Janones perde cerca de 160 mil votos, mas consegue se reeleger em Minas Gerais

Janones perde cerca de 160 mil votos, mas consegue se reeleger em Minas Gerais

Após protagonismo na campanha de Lula em 2022 e acordo relacionado ao caso da “rachadinha”, André Janones volta à Câmara com votação muito menor e terá mais quatro anos para prestar contas ao eleitor

André Janones (Rede-MG) foi reeleito deputado federal por Minas Gerais, mas o resultado de 2026 ficou muito distante da votação obtida quatro anos antes. Com 78.780 votos, segundo os resultados divulgados com 100% das urnas apuradas, Janones garantiu mais um mandato na Câmara dos Deputados. Em 2022, havia recebido 238.967 votos — uma diferença superior a 160 mil votos.

A queda é expressiva: o parlamentar saiu de uma das maiores votações de Minas em 2022 para uma posição muito mais modesta em 2026.

E existe uma ironia política nesse resultado: Janones perdeu uma quantidade enorme de votos, mas ainda conseguiu permanecer no Congresso Nacional.

O fenômeno de 2022 ficou para trás

A trajetória de Janones ganhou dimensão nacional durante a eleição presidencial de 2022.

Naquele ano, ele chegou a ser pré-candidato à Presidência pelo Avante, mas desistiu da disputa e passou a apoiar Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Sua atuação nas redes sociais ganhou enorme visibilidade durante aquela campanha, especialmente entre os apoiadores do então candidato petista. Janones tornou-se uma das figuras mais ativas na comunicação digital da campanha e ampliou consideravelmente sua projeção nacional.

O resultado eleitoral daquele ciclo parecia confirmar sua força: 238.967 votos para deputado federal em Minas Gerais.

Quatro anos depois, porém, a realidade foi outra.

A conta eleitoral chegou

Em 2026, Janones recebeu 78.780 votos.

Foram aproximadamente 160 mil votos a menos do que em 2022.

A queda não significa que ele tenha deixado de possuir uma base eleitoral. Afinal, ainda recebeu dezenas de milhares de votos e garantiu a reeleição.

Mas o contraste é impossível de ignorar.

Em 2022, Janones estava entre os grandes fenômenos eleitorais de Minas.

Em 2026, precisou de uma votação muito menor para voltar à Câmara.

A política, como sempre, apresenta suas ironias: o eleitor não precisou expulsá-lo do Congresso para reduzir drasticamente o tamanho de sua votação.

O episódio da “rachadinha”

A campanha de 2026 também ocorreu depois de um episódio jurídico que marcou a trajetória recente do parlamentar.

Janones firmou um Acordo de Não Persecução Penal (ANPP) com a Procuradoria-Geral da República relacionado à investigação sobre “rachadinha” em seu gabinete.

Segundo informações divulgadas em setembro, o deputado pagou R$ 157.813,76, valor que incluiu reparação de danos à Câmara dos Deputados e prestação pecuniária. A PGR informou ao STF o cumprimento do acordo e pediu a extinção da punibilidade.

O caso ganhou destaque porque Janones admitiu fatos relacionados à utilização do cartão de crédito de um assessor para despesas pessoais, com pagamento das faturas pelo próprio assessor, conforme relatado no acordo.

É importante fazer a distinção jurídica: um acordo de não persecução penal não equivale a uma condenação criminal definitiva. O caso teve uma solução negociada prevista na legislação, com obrigações cumpridas pelo parlamentar.

Mas politicamente o episódio naturalmente passou a fazer parte da trajetória pública de Janones.

O eleitor sabia — e mesmo assim o reelegeu

Esse talvez seja o ponto mais interessante do resultado.

Apesar da queda brutal na votação e de toda a controvérsia envolvendo seu nome, Janones conseguiu novamente uma cadeira na Câmara.

Ou seja: o eleitor mineiro teve a oportunidade de julgá-lo politicamente nas urnas e decidiu mantê-lo no Congresso.

Isso não significa que os 78 mil eleitores tenham necessariamente aprovado todos os atos do parlamentar.

Mas significa que uma parcela do eleitorado ainda considerou suficiente sua identificação política para garantir mais um mandato.

A democracia funciona assim: o voto pode premiar, punir, reduzir ou simplesmente manter um político.

Terceiro mandato

Com a reeleição, Janones garantirá seu terceiro mandato consecutivo como deputado federal.

Sua trajetória eleitoral começou a ganhar força em 2018, quando recebeu cerca de 178 mil votos e foi um dos deputados mais votados de Minas Gerais. Em 2022, chegou aos quase 239 mil votos. Agora, em 2026, volta à Câmara com menos de 80 mil.

A trajetória mostra claramente a oscilação de sua força eleitoral.

O político que já esteve entre os grandes fenômenos eleitorais do estado agora terá de reconstruir sua imagem e ampliar sua conexão com o eleitorado.

De protagonista das redes a deputado de votação reduzida

Janones construiu parte significativa de sua carreira política utilizando as redes sociais.

Sua comunicação direta, seus vídeos e sua atuação durante a campanha de 2022 fizeram dele um dos personagens mais conhecidos da política digital brasileira.

Mas existe uma lição importante nesse caso.

Seguidores não são necessariamente votos.

Engajamento não é automaticamente mandato.

E uma audiência construída na internet precisa ser constantemente convertida em confiança eleitoral.

Em 2022, Janones conseguiu fazer isso em grande escala.

Em 2026, o resultado foi bem mais modesto.

A ironia do resultado

Há uma certa ironia no fato de que um político que se tornou conhecido por uma comunicação política extremamente intensa tenha visto sua votação despencar justamente em uma eleição marcada pela força das redes sociais.

Mas a urna é diferente das redes.

Na internet, uma publicação pode alcançar milhões de pessoas.

Na eleição, cada eleitor precisa apertar cinco teclas e confirmar o voto.

É ali que a popularidade digital encontra seu verdadeiro teste.

E o teste de 2026 mostrou que Janones ainda tem espaço político, mas perdeu uma parcela expressiva da força eleitoral que havia demonstrado quatro anos antes.

Agora começa outra cobrança

Janones continuará tendo mandato entre 2027 e 2031.

Terá salário, estrutura parlamentar, gabinete, assessores, prerrogativas e poder de voto.

Mas também terá uma cobrança proporcionalmente maior.

Depois de perder mais de 160 mil votos em relação a 2022, o parlamentar terá de mostrar por que ainda merece a confiança daqueles que permaneceram ao seu lado.

A próxima legislatura dirá se sua reeleição representa uma recuperação política ou apenas a sobrevivência de uma liderança que já teve dias eleitorais muito mais fortes.

O recado das urnas

O resultado de André Janones pode ser resumido em uma frase:

perdeu muito, mas não perdeu o mandato.

Caiu de 238.967 para 78.780 votos, mas ainda conseguiu retornar à Câmara.

Depois do protagonismo ao lado de Lula em 2022, da forte presença nas redes sociais e do acordo firmado no caso da “rachadinha”, Janones terá agora mais quatro anos para mostrar ao eleitor mineiro o que pretende fazer com a nova oportunidade.

A política lhe concedeu mais uma chance.

Agora será preciso transformar os 78.780 votos em trabalho parlamentar — porque o eleitor pode até renovar o mandato, mas não é obrigado a renovar a paciência.

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