Renan Santos acusa Pablo Marçal de entrar na disputa para favorecer Flávio Bolsonaro

Renan Santos acusa Pablo Marçal de entrar na disputa para favorecer Flávio Bolsonaro

Candidato do Missão diz que presença de Marçal na eleição era esperada e vê no empresário uma espécie de “linha auxiliar” do senador do PL; Marçal, por sua vez, afirma que não pretende prejudicar Flávio e quer disputar os debates

A entrada de Pablo Marçal (PRTB) na corrida presidencial de 2026 já provocou uma reação direta de Renan Santos, candidato do partido Missão à Presidência. Em declaração nesta segunda-feira (17), em São Paulo, Renan afirmou que a presença de Marçal na disputa teria como objetivo favorecer o senador Flávio Bolsonaro (PL).

A avaliação foi feita durante uma coletiva de imprensa depois da participação de Renan na 27ª Conferência Anual Santander. Segundo ele, o aparecimento de Marçal neste momento do calendário eleitoral era previsível e serviria para produzir turbulência na disputa.

“Era até esperado que ele fosse aparecer agora e fazer algum tipo de bagunça, e eu acho que esse tipo de coisa era para beneficiar o Flávio”, afirmou Renan Santos.

A tese apresentada pelo candidato do Missão não é apenas uma leitura sobre a candidatura de Marçal. Ela se apoia, segundo Renan, na relação anterior entre os dois personagens: Marçal já trabalhou como consultor de marketing da campanha de Flávio Bolsonaro. A partir dessa ligação, Renan classificou o empresário como uma figura “folclórica” e sugeriu que sua candidatura poderia funcionar, na prática, como uma espécie de apoio indireto ao filho do ex-presidente Jair Bolsonaro.

A candidatura que nasceu sob liminar

A movimentação de Pablo Marçal ocorreu depois de uma decisão judicial que reconheceu, de forma retroativa, sua filiação ao PRTB em 4 de abril, data-limite para cumprir a exigência de vínculo partidário de pelo menos seis meses antes da eleição.

A decisão permitiu que Marçal protocolasse seu pedido de registro de candidatura. Mas há uma diferença fundamental entre registrar uma candidatura e ter a candidatura definitivamente aprovada.

Marçal continua enfrentando uma condenação eleitoral que o tornou inelegível até 2032. O protocolo do registro, portanto, não resolveu a disputa jurídica. Caberá ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) analisar se ele reúne todas as condições necessárias para participar efetivamente da eleição. Até que exista uma decisão definitiva, a candidatura permanece sub judice.

É justamente essa combinação de política, Justiça Eleitoral e exposição pública que torna o movimento de Marçal especialmente relevante. Mesmo contestada juridicamente, sua candidatura já produz efeitos políticos e reorganiza o discurso dos demais concorrentes.

Renan e Marçal disputam o mesmo ambiente digital

Há também uma disputa de linguagem.

Renan Santos e Pablo Marçal têm construído suas campanhas com forte presença nas redes sociais, recorrendo a vídeos curtos, memes, confrontos públicos e discursos de forte impacto emocional. A Folha destacou que os dois utilizam estratégias digitais semelhantes, embora apresentem posições políticas e trajetórias distintas.

A diferença está, principalmente, na tentativa de Renan de se colocar como alternativa dentro do campo da direita sem assumir o papel de simples repetidor do bolsonarismo. Em junho, ele já havia afirmado que não se via como candidato de “terceira via”, mas como alguém capaz de ocupar o espaço que poderia ser deixado por Flávio Bolsonaro.

Por isso, a entrada de Marçal mexe diretamente com o espaço eleitoral que Renan pretende conquistar.

Marçal rebate a leitura de Renan

Pablo Marçal, entretanto, apresentou uma versão diferente da estratégia.

Em entrevista ao Brasil Paralelo, ele afirmou que pretende participar dos debates e disse que não pretende criar problemas para Flávio Bolsonaro. Segundo Marçal, seu objetivo é disputar a eleição e enfrentar o PT, e não atuar para prejudicar o senador.

Marçal também afirmou que deseja interromper o ciclo de vitórias do PT e adotou uma narrativa de confronto com o sistema político tradicional. A estratégia lembra, em parte, a comunicação que marcou sua campanha municipal de 2024, quando construiu grande parte de sua força eleitoral por meio das redes sociais e de confrontos permanentes.

Há, portanto, uma contradição interessante no centro da disputa: Renan enxerga Marçal como uma peça útil a Flávio; Marçal garante que sua candidatura não tem esse propósito.

Flávio Bolsonaro no centro da disputa

A leitura de Renan também revela como Flávio Bolsonaro se transformou em uma das figuras centrais da corrida presidencial antes mesmo de o primeiro turno chegar.

O senador do PL disputa a Presidência enquanto carrega o peso político do sobrenome Bolsonaro e da influência do ex-presidente Jair Bolsonaro. Pesquisas recentes colocam Flávio entre os principais concorrentes de Lula. Uma pesquisa BTG/Nexus citada pela imprensa apontou Lula na liderança do primeiro turno, com 41%, seguido por Flávio Bolsonaro, com 36%; no segundo turno, o cenário aparece apertado.

Nesse ambiente, qualquer candidato competitivo no mesmo campo ideológico pode ser visto como ameaça ou como aliado potencial.

É exatamente essa disputa pelo eleitorado conservador que dá peso à acusação de Renan.

Uma eleição cada vez mais fragmentada

Com Lula, Flávio Bolsonaro, Renan Santos, Pablo Marçal e outros nomes disputando espaço, a eleição de 2026 começa marcada por uma fragmentação significativa.

Marçal agrega um eleitorado construído principalmente em torno da comunicação digital e de sua imagem empresarial. Renan tenta transformar a experiência do movimento político que lidera em uma candidatura nacional. Flávio aposta na força do sobrenome Bolsonaro e na continuidade do eleitorado de direita associado ao ex-presidente.

Nesse jogo, a pergunta central passa a ser menos sobre quem está formalmente na corrida e mais sobre quem retira votos de quem.

A entrada de Marçal, portanto, não precisa necessariamente favorecer Flávio para produzir esse efeito. Basta que retire eleitores de outros candidatos do campo da direita, altere debates, monopolize atenção nas redes e modifique a pauta pública.

É essa possibilidade que está por trás da reação de Renan Santos.

Por enquanto, porém, a acusação continua sendo uma interpretação política do candidato do Missão, e não um fato comprovado de que Pablo Marçal tenha entrado na eleição com a missão de beneficiar Flávio Bolsonaro. Marçal afirma justamente o contrário: quer competir, participar dos debates e disputar sua própria candidatura.

A questão decisiva será saber até onde a candidatura de Marçal consegue avançar juridicamente. Enquanto o TSE não definir seu registro, o empresário permanece numa posição peculiar: está dentro da campanha, mas ainda depende da Justiça Eleitoral para permanecer nela.

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