
Lula tenta minimizar impacto de possível tarifaço dos EUA enquanto governo intensifica negociações com Washington
Presidente afirma que não acredita em novas tarifas sobre produtos brasileiros, mas integrantes do Planalto admitem internamente que sobretaxa de 25% é hoje o cenário mais provável; indústria alerta que mais de 4 mil produtos podem ser atingidos e defende solução negociada
O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) entrou na semana mais decisiva das negociações comerciais com os Estados Unidos tentando evitar uma nova rodada de tarifas sobre produtos brasileiros. Às vésperas da decisão do governo norte-americano, Lula adotou um discurso otimista e afirmou que não acredita na imposição de novas taxas, embora o cenário seja tratado com preocupação dentro do próprio Palácio do Planalto.
Durante evento realizado em São José dos Campos (SP), onde participou do lançamento de uma turbina movida a etanol, o presidente declarou que não espera a confirmação das medidas anunciadas por Washington.
“Não vai ter tarifaço”, afirmou Lula ao ser questionado sobre a possibilidade de aumento das tarifas norte-americanas.
A declaração foi feita poucos dias antes do prazo estabelecido pelos Estados Unidos para concluir as investigações comerciais que podem resultar na aplicação de uma sobretaxa de até 25% sobre produtos brasileiros, além de outras medidas já em análise.
Governo mantém discurso otimista, mas cenário interno preocupa
Apesar da confiança demonstrada publicamente por Lula, integrantes do governo admitem reservadamente que a possibilidade de novas sanções comerciais aumentou significativamente nas últimas semanas.
Segundo interlocutores do Planalto, a aplicação de uma tarifa adicional de 25% passou a ser considerada o cenário mais provável, embora a orientação presidencial continue sendo esgotar todas as possibilidades de negociação diplomática antes da decisão final dos Estados Unidos.
Na última sexta-feira, Lula reuniu ministros para discutir os desdobramentos das tratativas com Washington. Participaram do encontro o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, e o ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa.
Durante a reunião, o presidente reconheceu que os sinais emitidos pelo governo de Donald Trump indicam uma elevada possibilidade de endurecimento da política comercial contra o Brasil. Mesmo assim, determinou que a equipe mantenha as negociações até o último momento.
Brasil busca acordo antes do prazo final
A estratégia do governo brasileiro continua baseada no diálogo diplomático.
O Planalto tenta viabilizar uma nova reunião com o representante comercial dos Estados Unidos (USTR), Jamieson Greer, antes da divulgação da decisão oficial.
Desde o encontro entre Lula e Donald Trump, realizado na Casa Branca em maio, representantes brasileiros já participaram de quatro reuniões com Greer para discutir as medidas tarifárias e buscar alternativas que evitem uma escalada das tensões comerciais.
Caso as tarifas sejam confirmadas, o governo pretende analisar cuidadosamente o alcance das medidas, negociar exceções para determinados setores e avaliar eventuais respostas com base na Lei da Reciprocidade Econômica.
A definição da estratégia brasileira dependerá da lista final de produtos atingidos e do percentual efetivamente aplicado.
CNI alerta para impacto sobre mais de 4 mil produtos
Enquanto o governo aposta na negociação, o setor produtivo demonstra crescente preocupação.
Levantamento da Confederação Nacional da Indústria (CNI) indica que 4.187 produtos brasileiros, responsáveis por cerca de US$ 14,9 bilhões em exportações, poderão ser afetados caso todas as tarifas em discussão sejam implementadas.
Segundo a entidade, a carga tributária poderá alcançar até 37,5%, resultado da soma de três medidas:
- tarifa temporária de 10% já em vigor;
- sobretaxa específica de 25% voltada às exportações brasileiras;
- tarifa adicional de 12,5% relacionada à investigação sobre trabalho forçado.
Na prática, a tributação aumentaria 27,5 pontos percentuais sobre milhares de produtos exportados pelo Brasil.
Indústria dos EUA também pode ser prejudicada
A CNI ressalta que os impactos não seriam restritos aos exportadores brasileiros.
De acordo com a entidade, aproximadamente 62% dos produtos potencialmente atingidos são bens intermediários utilizados como insumos pela indústria norte-americana.
O presidente da CNI, Ricardo Alban, afirma que substituir esses produtos é mais complexo do que trocar commodities agrícolas, pois muitos deles possuem especificações técnicas desenvolvidas para atender às necessidades da indústria dos Estados Unidos.
Segundo Alban, o aumento das tarifas tende a elevar custos para fabricantes norte-americanos, afetando empresas e consumidores dos dois países.
“O impacto não recai apenas sobre o Brasil. Também aumenta os custos para quem importa esses produtos nos Estados Unidos”, tem defendido o dirigente.
Especialistas apontam desgaste nas relações bilaterais
Para analistas, a disputa comercial ultrapassa a esfera econômica.
O cientista político Márcio Coimbra avalia que o impasse reflete um processo mais amplo de deterioração das relações entre Brasil e Estados Unidos.
Segundo ele, divergências envolvendo propriedade intelectual, segurança jurídica no comércio digital, combate à corrupção e questões geopolíticas dificultaram o avanço das negociações e contribuíram para o atual ambiente de tensão diplomática.
Setor privado tenta evitar escalada
Na tentativa de preservar a relação comercial entre os dois países, a Confederação Nacional da Indústria, a Câmara Americana de Comércio para o Brasil (AmCham Brasil) e a US Chamber of Commerce encaminharam uma carta conjunta aos governos brasileiro e norte-americano.
O documento defende a construção de um acordo negociado que reduza as tensões e preserve a integração econômica entre as duas maiores economias do continente.
O Ministério das Relações Exteriores confirmou ter recebido as sugestões do setor privado e reiterou que permanece empenhado no diálogo com as autoridades norte-americanas em busca de uma solução diplomática.
Semana decisiva para Brasil e Estados Unidos
Com a decisão norte-americana prevista para os próximos dias, o governo Lula trabalha em duas frentes simultaneamente: publicamente transmite confiança de que um entendimento ainda é possível, enquanto internamente prepara cenários para responder caso as novas tarifas sejam confirmadas.
Ao mesmo tempo, empresários, exportadores e representantes da indústria acompanham as negociações com preocupação, diante da possibilidade de que milhares de produtos brasileiros enfrentem uma das maiores elevações tarifárias dos últimos anos, com reflexos tanto para a economia nacional quanto para cadeias produtivas dos próprios Estados Unidos.