Laura Cardoso morre aos 98 anos, e bisneto faz homenagem à atriz: “Juntos até o final”

Laura Cardoso morre aos 98 anos, e bisneto faz homenagem à atriz: “Juntos até o final”

Uma das maiores intérpretes da dramaturgia brasileira morreu em São Paulo; Fernando Faria, bisneto que acompanhava de perto sua rotina e ajudava a preservar sua memória, publicou uma despedida marcada por afeto e pela história de uma família ligada à artista

A televisão brasileira perdeu nesta segunda-feira, 17 de agosto de 2026, uma de suas figuras mais longevas e respeitadas. Laura Cardoso morreu aos 98 anos, em São Paulo, por causas naturais, encerrando uma trajetória artística que atravessou mais de oito décadas e diferentes fases da televisão, do rádio, do cinema e do teatro brasileiros. A confirmação da morte foi feita pela família nas redes sociais durante a madrugada desta terça-feira (18).

A despedida ganhou um tom especialmente íntimo por meio do bisneto Fernando Faria, que esteve próximo da atriz nos últimos anos e também ajudava na administração de suas redes sociais. Em uma mensagem publicada após a morte, ele homenageou Laura e resumiu a relação entre os dois com uma frase de forte carga emocional: “Juntos até o final”. A família transformou, assim, a comunicação da perda em um registro de proximidade, carinho e continuidade de uma história que, para além dos estúdios e dos palcos, era também familiar.

Fernando não era apenas um descendente distante de uma artista famosa. Ele acompanhou parte importante da rotina da bisavó e apareceu ao lado dela em momentos públicos e registros especiais. Os dois, inclusive, participaram juntos da vinheta de fim de ano da TV Globo gravada em 2025. Durante a produção, Laura fez questão de pedir ao diretor Adriano Melo que pudesse se levantar e cantar de pé com os demais artistas. A cena acabou ganhando valor simbólico por mostrar uma atriz de 98 anos ainda disposta a participar ativamente daquele ritual televisivo.

A imagem de Laura ao lado do bisneto também fazia parte da narrativa que ela própria construía sobre a velhice. Em vez de tratar a idade como encerramento, a atriz insistia na ideia de continuidade, trabalho e curiosidade. Em entrevista concedida à Folha em 2023, ela dizia que havia amado profundamente a carreira e que ainda tinha coisas a aprender.

Uma carreira que atravessou gerações

Nascida em São Paulo em 1927, Laurinda de Jesus Cardoso, seu nome de batismo, começou a trabalhar artisticamente ainda muito jovem. Aos 15 anos, iniciou sua trajetória no rádio, antes de chegar à televisão e se tornar uma das pioneiras da dramaturgia televisiva brasileira. Sua estreia na TV Tupi aconteceu em 1952, numa época em que a televisão ainda dava os primeiros passos no país e boa parte dos programas era produzida ao vivo.

A experiência acumulada no rádio e no teatro ajudou a formar uma intérprete conhecida pela disciplina, pela força dramática e pela capacidade de construir personagens diferentes entre si. Ao longo da carreira, Laura participou de mais de cem trabalhos na televisão e de dezenas de produções no cinema, além de uma trajetória extensa no teatro. Entre as novelas e obras que marcaram sua carreira estão Mulheres de Areia, A Viagem, Irmãos Coragem, Gabriela e A Dona do Pedaço.

Na TV Globo, onde passou a trabalhar a partir de 1981, consolidou uma das carreiras mais duradouras da história da emissora. Seu último papel em uma novela foi em 2019, mas ela continuou aparecendo em projetos especiais e mantendo uma ligação simbólica com o público. Em 2025, recebeu ainda uma homenagem na Calçada da Fama dos Estúdios Globo.

A atriz também recebeu importantes reconhecimentos, entre eles prêmios no teatro e distinções relacionadas à cultura brasileira. Sua carreira foi construída em uma época em que artistas precisavam transitar entre rádio, palco e televisão para sobreviver profissionalmente, e Laura conseguiu fazer essa passagem sem abandonar o teatro nem perder o vínculo com a televisão popular.

O teatro, o cinema e o respeito dos colegas

Embora tenha ficado especialmente conhecida por novelas, reduzir Laura Cardoso à televisão seria diminuir sua importância artística. A atriz construiu uma carreira sólida também no teatro e no cinema, acumulando prêmios e reconhecimento por trabalhos desenvolvidos fora das telas domésticas. A trajetória inclui dois prêmios Shell de Teatro, participações em mais de 30 filmes e homenagens como o Grande Otelo e a Ordem do Mérito Cultural.

O respeito entre os colegas era uma das marcas de sua carreira. Em material produzido pela TV Globo para o programa Tributo, Dira Paes definiu Laura como uma referência para gerações de atores e afirmou ter aprendido a fazer televisão observando o trabalho da veterana.

Esse reconhecimento também apareceu em retrospectivas e depoimentos de nomes como Fernanda Montenegro, Lima Duarte e Tony Ramos, que destacaram tanto o talento quanto a vitalidade da atriz. No Conversa com Bial, o próprio Fernando apareceu falando sobre a relação com a bisavó, em um momento que emocionou Laura.

A família por trás da artista

A vida pessoal de Laura foi marcada por uma forte ligação com a família. Ela foi casada com Fernando Balleroni, ator e diretor, por mais de três décadas. O marido morreu em 1980. O casal teve três filhos: Fátima Carolina, Fernanda e José. José morreu apenas três dias depois do nascimento, em decorrência de uma incompatibilidade do fator Rh, uma perda que deixou uma marca profunda na vida da atriz.

Laura deixou as filhas Fátima e Fernanda, duas netas e o bisneto Fernando Faria, que se tornou especialmente presente em seus últimos anos. A atriz morava no mesmo prédio que as filhas em São Paulo, mantendo uma convivência familiar próxima.

Por isso, a homenagem de Fernando após a morte ganha dimensão maior. Não se trata apenas da despedida de um familiar diante de uma celebridade, mas da despedida de alguém que acompanhou a mulher por trás da personagem, da artista que envelheceu sem abandonar a profissão e que permaneceu cercada pela família.

Até os últimos anos, Laura continuou ligada à arte

Mesmo longe das novelas desde 2019, Laura não havia abandonado completamente a vida artística. Em 2025, participou do curta-metragem Dona Rosinha e da tradicional produção de fim de ano da Globo. A experiência com a vinheta foi particularmente representativa porque reuniu a atriz e o bisneto em frente às câmeras.

O episódio também ajuda a explicar por que a frase de Fernando — “juntos até o final” — encontrou tanta repercussão. A imagem pública da atriz nos últimos anos era justamente a de uma mulher idosa, mas ainda ligada ao trabalho, à família e às lembranças de uma carreira gigantesca.

Em 2014, Laura havia dito em entrevista ao programa Provocações, da TV Cultura, que gostaria de morrer dormindo e sem depender de aparelhos. Também falou sobre sua visão da morte e sobre uma eventual existência posterior, refletindo sobre um mundo com mais justiça, igualdade e paz.

Uma despedida reservada, mas pública no sentimento

O velório foi realizado nesta terça-feira (18), em São Paulo, em cerimônia reservada a familiares e amigos. Mesmo com a restrição, fãs se reuniram do lado de fora para prestar homenagem. Artistas como Beth Goulart, Bárbara Bruno, Miriam Mehler e Odilon Wagner compareceram à despedida. O encerramento da cerimônia foi acompanhado por aplausos.

A TV Globo também alterou sua programação para homenagear a atriz. A emissora exibiu o especial “Tributo”, produzido anteriormente, revisitando momentos de sua trajetória, amizades, trabalhos e lembranças de infância.

A morte de Laura Cardoso encerra fisicamente uma trajetória, mas não encerra a presença de sua obra. O que fica é uma sucessão de personagens, gestos, vozes e histórias que atravessaram gerações.

E talvez seja justamente por isso que a despedida de Fernando Faria tenha encontrado uma frase tão simples para resumir uma vida tão monumental: juntos até o final. Depois de mais de oito décadas diante das câmeras e dos palcos, Laura Cardoso saiu de cena — mas deixou um arquivo humano e artístico que a televisão brasileira continuará revisitando.

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