
Empresa que pagou R$ 700 mil ao escritório da ministra Verônica Sterman tinha ‘dono’ que confessou ser laranja, aponta investigação
Ericsson de Azevedo disse à Polícia Civil de São Paulo que recebeu R$ 5 mil para emprestar seus dados na abertura da ACX ITC; empresa é investigada por suposta ligação com esquema de lavagem de dinheiro e aparece em relatório da CPMI do INSS
Um novo desdobramento das investigações sobre empresas suspeitas de movimentar recursos em um suposto esquema de lavagem de dinheiro trouxe à tona o nome da ministra do Superior Tribunal Militar (STM), Verônica Abdalla Sterman. O foco da apuração não recai sobre a atuação da ministra, mas sobre a empresa que efetuou um pagamento de R$ 700 mil ao seu escritório de advocacia antes de sua nomeação para a Corte.

A empresa ACX ITC Serviços de Tecnologia aparece em investigações da Polícia Civil de São Paulo e também no relatório final da CPMI do INSS como integrante de uma estrutura empresarial investigada por movimentações financeiras consideradas suspeitas.
O caso ganhou novos contornos após o depoimento prestado por Ericsson de Azevedo, apontado oficialmente como proprietário da empresa. À polícia, ele afirmou que nunca administrou a companhia e confessou que apenas emprestou seus dados pessoais para a abertura do CNPJ.
Homem afirma que recebeu R$ 5 mil para abrir empresa em seu nome
Em depoimento prestado ao delegado Julio Jesus Encarnação, da 2ª Delegacia da Divisão de Investigações sobre Entorpecentes da Polícia Civil paulista, Ericsson de Azevedo contou que, em 2021, enfrentava dificuldades financeiras e aceitou entregar seus documentos em troca de R$ 5 mil.
Segundo seu relato, o encontro aconteceu em um campo de futebol próximo de sua residência, no bairro do Jaçanã, na zona norte da capital paulista.
Ele afirmou não se recordar da identidade da pessoa que recebeu seus documentos e declarou que jamais participou da administração da ACX ITC.
Ainda conforme o depoimento, Ericsson recebia posteriormente R$ 1 mil em dinheiro sempre que era chamado para assinar documentos relacionados à empresa, mas disse desconhecer o conteúdo dos papéis e afirmou que diferentes pessoas compareciam para colher as assinaturas.
À polícia, informou sobreviver da fabricação de pipas, rabiolas e da venda de rifas, atividades que lhe rendem cerca de R$ 1 mil por mês.
Empresa movimentou centenas de milhões de reais, segundo investigação
Embora tenha como proprietário formal uma pessoa de baixa renda, a ACX ITC declara capital social superior a R$ 100 milhões.
Segundo a Polícia Civil e documentos da CPMI do INSS, a empresa integra um grupo de mais de 40 companhias relacionado ao empresário Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como “Careca do INSS”.
De acordo com o relatório parlamentar, essa rede empresarial teria movimentado aproximadamente R$ 39 bilhões.
Já a Operação Saturno, conduzida pela Polícia Civil de São Paulo, aponta que somente a ACX ITC movimentou cerca de R$ 918,3 milhões e apresenta “fortes indícios” de participação em operações destinadas à ocultação e dissimulação de recursos de origem ilícita.
O relatório policial também cita suspeitas de utilização da empresa em operações relacionadas à lavagem de dinheiro e ao tráfico de drogas. Essas suspeitas continuam sendo investigadas e ainda dependem de conclusão definitiva da Justiça.
Pagamento ao escritório da ministra ocorreu antes da posse no STM
Relatórios de Inteligência Financeira (RIF) produzidos pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) registram que a ACX ITC realizou um pagamento único de R$ 700 mil ao escritório de advocacia de Verônica Sterman entre o fim de 2024 e o início de 2025.
Naquele período, Sterman ainda exercia exclusivamente a advocacia. Sua nomeação para o Superior Tribunal Militar ocorreu posteriormente, por indicação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Questionada anteriormente sobre a origem dos recursos, a ministra afirmou que o valor corresponde ao pagamento de três pareceres jurídicos elaborados para a empresa na área criminal.
Até o momento, não foram localizados processos públicos nos quais ela tenha atuado em nome da ACX ITC ou de empresas ligadas ao mesmo grupo. Procurada novamente por intermédio da assessoria do STM, a ministra não havia se manifestado até a última atualização do caso.
Ex-ministro do STJ também recebeu pagamentos
As investigações apontam ainda que a ACX ITC efetuou pagamentos ao escritório do ex-ministro do Superior Tribunal de Justiça Nefi Cordeiro.
Segundo os registros financeiros, foram repassados R$ 595 mil em honorários advocatícios entre 2023 e 2024, além de um cheque no valor de R$ 150 mil.
Nefi Cordeiro afirmou que os recursos correspondem à remuneração por serviços jurídicos prestados em processos já encerrados e declarou não conhecer Ericsson de Azevedo.
Caso pode migrar para a Justiça Federal
Em razão da complexidade das investigações e da possível conexão com crimes financeiros de alcance interestadual e internacional, o Ministério Público de São Paulo defendeu que o caso seja remetido à Justiça Federal.
Os investigadores sustentam que diversas empresas citadas no inquérito também aparecem em outras operações voltadas ao combate à lavagem de dinheiro, organizações criminosas e fraudes financeiras.
Enquanto as investigações continuam, as autoridades buscam esclarecer quem controlava efetivamente a ACX ITC, qual a origem dos recursos movimentados pela empresa e se os pagamentos realizados a escritórios de advocacia estavam relacionados à prestação regular de serviços ou a outras operações que ainda estão sob apuração.
Fonte e Créditos: Metrópoles