
PF aponta que Eduardo Cunha influenciava distribuição de emendas e cita aval da Presidência da Câmara
Investigação da Polícia Federal afirma que ex-presidente da Câmara, mesmo sem mandato, participava da definição de recursos públicos por meio de um suposto esquema paralelo de distribuição de emendas. Defesa nega irregularidades, afirma que Cunha nunca indicou emendas oficialmente e promete contestar as medidas na Justiça.
A Polícia Federal aprofundou as investigações sobre um suposto esquema de direcionamento irregular de emendas parlamentares e concluiu que o ex-deputado federal e ex-presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (Republicanos-MG), exercia influência direta sobre a destinação de recursos públicos, mesmo sem ocupar mandato parlamentar. As conclusões fazem parte de um relatório encaminhado ao Supremo Tribunal Federal (STF), que resultou no bloqueio de aproximadamente R$ 6,15 milhões em bens atribuídos ao ex-parlamentar.
Segundo os investigadores, a estrutura funcionava com a participação da servidora da Câmara Mariângela Fialek, conhecida como “Tuca”, que, de acordo com a PF, teria atuado como peça central na operacionalização da distribuição das emendas parlamentares. O relatório afirma que ela possuía “pleno aval” da Presidência da Câmara dos Deputados para atuar no remanejamento de recursos destinados ao chamado orçamento secreto.
PF vê existência de estrutura paralela para distribuição de verbas
As investigações são um desdobramento da Operação Transparência, deflagrada no fim de 2025, que apura possíveis irregularidades na indicação e execução de emendas parlamentares.
Após a análise do material apreendido no celular e em equipamentos eletrônicos de Mariângela Fialek, a Polícia Federal concluiu que existia um sistema paralelo de tomada de decisões envolvendo a destinação de recursos públicos.
No documento enviado ao STF, os investigadores afirmam que Eduardo Cunha aparecia como um dos principais responsáveis pela definição do destino de verbas públicas, apesar de não exercer qualquer cargo eletivo.
Segundo a PF, a análise das mensagens revela que o ex-deputado coordenava diretamente a destinação de pelo menos 29 emendas da Comissão de Saúde da Câmara, totalizando R$ 6,15 milhões.
Para a corporação, o caso demonstra um elevado grau de influência política exercida por Cunha mesmo anos após deixar o Parlamento.
“Altíssimo grau de promiscuidade”, diz relatório
Um dos trechos mais contundentes do relatório afirma que a atuação da servidora evidenciava um ambiente de pouca transparência na gestão das emendas parlamentares.
De acordo com a Polícia Federal:
“Tudo indica que Tuca contava com pleno aval da Presidência da Casa para promover os desvios de emendas em favor de Eduardo Cunha, intensificando um altíssimo grau de promiscuidade na deliberação do chamado orçamento secreto.”
Os investigadores sustentam que o aprofundamento das apurações permitiu identificar situações concretas de supostos desvios de recursos públicos, apontando Mariângela Fialek como responsável pela operacionalização técnica dessas indicações.
Ex-deputado não exercia mandato
A PF destaca que Eduardo Cunha não ocupava mandato parlamentar durante o período investigado, o que impediria qualquer participação formal na apresentação de emendas ao Orçamento da União.
Mesmo assim, segundo o relatório, ele teria utilizado sua influência política para definir quais municípios seriam contemplados pelos recursos públicos.
Os investigadores afirmam que a servidora colocava sua estrutura funcional à disposição dessas articulações, permitindo que Cunha participasse da definição do destino das verbas.
Na avaliação da Polícia Federal, esse comportamento pode caracterizar crimes relacionados ao uso indevido de recursos públicos.
Operação também alcança Valdemar Costa Neto
A investigação integra o mesmo inquérito que resultou no bloqueio de aproximadamente R$ 119 milhões em bens do presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto.
Os dois casos fazem parte das apurações sobre supostas irregularidades na indicação de emendas parlamentares e no funcionamento do chamado orçamento secreto.
Defesa de Eduardo Cunha nega qualquer irregularidade
Em nota, os advogados de Eduardo Cunha afirmaram que o ex-deputado tomou conhecimento da decisão apenas por meio da imprensa e que não foi ouvido antes da adoção das medidas cautelares.
A defesa sustenta que Cunha não apresentou, assinou ou formalizou qualquer emenda parlamentar investigada.
Segundo os advogados, todas as indicações foram realizadas por parlamentares ou órgãos oficialmente autorizados a participar do processo orçamentário.
A nota também afirma que não se pode confundir articulação política com exercício ilegal de mandato.
Outro argumento apresentado é que os R$ 6,15 milhões mencionados pela investigação correspondem ao valor total das emendas questionadas, destinadas a municípios e órgãos públicos, e não representam recursos recebidos por Eduardo Cunha.
Os advogados acrescentam que a própria Procuradoria-Geral da República teria considerado prematuro o bloqueio patrimonial e informaram que irão solicitar acesso integral aos autos para exercer o direito de defesa e contestar judicialmente as medidas determinadas.
Defesa de Mariângela afirma atuação exclusivamente técnica
Mariângela Fialek também divulgou nota rebatendo as conclusões da investigação.
Ela afirma possuir ampla experiência técnica na administração pública, tendo atuado em diferentes governos federais, incluindo as gestões de Luiz Inácio Lula da Silva, Michel Temer e Jair Bolsonaro.
Segundo a defesa, sua função na Câmara dos Deputados consistia exclusivamente na organização técnica das emendas parlamentares, seguindo determinações da Presidência da Casa e do Colégio de Líderes.
A nota afirma ainda que todas as informações sobre as emendas eram públicas, encaminhadas à Secretaria de Relações Institucionais da Presidência da República e disponibilizadas no Portal da Transparência, conforme exigências estabelecidas pelo Supremo Tribunal Federal.
Por fim, a defesa ressalta que a própria investigação não atribui, até o momento, a Mariângela Fialek a prática de qualquer crime, sustentando que o objetivo da Polícia Federal é apenas acessar documentos e informações relacionados às atividades exercidas por ela na Câmara dos Deputados durante a tramitação das emendas parlamentares.