
Lula defende taxar os ricos e provoca reação: “Virou rebelião”
Durante anúncio de R$ 516,2 bilhões ao agronegócio, presidente critica resistência dos mais ricos à tributação e rebate ataques a programas sociais
Durante o lançamento do Plano Safra 2025/2026 nesta terça-feira (1º), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) voltou a tocar num tema espinhoso: a taxação das grandes fortunas. Segundo ele, ao propor que quem ganha mais de meio milhão pague mais impostos, o governo despertou uma “rebelião” entre os mais ricos.
— Quando a gente diz que quem recebe acima de R$ 500 mil por mês tem que contribuir um pouco mais, logo gera uma revolta — afirmou o presidente, em um discurso que reforçou o tom social de sua gestão.
O evento, realizado em Brasília, marcou a liberação de R$ 516,2 bilhões em crédito para médios e grandes produtores rurais — valor que, segundo o governo, representa um aumento de R$ 8 bilhões em relação ao ciclo anterior. No entanto, ajustado pela inflação, o montante é, na prática, cerca de 4% menor.
Lula aproveitou a ocasião para criticar a narrativa de que programas sociais como o Bolsa Família, o BPC e o Pé-de-Meia seriam os vilões das contas públicas:
— Fico indignado ao ver gente culpando os doentes e os mais pobres pelos problemas do país. O que eles recebem retorna em dobro para a economia. Mas parece difícil fazer certos setores entenderem isso.
Apesar das críticas, Lula buscou apaziguar os ânimos com o setor produtivo, dizendo que a construção de um país exige colaboração entre todos:
— Essa ideia de que o pequeno está contra o grande é uma bobagem. Um depende do outro. O pequeno compra do grande, e quanto mais o pobre tiver dinheiro, mais ele vai consumir o que vocês produzem.
Plano Safra mira reaproximação com o agro
Com a nova edição do Plano Safra, o governo tenta recuperar espaço junto ao agronegócio, historicamente mais próximo do ex-presidente Jair Bolsonaro. A cerimônia teve a presença de ministros como Fernando Haddad (Fazenda), Marina Silva (Meio Ambiente), Carlos Fávaro (Agricultura), Geraldo Alckmin (vice-presidente) e outros.
Entre as mudanças anunciadas, está a exigência do cumprimento do Zoneamento Agrícola de Risco Climático (Zarc) para concessão de crédito rural, o que antes valia apenas para pequenos produtores com acesso ao Proagro.
Carlos Fávaro, titular da Agricultura, rebateu críticas sobre a queda real nos valores do plano:
— Mais importante que o aumento de R$ 8 bilhões é onde esse dinheiro será investido. O direcionamento atende pleitos específicos das entidades do setor.
Alvo da vez: a Selic
Durante o evento, Fávaro também criticou a taxa básica de juros, atualmente em 15% ao ano. Ele citou o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, para demonstrar insatisfação:
— Com todo o respeito à equipe do BC, é difícil entender essa Selic tão alta com a inflação controlada e a economia crescendo.
Lula saiu em defesa de Galípolo, afirmando que ele apenas herdou decisões anteriores:
— Ele ainda nem teve tempo de trocar o cardápio, está comendo o que serviram. Mas vai mudar. A inflação está caindo, o dólar também. Só falta a ajuda de vocês para reduzir o preço da carne — disse, dirigindo-se aos produtores.
Fernando Haddad reforçou que o governo está atuando para conter a alta dos alimentos, embora o cenário internacional e o impacto do clima ainda representem desafios.
Conflito com o Congresso esquenta
O evento também aconteceu em meio a uma escalada de tensão entre o governo federal e o Congresso. Pouco antes da cerimônia, a AGU (Advocacia-Geral da União) anunciou uma ação no STF contra a derrubada de dois decretos que aumentavam o IOF. A decisão do Legislativo foi interpretada pelo governo como uma interferência indevida entre os Poderes.
O clima político contribuiu para a ausência de parlamentares no evento. A Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), que inicialmente alegou não ter sido convidada, depois reconheceu que houve convite — mas decidiu não comparecer.
Na véspera, Lula havia lançado também o Plano Safra da Agricultura Familiar 2025/2026, com R$ 89 bilhões destinados aos pequenos produtores.