
Endividamento atinge 82% das famílias brasileiras e acende alerta sobre renda e consumo
Recorde registrado em julho revela pressão crescente sobre o orçamento; quase 30% da renda dos consumidores endividados já está comprometida com dívidas, enquanto indenizações por doenças graves avançam 28,5%
O orçamento das famílias brasileiras enfrenta uma combinação cada vez mais delicada de endividamento elevado, comprometimento da renda e necessidade de proteção financeira. Em julho de 2026, 82% das famílias declararam possuir algum tipo de dívida, segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). O resultado representa o sexto mês consecutivo de alta e o maior nível da série histórica.
O levantamento mostra, porém, uma diferença importante: estar endividado não significa necessariamente estar inadimplente. Entre os compromissos considerados pela pesquisa estão cartão de crédito, cheque especial, carnês, crédito consignado, empréstimos pessoais e financiamentos de veículos e imóveis. Uma família pode ter parcelas a pagar e, ainda assim, manter os pagamentos em dia.
Em julho, 29,8% das famílias estavam inadimplentes, percentual ligeiramente inferior aos 29,9% registrados em junho. O tempo médio de atraso também caiu para 64,6 dias. Ao mesmo tempo, aumentou para 19% a parcela de famílias que comprometem mais da metade da renda com dívidas, o maior nível desde março.
Quase 30% da renda comprometida
O cenário ganha dimensão ainda maior quando se observa quanto do orçamento familiar já está destinado aos credores. Segundo os dados divulgados, 29,5% da renda das famílias endividadas está comprometida, em média, com o pagamento das dívidas.
O resultado cria uma situação paradoxal: a inadimplência apresentou pequena melhora, mas o comprometimento financeiro continua avançando.
Em outras palavras, parte das famílias ainda consegue pagar suas obrigações, mas está fazendo isso com uma parcela cada vez maior do próprio orçamento.
A consequência pode ser uma redução da capacidade de consumo, especialmente de produtos e serviços considerados não essenciais.
Cartão de crédito permanece no centro do problema
O cartão de crédito ocupa posição importante entre as modalidades responsáveis pelo endividamento das famílias brasileiras. Dados apresentados recentemente pelo presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, mostram a dimensão do problema.
Segundo Galípolo, o Brasil possui aproximadamente 96 milhões de usuários de cartão de crédito, dos quais 52,8 milhões carregam dívidas no rotativo ou em parcelamentos com juros.
O presidente do Banco Central chamou atenção para a relação direta entre expansão do crédito e aumento das dívidas.
“Não dá para ficar contente com a notícia de que o crédito cresceu e depois reclamar que o endividamento cresceu. O crédito que um banco dá é a dívida de alguém que tomou.”
A avaliação de Galípolo acrescenta outra camada ao debate. Para ele, a expansão do acesso ao sistema financeiro, especialmente entre consumidores de menor renda, não foi necessariamente acompanhada pela mesma velocidade de educação financeira e avaliação da capacidade de pagamento.
Uma dívida que pode reduzir o consumo
O problema do endividamento não se limita às contas atrasadas. Uma família que destina uma parcela elevada da renda ao pagamento de empréstimos e financiamentos passa a ter menos dinheiro disponível para novas compras.
Isso pode atingir diretamente o comércio e os serviços.
O impacto, entretanto, não é automático. Uma família pode estar financiando um imóvel ou pagando um empréstimo destinado a uma atividade produtiva sem apresentar dificuldades financeiras. O alerta aumenta quando o crédito é usado para despesas recorrentes ou consumo de curto prazo que não gera patrimônio ou renda futura.
É justamente essa diferença que torna o atual cenário econômico mais complexo.
Indenizações por doenças graves também avançam
Paralelamente ao aumento do endividamento, o setor de seguros registra crescimento na procura por proteção financeira diante de eventos capazes de comprometer drasticamente o orçamento familiar.
Segundo levantamento divulgado pela SEGS, as indenizações relacionadas a doenças graves cresceram 28,5%. O dado é apresentado no contexto de uma maior preocupação das famílias com a proteção financeira e com os efeitos econômicos de problemas graves de saúde.
A relação entre os dois fenômenos é especialmente relevante porque uma doença grave pode representar não apenas despesas médicas, mas também afastamento do trabalho, redução temporária ou permanente da renda e aumento das despesas domésticas.
Para famílias que já possuem parcela significativa do orçamento comprometida com dívidas, um imprevisto dessa natureza pode ampliar rapidamente a vulnerabilidade financeira.
O alerta do Banco Central
O presidente do Banco Central também destacou que o endividamento atingiu um nível recorde mesmo em um momento em que alguns indicadores econômicos apresentam desempenho positivo.
A renda disponível das famílias chegou a R$ 822 bilhões em maio de 2026, enquanto a taxa de desemprego recuou para 5,4%. Ainda assim, o endividamento das famílias alcançou 49,8% da renda anual, segundo os dados apresentados por Galípolo.
O quadro mostra que emprego e renda maiores não eliminam automaticamente o problema do endividamento.
A disponibilidade de crédito, o custo das operações e o comportamento dos consumidores também determinam o tamanho das dívidas.
O impacto sobre a economia
O endividamento recorde representa um desafio não apenas para as famílias, mas para toda a economia.
Quando uma parcela crescente da renda é destinada ao pagamento de compromissos anteriores, sobra menos dinheiro para o consumo corrente. Isso pode pressionar empresas que dependem das compras das famílias e dificultar a recuperação de setores mais dependentes do crédito.
O comércio, por exemplo, enfrenta simultaneamente consumidores mais cautelosos e custos financeiros elevados. O varejo brasileiro encerrou o primeiro semestre de 2026 com 986 empresas em recuperação judicial, segundo levantamento citado recentemente, em um ambiente marcado por juros altos e endividamento recorde das famílias.
O desafio agora é sair da dívida sem interromper o consumo
O dado de 82% das famílias endividadas não significa que o consumidor brasileiro tenha deixado de comprar ou que toda essa população esteja em situação de insolvência.
Mas o número funciona como um sinal de alerta.
A questão central passa a ser a qualidade dessas dívidas: quanto custa o crédito, qual parcela da renda está comprometida, quantas famílias conseguem manter os pagamentos em dia e quanto resta do orçamento para alimentação, moradia, saúde, educação e consumo.
O cenário também ajuda a explicar por que proteção financeira ganhou espaço no debate. Em um ambiente no qual uma parcela significativa das famílias já possui compromissos financeiros, uma doença grave ou uma interrupção inesperada da renda pode transformar uma dificuldade administrável em uma crise familiar.
O retrato de julho, portanto, é de um consumidor que ainda paga suas contas, mas cada vez mais próximo do limite. O endividamento recorde, combinado ao avanço das indenizações relacionadas a doenças graves, revela uma sociedade na qual preservar renda e capacidade de pagamento tornou-se uma preocupação tão importante quanto ampliar o acesso ao crédito.