
Ex-fundador do PT afirma que metalúrgicos do ABC podem votar em Flávio Bolsonaro e expõe desgaste de Lula entre antigos eleitores
Zé Maria, fundador do Partido dos Trabalhadores e atual dirigente do PSTU, atribui possível mudança de voto à insatisfação dos trabalhadores com o governo petista; durante debate com José Genoino, declaração colocou em evidência a crise de identidade e os desafios eleitorais da esquerda.
Uma declaração de José Maria de Almeida, conhecido como Zé Maria, um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores (PT) e atual dirigente do Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado (PSTU), ganhou repercussão nas redes sociais ao apontar uma possível mudança de comportamento eleitoral entre trabalhadores historicamente ligados ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Segundo ele, metalúrgicos do ABC Paulista que votaram no petista durante décadas estariam dispostos a apoiar o senador Flávio Bolsonaro (PL) na disputa presidencial de 2026.
“Os mesmos metalúrgicos que votaram no Lula a vida inteira vão votar hoje no Flávio”, afirmou Zé Maria durante participação no Podcast 3 Irmãos, em uma conversa com José Genoino, ex-presidente nacional do PT e outra figura histórica da esquerda brasileira.
A fala chamou a atenção por envolver justamente uma das bases sociais mais simbólicas da trajetória política de Lula: os trabalhadores metalúrgicos do ABC Paulista. Foi nessa região industrial da Grande São Paulo que o petista ganhou projeção nacional como dirigente sindical, especialmente durante as greves operárias do final da década de 1970.
Zé Maria aponta insatisfação com o governo Lula
Durante o debate, Zé Maria contestou a ideia de que trabalhadores dispostos a votar em Flávio Bolsonaro estariam tomando essa decisão por falta de inteligência ou compreensão política. Para ele, a possível mudança de preferência eleitoral está relacionada à avaliação que parte desses eleitores faz da atuação do governo Lula.
O dirigente argumentou que não seria razoável desqualificar esses trabalhadores por reconsiderarem seu voto. Na avaliação apresentada por ele, a insatisfação estaria ligada à percepção de que o governo não cumpriu expectativas e de que promessas políticas não bastam para convencer quem esperava resultados concretos.
A declaração representa um sinal político relevante porque parte de um antigo integrante do próprio PT, alguém que conhece a história e as disputas internas do partido. Zé Maria foi expulso da legenda em 1992 e, desde então, seguiu trajetória política própria, tornando-se dirigente do PSTU.
Sua avaliação, entretanto, deve ser entendida como uma manifestação política, e não como resultado de uma pesquisa eleitoral. Não há, na declaração divulgada, levantamento estatístico que comprove que metade dos metalúrgicos do ABC tenha decidido votar em Flávio Bolsonaro.
José Genoino reconhece momento delicado para a esquerda
A conversa também colocou em evidência as dificuldades enfrentadas pelo campo progressista. José Genoino demonstrou preocupação com o cenário político e reconheceu que o projeto defendido pelo PT atravessa uma fase de incerteza.
Durante a discussão, Genoino afirmou que a esquerda está “no fio da navalha”. Em outro momento, ponderou que expor publicamente todas as divergências e críticas poderia acabar favorecendo os adversários políticos do campo progressista.
As declarações revelam a tensão entre reconhecer os problemas enfrentados pelo partido e preservar a unidade política diante de uma disputa presidencial acirrada. A fala também indica que o debate sobre o futuro da esquerda não se limita aos adversários externos: envolve questionamentos sobre a capacidade do PT de manter a confiança de parcelas do eleitorado que historicamente sustentaram sua força política.
A discussão ganha peso porque tanto Zé Maria quanto Genoino possuem trajetórias ligadas à história da esquerda brasileira, embora hoje ocupem posições políticas diferentes.
ABC Paulista: um território simbólico para Lula
O ABC Paulista tem importância histórica para o movimento sindical e para a formação da liderança de Lula. A região reúne municípios industriais, entre eles São Bernardo do Campo, onde o presidente construiu parte significativa de sua trajetória política.
Apesar da repercussão da declaração de Zé Maria, os números do primeiro turno mostram que Lula ainda manteve vantagem sobre Flávio em São Bernardo do Campo. O petista recebeu 215.232 votos no município, enquanto o senador do PL obteve 192.478.
No resultado nacional do primeiro turno, conforme os números divulgados pela reportagem, Flávio Bolsonaro alcançou 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula. A disputa passou, assim, a depender também da capacidade dos dois candidatos de conquistar eleitores que tradicionalmente apoiavam outros projetos políticos ou que agora demonstram insatisfação com suas antigas escolhas.
Os dados municipais não comprovam, por si só, uma migração dos metalúrgicos para o bolsonarismo. O resultado de São Bernardo inclui eleitores de diferentes profissões e segmentos sociais. Ainda assim, a fala de Zé Maria chama a atenção para uma questão estratégica: até que ponto a ligação histórica de Lula com o sindicalismo continua sendo suficiente para garantir o apoio dos trabalhadores?
Flávio Bolsonaro tenta ampliar espaço entre eleitores tradicionais da esquerda
A possibilidade de antigos eleitores de Lula optarem por Flávio Bolsonaro representa uma oportunidade política para a campanha do senador do PL. Para ampliar sua base, o candidato precisa conquistar não apenas eleitores identificados com a direita, mas também pessoas que avaliam o governo federal a partir de questões concretas, como emprego, renda, segurança pública, custo de vida e serviços públicos.
A declaração de Zé Maria pode ser explorada nesse contexto como um indício de insatisfação entre setores que, durante muito tempo, foram associados ao PT. Contudo, transformar essa percepção em votos efetivos exige propostas capazes de dialogar com as preocupações desses trabalhadores.
O episódio também evidencia que a disputa eleitoral não se resume à divisão tradicional entre direita e esquerda. A identificação histórica de um eleitor com determinado partido não significa necessariamente apoio permanente, e a avaliação de governos pode alterar preferências políticas ao longo do tempo.
Uma declaração que expõe o desafio político do PT
A repercussão da fala de Zé Maria coloca o PT diante de uma questão importante: como preservar sua relação histórica com os trabalhadores quando antigos apoiadores demonstram disposição para considerar alternativas eleitorais?
Para os adversários do governo, o episódio reforça o argumento de que a trajetória sindical de Lula não garante, por si só, a continuidade do apoio popular. Para o PT, a declaração funciona como um alerta sobre a necessidade de responder às críticas, apresentar resultados e convencer eleitores de que suas propostas continuam relevantes.
O ponto central, porém, exige cautela: a afirmação de que metalúrgicos tradicionalmente lulistas podem votar em Flávio Bolsonaro não significa que toda a categoria tenha mudado de posição, nem comprova que metade dos trabalhadores da região apoiará o senador.
Ainda assim, a fala de um dos fundadores do PT tem peso político por questionar a ideia de que o vínculo histórico entre Lula e o operariado permaneça inabalável. Em uma eleição marcada pela disputa por votos decisivos, a possibilidade de mudança entre antigos eleitores petistas pode se tornar um tema importante da campanha.
O episódio deixa uma mensagem clara para os dois lados: a história política pode construir lealdades duradouras, mas não elimina a cobrança por resultados. No ABC Paulista, região que ajudou a projetar Lula nacionalmente, a disputa pelo voto dos trabalhadores continua aberta — e a capacidade de conquistar a confiança desse eleitorado poderá ter importância para o desfecho eleitoral.