
Erika Hilton acusa PSOL de quebra de acordo na divisão de recursos e gera crise interna sobre verbas de campanha
Deputada afirma que partido favorece candidaturas brancas e cisgênero; direção do PSOL nega irregularidades e diz que campanha da parlamentar terá maior investimento da legenda, de até R$ 2,3 milhões
A disputa por dinheiro de campanha dentro do PSOL ganhou novos contornos políticos e expôs um atrito interno que vai além da matemática eleitoral. A deputada federal Erika Hilton acusou a direção nacional do partido de descumprir acordos internos e de adotar critérios que, segundo ela, acabam privilegiando candidaturas brancas e cisgênero na distribuição de recursos para as eleições de 2026.
A reação veio após a divulgação de projeções de financiamento que colocam sua própria campanha em uma posição relevante — mas que, ainda assim, não aplacou a insatisfação da parlamentar.
Segundo dirigentes do partido, Erika deve ser a candidata proporcional com maior volume de recursos dentro da legenda, com previsão de até R$ 2,3 milhões para sua campanha à reeleição. O valor, embora elevado dentro da realidade partidária, não foi suficiente para evitar o desgaste público.
Acusações de quebra de acordo e disputa por narrativa interna
Em publicação nas redes sociais, Erika Hilton afirmou que o PSOL teria desmontado mecanismos internos de correção de desigualdades, que levavam em conta raça, gênero e deficiência na distribuição das verbas eleitorais.
Ela também criticou o que chamou de incoerência na divisão dos recursos, citando nomes de outras lideranças do partido, como o presidente da federação Juliano Medeiros, que teria previsão de receber valores equivalentes aos dela, e a ex-deputada Manuela D’Ávila, recém-filiada à sigla e cotada para disputar o Senado, com repasses superiores.
Para Erika, essa configuração revela um desequilíbrio político dentro da legenda.
Segundo ela, “acordos feitos anteriormente estariam sendo ignorados”, o que, na prática, enfraqueceria candidaturas de lideranças negras e LGBTQIA+.
PSOL rebate e fala em estratégia eleitoral
A direção nacional do PSOL rejeita a versão de que haveria quebra de acordos ou abandono de políticas de inclusão.
Em nota, o partido afirma que a distribuição de recursos segue uma estratégia eleitoral voltada à ampliação de bancadas no Congresso e ao fortalecimento de candidaturas consideradas competitivas em diferentes estados.
A legenda também sustenta que mantém políticas consolidadas de incentivo a mulheres, pessoas negras, indígenas, LGBTQIA+ e pessoas com deficiência, e que não há mudanças estruturais nesse modelo.
Nos bastidores, dirigentes avaliam que a campanha de Erika Hilton continuará sendo uma das mais bem financiadas da sigla, justamente por seu peso eleitoral e simbólico dentro do partido.
Tensão expõe disputa entre identidade política e pragmatismo eleitoral
O caso revela um conflito recorrente em partidos de esquerda: o equilíbrio entre critérios de representatividade e a lógica de viabilidade eleitoral.
De um lado, Erika argumenta que a distribuição de recursos precisa refletir desigualdades históricas e estruturais do país, especialmente no caso de candidaturas de pessoas negras e trans. Do outro, setores da legenda defendem que campanhas majoritárias e nomes com maior projeção nacional exigem mais investimento, mesmo que isso gere distorções internas.
A tensão também atinge outras lideranças do partido, como a deputada estadual Renata Souza e o vereador Rick Azevedo, que também questionaram os critérios adotados.
Disputa que vai além do orçamento
Mais do que uma discussão sobre números, o episódio expõe uma disputa de narrativa dentro do PSOL: de um lado, a defesa de uma política de inclusão mais rígida e estruturada; de outro, a tentativa de ajustar o partido à lógica de competitividade eleitoral nacional.
Enquanto isso, a direção da legenda tenta conter o desgaste público e sustenta que Erika Hilton seguirá entre os principais nomes financiados pela sigla em 2026 — ainda que a crise interna mostre que a divergência está longe de ser apenas contábil.