
Mendonça barra viagens ao exterior de enteado de Jaques Wagner e do pai por risco de fuga
PGR apontou possibilidade de evasão durante as investigações do caso Banco Master; ministro do STF manteve restrições e negou pedidos para saída do país
O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), negou pedidos para que Eduardo Mendonça Sodré Martins, enteado do senador Jaques Wagner (PT-BA), e seu pai, Guilherme Henrique Sodré Martins, pudessem viajar ao exterior. A decisão ocorreu após manifestação da Procuradoria-Geral da República (PGR), que apontou risco de eventual evasão dos investigados e defendeu a manutenção das restrições.
A medida está relacionada às investigações envolvendo o Banco Master, o empresário Daniel Vorcaro e o ex-sócio dele Augusto Ferreira Lima. Mendonça é o relator do caso no STF e já havia determinado medidas de busca e apreensão e outras cautelares contra pessoas ligadas à investigação.
Viagem de Guilherme Sodré
Guilherme Henrique Sodré Martins havia pedido autorização para viajar à Itália entre 3 e 13 de setembro de 2026. O roteiro incluía Veneza, Florença e Roma.
Segundo a defesa, a viagem tinha finalidade profissional e cultural. Guilherme participaria da 61ª Bienal de Veneza, integrando a instalação “Juntó”, do artista Ayrson Heráclito, com uma obra pertencente à sua coleção pessoal.
Os advogados argumentaram que ele não apresentaria risco de fuga e destacaram, entre outros pontos, sua residência fixa, patrimônio, atividades profissionais no Brasil e seu casamento com a desembargadora Maria de Lourdes Pinho Medauar, do Tribunal de Justiça da Bahia. O casal se casou em dezembro de 2025.
A PGR, entretanto, defendeu que o passaporte continuasse suspenso e que permanecesse proibida a saída do território nacional. Para o Ministério Público, diante do estágio das investigações, havia necessidade de preservar a possibilidade de cumprimento das medidas judiciais e evitar eventual evasão.
Mendonça acolheu o entendimento e manteve a proibição.
Eduardo Sodré também teve pedido negado
A mesma decisão atingiu Eduardo Mendonça Sodré Martins, que também havia solicitado autorização para viagens internacionais previstas entre agosto e outubro.
A defesa afirmou que parte dos deslocamentos teria caráter institucional, relacionado às atividades exercidas por Eduardo como secretário de Meio Ambiente do Estado da Bahia, cargo que ocupa desde janeiro de 2023 no governo de Jerônimo Rodrigues (PT).
A PGR considerou, porém, que as condições financeiras de Eduardo poderiam facilitar uma eventual permanência fora do Brasil e dificultar o avanço das investigações. Por esse motivo, manifestou-se contra a flexibilização das cautelares. Mendonça decidiu manter a restrição.
Por que os dois estão sendo investigados?
As restrições fazem parte de um conjunto de medidas relacionadas à 9ª fase da Operação Compliance Zero, que investiga suspeitas envolvendo o Banco Master.
A Polícia Federal identificou relações financeiras e empresariais entre pessoas próximas ao núcleo familiar de Jaques Wagner e empresas relacionadas a Augusto Lima e ao Banco Master.
Um dos pontos citados nas investigações é uma transferência de aproximadamente R$ 3,5 milhões, realizada em outubro de 2025, entre a PKL One Participações, ligada a pessoas do círculo empresarial de Augusto Lima, e a BN Financeira, apontada na investigação como vinculada ao entorno familiar de Wagner. A decisão de Mendonça classificou a empresa como elemento central no eixo dos pagamentos investigados.
A PF também encontrou conversas nas quais Eduardo Sodré tratava com Augusto Lima de pagamentos, documentos fiscais e despesas. Em uma das mensagens, Eduardo menciona que os “boletos” eram altos. Segundo a investigação, os diálogos ocorreram em período próximo à reprovação, pelo Banco Central, da tentativa de venda do Banco Master ao BRB.
Outros elementos citados pela investigação
O caso também envolve alegações sobre benefícios e relações entre integrantes do grupo empresarial ligado ao Master e pessoas próximas a Wagner.
Entre os elementos mencionados nos autos estão:
- suposto pagamento de R$ 3,5 milhões relacionado ao núcleo familiar;
- investigação sobre empresas ligadas a familiares de Wagner;
- referências a um apartamento em Salvador avaliado em aproximadamente R$ 2,5 milhões;
- viagens em aeronaves ligadas a Augusto Lima;
- ingressos para um show em Los Angeles;
- mensagens relacionadas a pagamentos e obrigações financeiras;
- suspeitas investigadas pela PF de corrupção passiva, corrupção ativa e lavagem de dinheiro.
É importante destacar que esses elementos fazem parte de uma investigação, e a existência de relações empresariais, pagamentos ou benefícios mencionados nos autos não significa, por si só, que os envolvidos tenham cometido crimes. A apuração ainda precisa estabelecer origem, finalidade, beneficiários e eventual ilicitude dos valores.
O caso também alcançou Jaques Wagner
Jaques Wagner foi alvo de medidas judiciais na investigação do Banco Master. Em junho, a Polícia Federal realizou buscas relacionadas ao senador, e Mendonça determinou restrições sobre bens e movimentações.
Entre os episódios está a interrupção da transferência de um terreno avaliado em aproximadamente R$ 15,8 milhões, cuja negociação, segundo a defesa, havia começado antes da investigação. O imóvel seria vendido à Lagoons Empreendimentos, empresa que tem participação do City Football Group, grupo responsável pela gestão do Esporte Clube Bahia. A defesa de Wagner afirmou que a negociação havia sido iniciada em 2024 e formalizada em 2025, negando irregularidades.
A PF também apreendeu valores em endereços relacionados ao senador. A defesa sustentou que os recursos tinham origem lícita e comprovada, incluindo valores relacionados a diárias oficiais e operações bancárias regulares.
Defesas negam irregularidades
Jaques Wagner nega envolvimento em irregularidades relacionadas ao Banco Master e já afirmou que não participou de negociações destinadas a beneficiar a instituição.
O presidente nacional do PT, Edinho Silva, declarou apoio a Wagner e defendeu que todas as suspeitas sejam investigadas, afirmando que o senador teria condições de esclarecer os fatos.
A defesa de Augusto Lima também negou irregularidades e afirmou que o empresário sempre esteve à disposição das autoridades para esclarecer os fatos.
No caso das viagens, as defesas de Eduardo e Guilherme sustentaram que ambos possuem vínculos profissionais e patrimoniais no Brasil e que os deslocamentos tinham finalidades legítimas.
A decisão de André Mendonça, contudo, manteve as cautelares diante da manifestação da PGR e do entendimento de que, neste momento da investigação, a saída do país poderia representar risco à efetividade das apurações.
Assim, Eduardo Sodré e Guilherme Sodré permanecem impedidos de deixar o Brasil, enquanto continuam as investigações sobre as relações financeiras e empresariais que levaram a PF e o STF a incluir pessoas do entorno de Jaques Wagner no caso Banco Master.