gaeco, enquanto o Partido Liberal anunciou que pretende provocar também a atuação da Polícia Federal e do Ministério Público Federal para apurar os fatos.

Além da investigação sobre a preservação da cena da apreensão, continuam as buscas pelo homem apontado como responsável pelo arrendamento da propriedade onde funcionava o cultivo da droga. O proprietário da fazenda chegou a ser preso temporariamente, mas foi posteriormente colocado em liberdade, enquanto o arrendatário permanece foragido.

Com versões conflitantes sobre o destino da droga, investigações administrativas em andamento e a exoneração dos delegados responsáveis pela área, o caso permanece cercado de questionamentos e aguarda a conclusão das apurações para esclarecer se houve falhas operacionais, descumprimento de protocolos ou outras irregularidades durante uma das maiores apreensões de maconha já registradas no Ceará.

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