
Mensagens da PF expõem relação de proximidade entre Hugo Motta e Daniel Vorcaro em negócios, viagens e contatos políticos
Diálogos extraídos do celular de Daniel Vorcaro mostram Hugo Motta tratando de sociedade em negócio de R$ 45 milhões, empréstimo de R$ 22 milhões, uso de mansão, viagens, camarotes e assuntos ligados ao Congresso; presidente da Câmara nega irregularidades
Mensagens extraídas pela Polícia Federal do celular de Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, revelam uma relação próxima entre o empresário e Hugo Motta (Republicanos-PB), presidente da Câmara dos Deputados. Os diálogos, segundo reportagens baseadas no material apreendido, mostram conversas sobre negócios milionários, uma possível sociedade, empréstimo bancário envolvendo uma empresa ligada à família de Motta, hospedagens em imóveis de Vorcaro, viagens, camarotes de Carnaval, assuntos legislativos e contatos frequentes.
Entre março de 2024 e outubro de 2025, Motta e Vorcaro tiveram pelo menos 19 encontros e cerca de 100 telefonemas, além de mais de uma centena de chamadas não concluídas, segundo levantamento divulgado pela CNN a partir dos dados obtidos pela PF. Nas conversas, os dois utilizavam repetidamente o tratamento de “irmão”, termo que aparece cerca de 150 vezes nos diálogos analisados pela reportagem.
A dimensão da relação ganhou destaque porque Vorcaro não era apenas um empresário com trânsito em Brasília. Ele comandava o Banco Master e posteriormente passou a ser alvo de investigações relacionadas às operações da instituição. Por isso, os registros que mostram contatos frequentes com autoridades políticas passaram a ser examinados dentro do contexto das investigações.
A frase sobre Mônaco
Entre as mensagens divulgadas está uma conversa que evidencia o grau de proximidade pessoal entre os dois. Em determinado diálogo, Motta escreveu a Vorcaro: “Queria estar mesmo era em Mônaco com você”.
A frase aparece em meio a conversas sobre viagens e encontros e foi utilizada nas reportagens para demonstrar a intimidade existente entre o presidente da Câmara e o empresário. Os diálogos também registram pedidos de carona em aeronaves de Vorcaro e outras facilidades relacionadas a viagens.
Em uma ocasião, Motta perguntou se Vorcaro iria a um casamento no exterior e solicitou a possibilidade de retornar ao Brasil no avião do empresário. O banqueiro perguntou quando o deputado precisaria voltar, e Motta respondeu que poderia acompanhar a data do retorno de Vorcaro.
Cinco ingressos para o Carnaval
A relação também envolvia pedidos de natureza pessoal.
Em março de 2025, quando já ocupava a Presidência da Câmara, Hugo Motta pediu a Vorcaro cinco ingressos para um camarote no Carnaval do Rio de Janeiro. As mensagens fazem parte do conjunto de diálogos recuperados pela PF.
O material também registra pedidos de carona em avião em pelo menos duas oportunidades e outro pedido envolvendo helicóptero.
Esses episódios, isoladamente, não demonstram crime, mas ajudam a dimensionar o nível de proximidade que aparece nas conversas entre um dos principais empresários do sistema financeiro e o presidente da Câmara dos Deputados.
O negócio de R$ 45 milhões e a “sociedade”
Um dos pontos mais relevantes das mensagens envolve um terreno em João Pessoa, na Paraíba.
A área, com aproximadamente 400 hectares, teria sido adquirida por cerca de R$ 45 milhões. As conversas mostram Motta tratando diretamente com Vorcaro sobre a operação e mencionando um “formato de sociedade” que teria sido combinado entre os dois.
A empresa envolvida na negociação foi transferida para o nome da cunhada de Motta. O Banco Master também concedeu um empréstimo de aproximadamente R$ 22 milhões à empresa ligada à operação.
Em uma das conversas, Motta trata com Vorcaro sobre a documentação e a transferência da empresa. O empresário responde sobre a realização da operação e os dois combinam que a questão societária seria resolvida posteriormente.
O episódio passou a ser um dos principais pontos de questionamento porque envolve, ao mesmo tempo, uma operação privada de grande valor, uma instituição financeira posteriormente investigada e uma pessoa ligada à família do presidente da Câmara.
O empréstimo de R$ 22 milhões
Segundo as informações divulgadas a partir dos documentos analisados, o empréstimo do Banco Master para a empresa ligada à cunhada de Motta ocorreu em março de 2024.
A operação teria sido tratada diretamente por Hugo Motta com Vorcaro. O parlamentar, por sua vez, afirma que se tratou de um contrato privado realizado entre uma empresa privada e um banco privado, em período anterior à divulgação pública das investigações que posteriormente atingiriam o Banco Master e seu controlador.
A existência do empréstimo não significa, por si só, que tenha ocorrido irregularidade. A questão que permanece sob escrutínio é o conjunto da relação: quem solicitou a operação, quais foram suas condições, qual era a relação societária efetivamente estabelecida e se houve qualquer benefício indevido relacionado à posição pública de Motta.
A mansão de Vorcaro em Brasília
Outro aspecto revelado pelas mensagens foi o uso, por Hugo Motta, de uma residência pertencente a Vorcaro no Lago Sul, região valorizada de Brasília.
Segundo registros extraídos pela PF, Motta utilizou o imóvel pelo menos seis vezes entre junho e novembro de 2025, inclusive em 17 de novembro, dia em que Vorcaro foi preso pela Polícia Federal.
O sistema de comunicação era direto. Vorcaro autorizava o uso do imóvel e funcionários responsáveis pela residência eram avisados sobre a chegada do deputado.
Em maio de 2025, Vorcaro enviou a Motta o contato do funcionário responsável pela casa e explicou que o deputado poderia informar se desejava ou não a presença de alguém para servi-lo durante a permanência no imóvel.
Posteriormente, Motta perguntou se poderia utilizar a residência durante o horário de almoço. Vorcaro respondeu que teria um compromisso e depois iria ao aeroporto, deixando a casa disponível.
Os registros indicam avisos de visitas em 24 de junho, 28 de agosto, 5, 18 e 25 de setembro e 17 de novembro de 2025. O motivo das visitas e eventual presença de outras pessoas não aparece nas mensagens divulgadas.
Motta já utilizava imóvel de Vorcaro antes
Os registros também indicam que a proximidade não começou com a presidência da Câmara.
Em outubro de 2024, Motta estava no apartamento de Vorcaro em São Paulo antes da chegada do empresário. Na ocasião, perguntou se poderia chamar o então presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), para tratar de um assunto.
Vorcaro respondeu autorizando a utilização do imóvel e chegou a dizer, segundo as mensagens divulgadas, que a casa era de Motta enquanto ele estivesse ali.
O episódio mostra que os imóveis do empresário eram utilizados como pontos de encontro por integrantes da política nacional, embora as mensagens divulgadas não esclareçam integralmente os assuntos discutidos em cada ocasião.
Uma reunião que teria avançado pela madrugada
Outro registro citado nas reportagens indica que, em maio de 2025, Motta passou várias horas na residência de Vorcaro. Segundo uma mensagem enviada pelo banqueiro à namorada, o encontro teria avançado até perto das 3h da madrugada.
Nesse caso, Vorcaro também estava presente.
O conteúdo completo da reunião não foi divulgado, de modo que não é possível determinar, somente com esse registro, quais assuntos foram tratados durante as horas de conversa.
Projeto de lei e assuntos do Congresso
As mensagens também mostram que a relação tinha uma dimensão política e legislativa.
Vorcaro procurou Motta para tratar de um projeto de lei relacionado ao mercado de créditos de carbono. O empresário pediu que o deputado analisasse o texto, enquanto Motta respondeu que poderia pegar o projeto para encaminhá-lo.
Em outra conversa, os dois trataram do Fundo Garantidor de Créditos, o FGC, tema de enorme importância para o sistema financeiro e que ganhou ainda mais relevância diante da posterior liquidação do Banco Master.
Em março de 2025, Motta escreveu para Vorcaro lembrando-o de pedir a sua equipe um estudo sobre o FGC. O deputado sugeriu que, caso Vorcaro estivesse em Brasília, os dois poderiam voltar a conversar para avaliar como inserir o assunto na discussão legislativa.
O episódio é especialmente relevante porque demonstra que assuntos relacionados ao setor financeiro eram discutidos diretamente entre o empresário e o presidente da Câmara.
A eleição para a Presidência da Câmara
As mensagens também mostram que Vorcaro acompanhava a disputa pela Presidência da Câmara em 2025.
Em novembro de 2024, Motta conversava com o empresário sobre sua estratégia para conquistar apoio de deputados. Em determinado momento, o parlamentar explicou que pretendia primeiro concluir conversas com partidos e depois conversar individualmente com deputados.
O diálogo demonstra que Vorcaro acompanhava de perto a movimentação política de Motta antes da eleição que o levou ao comando da Câmara.
No réveillon de 2024 para 2025, Motta desejou a Vorcaro saúde para que ambos pudessem continuar “cada vez mais juntos”. O empresário respondeu dizendo ter orgulho da trajetória que estavam construindo.
Pouco depois, Motta foi eleito presidente da Câmara.
“Number 1” e “amigo irmão”
A proximidade também aparece em conversa de Vorcaro com um diretor do Banco Master.
Em fevereiro de 2025, depois da eleição de Motta para a Presidência da Câmara, Vorcaro afirmou que era o “number 1” do deputado e o chamou de “amigo irmão”.
Nas conversas diretamente trocadas entre os dois, o tratamento “irmão” se repete diversas vezes.
O vocabulário utilizado nos diálogos, somado aos encontros, viagens, pedidos pessoais e negócios, tornou-se um dos elementos centrais das reportagens sobre o relacionamento.
Mais de 100 telefonemas
O volume dos contatos também chama atenção.
Segundo o levantamento divulgado pela CNN, foram pelo menos 100 ligações entre março de 2024 e outubro de 2025, além de 102 chamadas não concluídas e 19 encontros presenciais registrados.
Não há, contudo, conteúdo integral de todas as ligações. Portanto, a quantidade de chamadas demonstra frequência de contato, mas não permite concluir o assunto tratado em cada conversa.
Esse ponto é importante para diferenciar o que está documentado do que ainda depende de investigação.
O contato antes da reunião com o Banco Central
Outro episódio mencionado no conjunto de informações sobre Vorcaro envolve uma ligação de Motta horas antes de uma reunião do empresário com integrantes do Banco Central.
Na manhã de 19 de julho de 2025, Motta procurou Vorcaro antes de uma reunião relacionada à tentativa de venda do Banco Master ao BRB. Vorcaro retornou a ligação.
Pouco depois, ele participou de reunião no Banco Central com o presidente da instituição, Gabriel Galípolo, e outros integrantes da autoridade monetária.
O conteúdo da ligação entre Motta e Vorcaro não foi divulgado. Assim, o registro demonstra a proximidade temporal entre os contatos, mas não permite afirmar, sem outras provas, que Motta tenha interferido na reunião ou influenciado uma decisão do Banco Central.
Outros nomes no círculo de Vorcaro
As mensagens extraídas pela PF também mostram que Vorcaro mantinha contato com diversas autoridades e empresários.
Entre os nomes que aparecem no material divulgado estão Davi Alcolumbre, presidente do Senado; Ciro Nogueira, senador pelo PP; Fábio Faria, ex-ministro das Comunicações; Alexandre de Moraes, ministro do STF; além de empresários e integrantes do mercado financeiro.
Um grupo de WhatsApp formado por Vorcaro, Ciro Nogueira, Hugo Motta e Fábio Faria também foi revelado. O grupo era usado para organizar encontros, viagens e outros compromissos.
As revelações mostram que o empresário tinha trânsito em diferentes setores da política nacional e mantinha relações que iam muito além de contatos institucionais ocasionais.
A resposta de Hugo Motta
Hugo Motta negou irregularidades.
Em nota divulgada após a publicação das mensagens, o presidente da Câmara afirmou que mantém diálogo com diferentes setores empresariais e representantes da sociedade em razão de sua atividade parlamentar. Ele disse que as conversas foram divulgadas de maneira descontextualizada e negou que os diálogos apontem favorecimento ou ilícito.
Motta também afirmou que possui uma trajetória de 15 anos na vida pública e declarou confiar nos órgãos responsáveis pelas investigações.
Sobre o empréstimo envolvendo a empresa privada ligada à sua família, o deputado afirmou que a operação ocorreu entre empresas privadas antes de se tornarem públicos os fatos e investigações posteriormente relacionados a Vorcaro e ao Banco Master.
O que as mensagens comprovam — e o que ainda precisa ser esclarecido
O conjunto divulgado pela Polícia Federal permite estabelecer alguns fatos objetivos: Hugo Motta e Daniel Vorcaro mantinham contato frequente; os dois tinham encontros pessoais; tratavam-se como “irmãos”; Motta utilizou imóvel de Vorcaro; houve pedidos de caronas e ingressos; existiu uma negociação envolvendo terreno de R$ 45 milhões e empréstimo de R$ 22 milhões para empresa ligada à cunhada do deputado; e os dois conversaram sobre assuntos relacionados ao Congresso e ao sistema financeiro.
Por outro lado, as mensagens divulgadas não estabelecem, sozinhas, que tenha ocorrido crime ou favorecimento ilegal.
A principal questão que permanece para as autoridades é verificar se a proximidade pessoal e empresarial teve alguma consequência indevida sobre decisões públicas, operações financeiras ou atividades legislativas.
O caso também levanta uma questão de transparência: quanto mais estreita é a relação entre uma autoridade pública responsável por decisões legislativas e um empresário diretamente interessado em temas regulatórios e financeiros, maior é a necessidade de esclarecer a natureza dos negócios, presentes, viagens, empréstimos, encontros e pedidos registrados.
As críticas e questionamentos sobre Hugo Motta, portanto, estão relacionados principalmente à proximidade documentada com Daniel Vorcaro e à sobreposição entre relações pessoais, interesses empresariais e assuntos de natureza pública. Isso não equivale, por si só, a uma conclusão de responsabilidade criminal. A definição sobre eventual irregularidade depende da análise completa dos documentos, contratos, movimentações financeiras, agendas e demais elementos que integram as investigações.
O material divulgado pela PF coloca, assim, Daniel Vorcaro e Hugo Motta no centro de uma relação que envolveu negócios milionários, possível sociedade, empréstimo bancário, imóveis, viagens, camarotes, contatos políticos, assuntos legislativos e dezenas de telefonemas e encontros. A extensão dessa relação e seus eventuais efeitos sobre decisões públicas são justamente os pontos que continuam sob apuração.