
Lula liga para Flávio Dino durante evento no Pará e provoca questionamentos sobre relação com ministro do STF
Presidente telefonou ao ministro durante cerimônia de sanção de projeto apresentado por Dino quando ainda era senador; gesto foi criticado por Flávio Bolsonaro
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) telefonou ao ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), durante um evento oficial em Belém, no Pará, na segunda-feira (28). A ligação ocorreu pouco antes de Lula sancionar um projeto apresentado por Dino quando ele ainda exercia mandato no Senado. O episódio ganhou repercussão política e provocou críticas do senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL).

Diante das câmeras, Lula pediu que o telefone fosse colocado no viva-voz e chamou o ministro. O presidente explicou que estava no Hospital Beneficente Portuguesa e que iria sancionar o projeto relacionado à avaliação da qualidade dos serviços de saúde privados. Em seguida, afirmou que não queria realizar a sanção sem antes falar com Dino.
Lula também pediu que o ministro desse um recado ao público paraense e explicasse o significado da proposta. No entanto, a ligação caiu antes que Dino pudesse participar da transmissão. O áudio disponível registra principalmente a fala do presidente, sem permitir ouvir claramente a resposta do ministro.
O projeto foi apresentado por Dino em 2024, após a morte de seu filho, Marcelo Dino, aos 13 anos, em 2012, depois de uma crise de asma. A proposta cria uma estratégia nacional para estabelecer critérios e mecanismos de avaliação da qualidade da assistência prestada pela iniciativa privada na área da saúde. As regras também alcançam estabelecimentos públicos, segundo informações divulgadas sobre a legislação.
A proximidade política entre Lula e Dino é conhecida: o atual ministro do STF foi indicado por Lula para a Corte em 2023, depois de ter exercido os cargos de deputado federal, governador do Maranhão e senador. A ligação pública durante uma cerimônia oficial, entretanto, abriu novo debate sobre a relação entre o presidente e um integrante da Suprema Corte.
Foi justamente nesse ponto que Flávio Bolsonaro concentrou sua crítica. Em publicação nas redes sociais, o senador questionou se Dino “continua sendo subordinado do Lula no STF”, ao afirmar que o ministro teria sido tratado pelo presidente como alguém subordinado ao governo.
A crítica de Flávio Bolsonaro é uma interpretação política do episódio, e a ligação, por si só, não comprova subordinação institucional do ministro ao presidente. Ministros do STF possuem independência funcional em relação ao Poder Executivo. Ainda assim, a cena pública alimentou questionamentos sobre a percepção de independência e sobre os limites da proximidade entre autoridades de Poderes distintos.
O episódio também ocorre em um momento de forte tensão política envolvendo decisões do STF e do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), inclusive processos e decisões que atingem diretamente aliados e adversários políticos do governo. A repercussão, portanto, ultrapassou a simples sanção da nova legislação sobre qualidade dos serviços de saúde.
Críticas e repúdio ao gesto
A controvérsia está menos no conteúdo da lei sancionada e mais na forma como Lula decidiu conduzir a cerimônia, fazendo uma ligação pública para um ministro da Suprema Corte e pedindo que ele participasse do evento. Para críticos do governo, o gesto reforça a percepção de proximidade política entre o presidente e Dino e levanta questionamentos que merecem ser respondidos de forma transparente.
A situação ganha ainda mais relevância porque Dino foi indicado ao STF pelo próprio Lula. A relação anterior entre os dois é um fato documentado; já a conclusão de que essa relação representa subordinação institucional é uma acusação política feita por críticos e não uma conclusão estabelecida pelos fatos disponíveis.
O ponto central do episódio
O caso coloca novamente em discussão a necessidade de distinção clara entre relações pessoais, relações políticas anteriores e a atuação institucional de um ministro do Supremo. A independência do Judiciário depende não apenas das decisões tomadas, mas também da confiança pública de que seus integrantes atuam sem interferência externa.
A ligação de Lula para Dino não demonstra, isoladamente, que o ministro seja subordinado ao presidente. Mas a exposição pública da proximidade entre os dois fornece combustível para críticas políticas e para o debate sobre a aparência de independência de integrantes da Suprema Corte.
O episódio, portanto, deixa uma pergunta política que continuará sendo explorada durante a campanha eleitoral: até onde deve ir a proximidade pública entre o presidente da República e um ministro do STF que foi indicado por ele?