
Lula volta a atacar Trump e diz que presidente americano fala como se estivesse ameaçando o mundo
Em evento de campanha no Rio de Janeiro, Lula comparou seu discurso na ONU ao de Donald Trump e afirmou que pretende “ganhar na narrativa”; declaração amplia o embate entre os dois presidentes em meio às tensões entre Brasil e Estados Unidos.
Resumo: O presidente Luiz Inácio Lula da Silva voltou a criticar Donald Trump durante uma agenda de campanha no Rio de Janeiro. Ao comentar os discursos dos dois presidentes na Assembleia Geral da ONU, Lula afirmou que Trump fala sobre o poder militar dos Estados Unidos “como se estivesse ameaçando todo mundo”. Lula disse ainda que não pretende fazer uma guerra contra o presidente americano, mas “ganhar na narrativa”. A declaração ocorre depois de uma série de atritos diplomáticos entre Brasília e Washington envolvendo soberania, combate ao crime organizado, eleições brasileiras e a atuação dos Estados Unidos na América Latina.
Lula transforma Trump novamente em alvo de seu discurso
Lula voltou a colocar Donald Trump no centro de sua fala durante um evento realizado no Rio de Janeiro, na noite de 23 de setembro.
O presidente brasileiro afirmou que não pretende entrar em uma disputa militar com os Estados Unidos, mas apresentou o confronto como uma disputa de narrativas.
“Eu não quero fazer guerra com ele, quero ganhar na narrativa.”
Na sequência, Lula criticou a forma como Trump costuma apresentar o poder militar americano em seus discursos.
“Como se tivesse ameaçando todo mundo.”
O comentário ocorreu durante uma agenda com artistas e lideranças políticas no Rio, em um momento em que Lula vem intensificando atividades eleitorais.
A própria expressão utilizada pelo presidente — “ganhar na narrativa” — mostra que a fala não ficou restrita à política externa. Ela foi apresentada dentro de uma agenda política e eleitoral, na qual Lula procurou contrastar sua visão de mundo com a de Trump.
O vídeo e a fala de Lula
No vídeo divulgado nas redes sociais, Lula estabelece uma comparação direta entre os discursos apresentados na ONU.
Ele afirma que o mais importante não seria apenas observar o conteúdo de sua própria fala, mas comparar seu pronunciamento com o de Trump.
Segundo Lula, enquanto ele apresentou uma defesa do diálogo e da soberania, Trump teria iniciado sua exposição ressaltando a dimensão militar e tecnológica dos Estados Unidos.
O presidente brasileiro mencionou, entre outros elementos, o tamanho do Exército, da Marinha, dos foguetes e das bombas americanas.
A partir dessa comparação, Lula concluiu que Trump faria esse tipo de afirmação “como se estivesse ameaçando todo mundo”.
O que Trump disse na ONU
A comparação feita por Lula ocorreu depois dos discursos dos dois presidentes na Assembleia Geral das Nações Unidas.
Lula foi o primeiro chefe de Estado a falar, seguindo a tradição brasileira na abertura da Assembleia Geral. Trump discursou posteriormente.
No discurso brasileiro, Lula enfatizou soberania, diplomacia, cooperação internacional e oposição à interferência externa.
Ele afirmou que “o Brasil não cabe no quintal de ninguém” e defendeu relações internacionais baseadas em uma “agenda positiva”. Também criticou a presença militar estrangeira na região e afirmou que não seriam necessários “porta-aviões” para vigiar as águas brasileiras.
Trump, por sua vez, destacou a força militar e econômica dos Estados Unidos e tratou de temas relacionados à segurança, comércio e política internacional.
Foi esse contraste que Lula voltou a explorar no evento do Rio.
A crítica de Lula e o contexto eleitoral
Existe, porém, um elemento político importante no episódio.
Lula não fez a declaração em uma reunião diplomática fechada ou em um pronunciamento exclusivamente institucional. Ele estava em uma agenda de campanha com artistas no Rio de Janeiro.
Entre os participantes estavam nomes como Chico Buarque, Daniela Mercury, Lulu Santos, Paulinho da Viola, Tony Bellotto, Zeca Pagodinho, Malu Mader, Marieta Severo e Ciça Guimarães. A ministra da Cultura, Margareth Menezes, e a primeira-dama Janja também participaram do encontro.
Por isso, a discussão sobre Trump acabou integrada à disputa política brasileira.
O próprio Lula utilizou a expressão “estamos ganhando na narrativa”, transformando a comparação internacional em argumento político diante de seu público.
A sequência de críticas a Trump
A declaração não é isolada.
Nos últimos dias, Lula voltou repetidamente ao presidente americano.
Em entrevista à CNN, Lula chegou a chamar Trump de “imperador”, termo que já havia utilizado anteriormente.
O presidente brasileiro também afirmou que Trump deveria governar os Estados Unidos sem tentar exercer influência sobre outros países.
Ao mesmo tempo, Lula disse ter conversado com Trump sobre as eleições brasileiras e afirmou que o presidente americano teria garantido que não pretende interferir no pleito de outubro.
Lula declarou que considera positivo que os Estados Unidos não interfiram nas eleições brasileiras e disse esperar o mesmo comportamento de outros governos.
A questão da soberania brasileira
A discussão também está relacionada à política de segurança na América Latina.
O governo Trump vem pressionando o Brasil para adotar medidas mais duras contra organizações criminosas brasileiras, especialmente PCC e Comando Vermelho.
Nesta quarta-feira, a porta-voz do Departamento de Estado americano, Amanda Roberson, afirmou à CNN que os Estados Unidos consideram que o Brasil ainda não enfrentou suficientemente essas organizações e defenderam ações mais agressivas.
O governo brasileiro, por outro lado, afirma que já existe cooperação com os Estados Unidos no combate ao crime organizado, mas rejeita iniciativas que possam representar interferência externa em assuntos considerados de soberania nacional.
Esse é um dos principais pontos de tensão entre Brasília e Washington atualmente.
Lula diz que prefere diálogo às armas
Depois da repercussão de suas declarações, Lula reforçou a ideia de que o Brasil não pretende disputar poder militar com os Estados Unidos.
Em publicação nas redes sociais, o presidente afirmou que não quer disputar quem possui mais armas, foguetes ou bombas e defendeu que o Brasil apresente ao mundo a força da palavra, do diálogo e da soberania.
A posição está alinhada ao argumento utilizado por Lula na ONU: o Brasil deve buscar cooperação internacional e evitar que diferenças políticas ou ideológicas resultem em confrontos.
A crítica que surge da própria fala
O ponto mais controverso da declaração está na transformação de uma questão diplomática em uma espécie de disputa pública de narrativa.
Ao afirmar que quer “ganhar” de Trump na narrativa, Lula deixa evidente que também está preocupado com a dimensão política e comunicacional do confronto.
Isso pode ser interpretado como uma estratégia para apresentar o Brasil como defensor do diálogo diante de uma potência militar. Mas também abre espaço para questionamentos sobre até que ponto um presidente em campanha deve utilizar um conflito diplomático internacional como componente de sua comunicação eleitoral.
A questão é especialmente relevante porque Lula acumula simultaneamente as funções de presidente da República e candidato à reeleição.
Trump também está inserido na disputa política brasileira
A presença de Trump no debate eleitoral brasileiro não ocorre apenas por iniciativa de Lula.
O presidente americano também se tornou uma referência importante para setores da direita brasileira e para aliados de Jair Bolsonaro.
Trump já declarou apoio a Jair Bolsonaro e fez críticas públicas a decisões relacionadas ao ex-presidente brasileiro. O cenário transformou a relação entre Brasil e Estados Unidos em um tema com repercussões diretas na política doméstica.
Assim, quando Lula critica Trump, a declaração possui também uma dimensão eleitoral no Brasil.
É justamente por isso que a fala precisa ser analisada em seus dois aspectos: política externa e comunicação eleitoral.
A posição do governo brasileiro
O governo Lula sustenta que a política externa brasileira deve defender a soberania nacional e buscar cooperação sem submissão a qualquer potência.
Na ONU, Lula afirmou que diferenças ideológicas não deveriam impedir a integração entre países e defendeu uma agenda de cooperação para enfrentar problemas como crime organizado, mudanças climáticas e desenvolvimento.
Ao mesmo tempo, o governo rejeita a ideia de presença militar americana para combater organizações criminosas dentro da América Latina.
O que está por trás do conflito
O episódio envolve mais do que uma simples troca de críticas entre Lula e Trump.
Há pelo menos quatro questões simultâneas:
1. Soberania: Lula rejeita interferência externa em decisões brasileiras.
2. Segurança: Estados Unidos pressionam por medidas mais duras contra PCC e Comando Vermelho.
3. Eleições: Lula afirma que não quer interferência americana no processo eleitoral brasileiro.
4. Narrativa política: o presidente brasileiro utiliza o contraste com Trump para apresentar sua própria visão de política externa ao eleitorado.
Esses quatro elementos explicam por que o nome de Trump voltou a ocupar espaço central nos discursos de Lula.
Partes envolvidas
Luiz Inácio Lula da Silva: presidente do Brasil e candidato à reeleição.
Donald Trump: presidente dos Estados Unidos.
Governo brasileiro: responsável pela política externa e pelas negociações com Washington.
Governo dos Estados Unidos: vem pressionando o Brasil em relação ao combate ao crime organizado e mantém divergências com Brasília sobre soberania e política regional.
PCC e Comando Vermelho: organizações criminosas brasileiras que passaram a ocupar espaço importante nas discussões de segurança entre Brasil e Estados Unidos.
ONU: palco dos discursos de Lula e Trump que deram origem à nova comparação feita pelo presidente brasileiro.
Eleitorado brasileiro: destinatário indireto da disputa narrativa, especialmente porque as declarações ocorreram durante a campanha eleitoral.
Conclusão
A nova declaração de Lula amplia uma sequência de críticas dirigidas a Donald Trump.
O presidente brasileiro classificou o discurso americano como excessivamente baseado na demonstração de força e afirmou que Trump fala “como se estivesse ameaçando todo mundo”. Em contraste, Lula apresentou sua própria estratégia como baseada no diálogo, na soberania e na diplomacia.
O aspecto político da declaração, entretanto, é evidente: o comentário ocorreu durante uma agenda de campanha no Rio de Janeiro e foi acompanhado da afirmação de que Lula pretende “ganhar na narrativa”.
A discussão, portanto, ultrapassa a relação pessoal entre dois presidentes. Ela envolve soberania nacional, segurança pública, combate ao crime organizado, relações Brasil–Estados Unidos e a própria disputa política brasileira de 2026.
O desafio para o debate público é separar as divergências legítimas de política externa da utilização eleitoral dessas divergências, permitindo que o eleitor avalie as posições de cada governo a partir dos fatos e das consequências concretas das políticas defendidas.