
“Eu trabalho efetivamente”: Janja reage às críticas sobre viagens, diz sofrer misoginia e reacende debate sobre o papel da primeira-dama
Em entrevista, Janja afirma que o Brasil nunca teve uma primeira-dama com atuação semelhante à sua, atribui os ataques ao preconceito de classe e à misoginia e defende suas viagens internacionais. Declarações, porém, voltam a alimentar críticas sobre seu protagonismo, os custos das agendas oficiais e os limites de uma função que não é prevista como cargo público.
A entrevista concedida pela primeira-dama Rosângela Lula da Silva, a Janja, ao podcast Frente a Frente, do UOL, reacendeu um debate que acompanha o terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva desde o primeiro dia de governo: afinal, qual deve ser o papel institucional de uma primeira-dama?
Ao responder às críticas que recebe por sua intensa agenda de viagens internacionais e participação em compromissos oficiais, Janja afirmou que o Brasil nunca teve uma primeira-dama que “trabalhasse efetivamente”. Segundo ela, a sociedade brasileira e parte da imprensa ainda não estão acostumadas a uma esposa de presidente que participe ativamente da agenda do governo.
“Eu vou quase todo dia para o Planalto, faço reunião, faço agenda, viajo a trabalho.”
Na avaliação da primeira-dama, o protagonismo que exerce rompe um modelo histórico em que as esposas dos presidentes apareciam apenas em eventos protocolares ou ações beneficentes.
Ela afirmou que atua em pautas relacionadas ao combate à fome, à pobreza menstrual, aos direitos das mulheres, à proteção da infância e à articulação de políticas sociais, sustentando que seu trabalho vai muito além da representação simbólica.
“É mais fácil me atacar para atingir o presidente”
Ao longo da entrevista, Janja afirmou que boa parte das críticas direcionadas à sua atuação não têm como objetivo sua pessoa, mas sim desgastar politicamente o presidente Lula.
Segundo ela, existe uma estratégia para utilizar sua imagem como forma indireta de atingir o governo.
“É mais fácil me atingir para atingir o presidente da República.”
Ela também afirmou que o apelido de “gastadeira”, frequentemente utilizado por adversários políticos nas redes sociais, representa um exemplo de misoginia.
Para Janja, homens que ocupam posições de destaque dificilmente são submetidos ao mesmo tipo de julgamento sobre aparência, comportamento ou despesas pessoais.
“Muito do preconceito contra mim é preconceito de classe”
Outro ponto enfatizado pela primeira-dama foi sua trajetória pessoal.
Ela afirmou que não pertence à elite econômica brasileira e comparou sua história à da ex-primeira-dama Ruth Cardoso.
Segundo Janja, Ruth era reconhecida por sua carreira acadêmica consolidada, enquanto ela construiu sua trajetória trabalhando desde cedo e estudando em universidade pública.
“Eu não venho de uma família rica. Fiz universidade pública trabalhando. Muito do preconceito que existe contra mim é preconceito de classe.”
Na visão da primeira-dama, essa origem influencia diretamente a forma como sua atuação é recebida por parte da opinião pública.
As viagens internacionais voltam ao centro da discussão
As declarações também recolocaram em evidência um dos assuntos mais explorados pela oposição desde o início do governo: a frequência das viagens internacionais realizadas por Janja.
Levantamentos publicados por diferentes veículos de imprensa mostram que, até meados de 2025, a primeira-dama havia permanecido 130 dias fora do Brasil, número superior ao registrado pelo próprio presidente Lula no mesmo período. Segundo o levantamento do Poder360, Janja participou de 30 viagens internacionais, visitando 35 países, permanecendo 24 dias a mais no exterior do que o presidente no intervalo analisado.
As agendas incluíram reuniões da ONU, encontros do G20, eventos da FAO, conferências ambientais, compromissos ligados ao combate à fome, direitos das mulheres, educação, cultura e fóruns internacionais nos quais representou o Brasil ao lado ou em nome do presidente.
Em 2026, esse número aumentou com novas viagens oficiais, ampliando o debate sobre a frequência de seus deslocamentos.
A resposta de Janja
Na entrevista, Janja afirmou que muitas informações divulgadas sobre suas viagens apresentam apenas os valores totais das comitivas presidenciais, sem distinguir as despesas diretamente relacionadas à sua participação.
Ela explicou que utiliza classe executiva por determinação dos protocolos de segurança da Presidência da República e da Polícia Federal.
Segundo ela, sempre que possível procura hospedar-se em embaixadas brasileiras, justamente para facilitar a logística e reduzir riscos de segurança.
“Eu viajo na executiva porque existem regras de segurança. Por mim, eu nem teria segurança, mas existem protocolos que preciso seguir.”
Ela acrescentou que todas as suas agendas são públicas e que presta contas de sua atuação institucional.
O outro lado do debate
As explicações da primeira-dama, entretanto, não convenceram seus críticos.
Parlamentares da oposição argumentam que Janja não ocupa cargo público, não recebe salário da União e não possui atribuições definidas pela Constituição ou por lei. Na avaliação desses críticos, sua intensa participação em compromissos internacionais representa um protagonismo institucional que deveria ser acompanhado de regras mais claras de transparência e prestação de contas.
Outro ponto levantado por opositores diz respeito aos custos indiretos das viagens, como equipes de apoio, segurança, transporte e hospedagem da comitiva oficial. Eles defendem que essas despesas sejam divulgadas de forma ainda mais detalhada para facilitar o controle social.
O debate também envolve o papel tradicional das primeiras-damas no Brasil. Enquanto apoiadores de Janja consideram que sua atuação moderniza uma função historicamente limitada à representação simbólica, críticos afirmam que a ampliação desse protagonismo exige mecanismos institucionais mais claros, justamente porque a função de primeira-dama não constitui cargo público.
TCU arquivou processos sobre viagens
Em meio às críticas, o Tribunal de Contas da União analisou representações relacionadas às viagens internacionais da primeira-dama.
Os ministros decidiram arquivar os processos por entenderem que não foram identificadas irregularidades nas despesas ou na participação de Janja em missões oficiais.
A decisão, porém, não encerrou o debate político.
Mesmo após o arquivamento, parlamentares da oposição continuam defendendo maior transparência sobre os custos das agendas internacionais e questionando a necessidade de parte dos deslocamentos.
Um debate que permanece aberto
As declarações de Janja evidenciam duas visões bastante distintas sobre o papel da primeira-dama.
De um lado, ela afirma exercer um trabalho efetivo, participar diariamente de reuniões no Palácio do Planalto, representar o Brasil em fóruns internacionais e atuar em políticas públicas voltadas para mulheres, combate à fome e inclusão social. Também sustenta que parte das críticas decorre de misoginia, preconceito de classe e da tentativa de atingir politicamente o presidente Lula.
De outro, opositores questionam o alcance desse protagonismo por se tratar de uma função sem previsão constitucional como cargo público, defendem maior transparência sobre viagens e despesas e argumentam que a crescente participação institucional da primeira-dama exige regras mais objetivas de prestação de contas.
Assim, a entrevista não apenas serviu para que Janja apresentasse sua defesa, mas também recolocou no centro do debate uma discussão que acompanha todo o atual governo: até onde vai o papel político e institucional de uma primeira-dama em um país cuja legislação não define formalmente essa função?