
Candidato do PSOL ao governo da Bahia chama Bolsonaro de “genocida lá ele” durante debate
Ronaldo Mansur usou referência ao ex-presidente para atacar o bolsonarismo e Flávio Bolsonaro; fala desviou o debate estadual para a disputa presidencial e provocou reação nas redes sociais
O candidato do PSOL ao governo da Bahia, Ronaldo Mansur, provocou repercussão nas redes sociais durante o debate promovido pela TV Bandeirantes neste domingo (9). Ao criticar o senador Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência da República, Mansur evitou mencionar diretamente o nome do ex-presidente Jair Bolsonaro e se referiu a ele como “genocida lá ele”.
A declaração ocorreu durante uma discussão sobre violência contra a mulher. Mansur criticava Flávio Bolsonaro e associava as posições do senador às do pai.
“No período do ‘Genocida Lá Ele’, os professores eram tratados como lixos, a educação era tratada para poucos. Nesse período do ‘Genocida Lá Ele’, os professores eram jogados às traças”, afirmou o candidato.
Em outro momento do debate, ao relacionar Flávio Bolsonaro a Jair Bolsonaro, Mansur voltou a utilizar a expressão.
“O candidato Antônio Carlos fala muito bem, mas é preciso dizer que a violência contra a mulher tem origem quando a gente tem um candidato bolsonarista, como Flávio Bolsonaro, que defende a violência contra a mulher com seus comentários machistas, oriundos do aprendizado com seu pai, o genocida ‘lá ele’”, declarou.
A expressão escolhida pelo candidato combina o termo “genocida” com a conhecida gíria baiana “lá ele”, utilizada como brincadeira ou provocação diante de expressões de duplo sentido. A construção chamou atenção justamente pelo caráter provocativo e rapidamente passou a circular nas redes sociais.
Debate era pelo governo da Bahia
A estratégia adotada por Mansur também expôs uma questão política do próprio debate: embora Jair Bolsonaro e Flávio Bolsonaro estejam diretamente envolvidos na disputa nacional, Mansur é candidato ao governo da Bahia.
A eleição estadual tem como principais temas questões diretamente relacionadas à administração do estado, como segurança pública, educação, saúde, infraestrutura, emprego e contas públicas. Ao levar Jair Bolsonaro e a disputa presidencial para o centro de sua argumentação, o candidato do PSOL optou por explorar a polarização nacional como instrumento de confronto eleitoral.
A referência ao ex-presidente ocorreu, portanto, dentro de uma discussão sobre violência contra a mulher, mas acabou direcionando parte da atenção para a disputa entre lulistas e bolsonaristas que marca a eleição presidencial de 2026.
A crítica a adversários nacionais pode ser uma estratégia eleitoral para demarcar posição ideológica, mas também corre o risco de afastar o debate dos problemas específicos que estarão sob responsabilidade do próximo governador da Bahia.
Mansur disputa governo pela primeira vez
Ronaldo Mansur é presidente estadual do PSOL e estudante de Direito. Esta é sua primeira candidatura ao governo da Bahia. Antes, ele disputou a vice-governadoria em 2014 e novamente em 2022.
Mansur compõe chapa com Meire Reis, candidata a vice-governadora.
Durante o debate, o candidato adotou uma postura de confronto com representantes do campo político ligado ao bolsonarismo e também procurou associar adversários estaduais ao ex-presidente.
ACM Neto também foi citado
Mansur também tentou relacionar o ex-prefeito de Salvador ACM Neto (União Brasil) ao bolsonarismo.
ACM Neto, porém, declarou apoio ao governador de Goiás, Ronaldo Caiado (PSD), na disputa pela Presidência da República. A movimentação evidencia como a eleição nacional interfere na formação das alianças e no discurso dos candidatos que disputam o governo baiano.
Crítica ao discurso
A fala de Mansur chama atenção menos pelo conteúdo programático voltado à Bahia e mais pela escolha de transformar uma referência à política nacional em um dos momentos de maior repercussão de sua participação no debate.
O candidato tinha a oportunidade de apresentar propostas concretas para o governo estadual e confrontar seus adversários em temas que dizem respeito diretamente à população baiana. Em vez disso, utilizou uma provocação dirigida a Jair Bolsonaro e ao grupo político de seu filho, Flávio Bolsonaro, candidato à Presidência.
A estratégia pode gerar visibilidade em um ambiente eleitoral cada vez mais influenciado pela polarização nacional, mas também levanta questionamentos sobre a prioridade dada pelo candidato aos temas efetivamente relacionados ao cargo que pretende ocupar.
A eleição em questão não é para presidente da República. Mansur disputa o comando do governo da Bahia. Por isso, além das críticas ideológicas a Bolsonaro e ao bolsonarismo, a participação do candidato no debate precisa ser avaliada pela capacidade de apresentar propostas e discutir os problemas que estarão sob responsabilidade do governador.
A fala sobre Bolsonaro acabou ganhando mais destaque do que eventuais propostas de Mansur para educação, segurança, saúde, infraestrutura e desenvolvimento econômico do estado.
O episódio mostra ainda como a polarização nacional continua influenciando as eleições estaduais. Na Bahia, candidatos de diferentes correntes políticas procuram associar adversários a figuras nacionais de forte rejeição ou popularidade, transformando a disputa pelo governo estadual em uma extensão do confronto político entre os principais grupos que disputam a Presidência.
No caso de Mansur, a escolha por atacar Jair e Flávio Bolsonaro garantiu repercussão imediata, mas também colocou em segundo plano o debate sobre o projeto que o candidato do PSOL pretende apresentar para governar a Bahia.