
Lula se irrita com “nove dedos”, mas chama Flávio Bolsonaro de “miliciano”: dois pesos e duas medidas?
No último debate da Globo antes do segundo turno, Flávio Bolsonaro pediu desculpas a Lula após ironizar a amputação sofrida pelo presidente em um acidente de trabalho. Lula, por sua vez, chamou o adversário de “miliciano”, elevando a temperatura do confronto.
O debate presidencial da TV Globo, realizado em 23 de outubro, foi marcado por ataques pessoais. Ao criticar a política econômica de Lula, Flávio Bolsonaro afirmou que o presidente “dá com uma mão e tira com nove dedos”, fazendo referência à perda do dedo mínimo da mão esquerda de Lula, em um acidente de trabalho quando ele tinha 17 anos. O petista reagiu, exigiu desculpas e chamou Flávio de “miliciano”.
Pressionado pela reação do presidente, Flávio pediu desculpas: “Se eu te ofendi porque te chamei de nove dedos, eu te peço desculpa de verdade. Não queria te ofender”.
A questão que merece crítica é a aparente contradição no tratamento dos ataques pessoais. Lula demonstrou indignação ao ser alvo de uma provocação sobre sua deficiência, mas também recorreu a um rótulo grave contra o adversário. Se o respeito deve prevalecer no debate público, esse princípio precisa valer para os dois lados.
É legítimo criticar o presidente, suas decisões e sua política econômica. Da mesma forma, Flávio deve responder por suas propostas e declarações. Mas zombar de uma sequela física decorrente de um acidente de trabalho ultrapassa a crítica política e merece reprovação. O pedido de desculpas foi, portanto, uma atitude importante.
Por outro lado, chamar alguém de “miliciano” também não deve ser tratado como simples argumento eleitoral: é uma expressão grave, que exige responsabilidade e contexto. A crítica a Lula não significa justificar a provocação de Flávio, assim como reprovar a fala do senador não torna aceitável qualquer ataque do presidente.
O eleitor tem o direito de cobrar coerência dos dois candidatos. Não é razoável exigir respeito quando se é atacado e abandonar esse princípio ao atacar o adversário. Em uma eleição presidencial, propostas, resultados e fatos deveriam ter mais peso do que apelidos, provocações e ofensas. O Brasil precisa de debate firme, mas também de responsabilidade, respeito e igualdade de critérios — independentemente de quem esteja falando.